Velcoro e Bezzerides em ação na segunda temporada de True Detective
Velcoro e Bezzerides em ação na segunda temporada de True Detective

***Há spoilers no texto, então, se você ainda não concluiu a série é melhor só retornar aqui após terminá-la***

A primeira temporada de True Detective realmente me agradou. Lembro-me de esperar ansiosamente pelo próximo episódio. E mesmo que a ideia de investigar e caçar um serial killer não seja das mais inovadoras, o texto calculado, evocativo e cheio de referências literárias de Nic Pizzolatto somado a grande atuação do elenco, encabeçado pela dupla Matthew McConaughey e Woody Harrelson, tornou esse primeiro momento da série uma das melhores produções para a televisão nos últimos anos. Além disso, o formato de antologia, isto é, contar uma nova história a cada temporada, sem manter os mesmos personagens, tendo como elo apenas uma suposta temática, aponta para uma busca constante pela renovação.

Nesse sentido, muito era esperado da segunda temporada de True Detective, que chegou ao seu fim no último domingo, dia 9. Agora, ao invés de termos uma investigação encabeçada por dois detetives, temos três diferentes “pessoas da lei”, a Ani Bezzerides (Rachel McAdams), Ray Velcoro (Colin Farrell) e Paul Woodrugh (Taylor Kitsch) que devem resolver o caso do assassinato de Ben Caspere, administrador da cidade de Vinci. Soma-se a eles Frank Seymon (Vince Vaughn), um ex-gângster que se tornou um empresário fazendo uso de métodos escusos em um esquema de corrupção ligado à prefeitura.

Ao contrário do excesso de sugestões e jogos de metáforas com o que era visto em cena na primeira temporada, aqui é explorado os detalhes de uma trama no melhor estilo noir, que vai se tornando cada vez mais complexa. Ramificações da história permeiam todos os protagonistas, abrindo o leque dos envolvidos. É verdade que algumas subtramas, principalmente do personagem de Taylor Kitsh acabam não agregando muito para a totalidade, embora ela também seja reveladora de uma das temáticas que achei mais interessante na série e que pretendo dar mais atenção nesse texto: como agem os homens e as mulheres em True Detective.

Na verdade, como na temporada anterior, cada um dos protagonistas é assombrado por traumas ou acontecimentos marcantes do passado. Mas há uma diferença de como os homens e as mulheres reagem em relação a isso – o que só deixa mais evidente como a visão de mundo dos homens está comprometida nesse pequeno universo criado por Pizzolatto.

Começando pelo personagem de Kitsh, um veterano de guerra que trabalha como policial rodoviário, dirigindo pelas estradas em sua moto. É ele, inclusive, que em uma de suas andanças encontra o corpo de Caspere. Mas o mais interessante é que ele é um homossexual enrustido, que toma viagra para poder transar com a namorada e quando bebe vai para a cama com o colega soldado com quem serviu em batalha. Embora esse seja um aspecto importante de ser tratado, o roteiro praticamente não aborda a questão da sexualidade – a não ser quando ele é chantageado. Contudo só o modo como ele a abafa já mostra como é um mundo perdido o qual ele vive.

Se o pecado de Kitsh é o de não se impor e sucumbir a esse mundo “dominado por homens”, o do gangster Frank é o do orgulho, da soberba. O que fica evidenciado na sua bela cena de morte: no deserto sozinho, apunhalado pela faca do inimigo – ironicamente, o que ele mais menosprezou. Agonizando e andando alguns metros, tentando vencer sempre, tentando alcançar (em seu delírio) a imagem da esposa (a qual, no final das contas, ele nunca escutou). Esse orgulho masculino tão presente em diversos filmes, livros, músicas, que enaltecem o homem como a figura de ser o progenitor, de ser o chefe do bando, de prosseguir ferozmente até conseguir o que deseja. Era assim que Frank se via, e essa também foi sua perdição.

Velcoro é o mais melancólico dos três personagens principais masculinos. E o mais assombrado pelo seu passado, porque foi justamente o ato de matar o provável estuprador de sua esposa que o transformou em outra pessoa. Como se pegasse a rota errada, mas uma rota consciente. É o mais trágico deles e, provavelmente, o que mais merecia uma redenção (o público ia gostar). Mas um mundo dominado por homens é um mundo de violência. Talvez Velcoro seja o mais violento e desequilibrado dos três. Para dar ordem ao seu mundo, teve que matar.

Já as personagens mulheres, embora não sejam constantemente exploradas em True Detective, ganharam um espaço bem maior nessa temporada. Bezzerides tem a melhor cena de luta, em que manuseia a sua faca, e sua trama é a mais convincente de todas. Em nenhum momento ela é estereotipada como “apenas a personagem feminina para ocupar a cota”. Uma abordagem é pensar que todos os personagens masculinos não souberam resolver os seus problemas ou não tinham o fortalecimento mental necessário para pensarem melhor sobre o que estava acontecendo e tomar as decisões mais coerentes. As mulheres constantemente apresentavam uma maior prudência e força no que fazer. A própria Bezzerides tem um passado sombrio, em que foi abusada quando criança. Mas isso não a paralisa, ela parece conseguir superar com mais facilidade do que todos os outros. Isso fica mais claro nesse episódio final, quando ela aconselha uma personagem feminina que também teve um acontecimento trágico em seu passado a seguir em frente.

E, no final, foram elas que ficaram para contar a história. As mulheres praticamente abandonadas pelos homens violentos, orgulhosos e quase que irracionais. Deixadas com os filhos, porque a metáfora perfeita do filho é a continuidade – e essa analogia percorreu toda a série também. Kitsh via na gravidez de sua namorada uma oportunidade para continuar com a sua vida heterossexual, Frank durante toda a série tentou ter um filho – mas tinha um trauma profundo com o pai, e só pensava no “reinado” que tentava construir, para então poder passar o seu legado para alguém – e Velcoro tentava se aproximar do filho, uma das relações mais tristes e pesadas que já assisti em séries. No final, descobrimos que Velcoro deixou mais um filho, pois Bezzerides aparece com um bebê, oriundo da única noite em que passaram juntos. E é ela que transmite a história adiante ao contar tudo o que aconteceu para um jornalista. Ela e a esposa de Frank passam a viver sozinhas com a criança clandestinamente na Venezuela. E com sua faca na bota, literalmente. É a última coisa que sabemos da temporada.

Isso me dá vontade de traçar um paralelo com o sentido urgente de O tempo e o vento, do escritor gaúcho Erico Verissimo. No livro, são as mulheres que perpetuam a história, que “atravessam” a passagem do tempo, para fincar na memória a saga da família. Os homens sempre estão indo morrer em guerras. É o que sinto um pouco em True Detective: essa figura masculina implacável, que deseja sempre mais, que escolhe matar como solução, que não encontra um bom relacionamento com os filhos e com a continuidade. Essa figura que perpassa o gênero masculino, essa figura do homem bruto e machista, essa figura que foi criada e festejada por eras, está em extinção. Não deu certo. Na segunda temporada de True Detective, acompanhamos personagens em declínio e assombrados pelo passado.  Mas o homem continua sendo o principal algoz do seu gênero.

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Jornalista, mestrando em Comunicação na Ufrgs e Editor-Fundador do Nonada - Jornalismo Travessia. Acredita nas palavras e nas pessoas. Twitter: @rafaelgloria
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2 comentários em “True Detective expõe a decadência do masculino-alfa”

  1. Essa série teve uma segunda temporada bem diferente da primeira porém foi muito boa , aguardo a terceira temporada.

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