O Agente da U.N.C.L.E. desconstrói a rivalidade EUA x URSS com humor

(Crédito: Warner Bros./divulgação)

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O Agente da U.N.C.L.E. (The Man from U.N.C.L.E., EUA/Reino Unido, 2015)

Direção: Guy Ritchie

Roteiro: Guy Ritchie e Lionel Wigram, baseado em série de TV criada por Sam Rolfe.

Com: Henry Cavill, Armie Hammer, Alicia Vikander, Elizabeth Debicki, Luca Calvani, Sylvester Groth, Christian Berkel, Misha Kuznetsov, Jared Harris e Hugh Grant.

Em determinada cena de O Agente da U.N.C.L.E., o espião russo Illya Kuryakin, personagem vivido por Armie Hammer, dança timidamente ao lado de Gaby Teller (Alicia Vikander) no quarto de hotel em que estão hospedados. Esse momento divertido mostra a habitual personalidade fria e durona que os russos são apresentados nesse gênero de filme, mas ao mesmo tempo revela um lado doce e meigo pouco explorado nesse tipo de obra.

Baseado na série homônima de 1964, criada por Sam Rolfe, o longa nos apresenta aos espiões Napoleon Solo (Henry Cavill, o novo Superman), um agente da CIA, e Illya, um espião da KGB. Os dois estão atrás da alemã Gaby Teller. Apesar de inicialmente os agentes terem objetivos diferentes, logo os dois descobrem que as organizações para qual trabalham se juntaram e que eles vão precisar cooperar em uma missão conjunta: evitar que o pai de Gaby crie bombas para a organização criminosa internacional misteriosa.

(Crédito: Warner Bros./divulgação)

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Escrito por Guy Ritchie ao lado de Lionel Wigram (produtor dos Sherlock Holmes do diretor), o filme apresenta personagens diferentes do que estamos acostumados. Solo possui todo o charme de um espião americano, mas é tão metódico e frio, que foge dos padrões de moço bonzinho e patriota que nos foi introduzido ao longo dos anos. Já Illya é o homem grande e forte que remete à caracterização que os russos tiveram durante o período pós-Segunda Guerra Mundial: além de vilões recorrentes, eram conhecidos por sua busca em serem os mais fortes e rápidos – é só lembrar do Ivan Drago de Rocky IV. Porém, o enredo introduz um perfil psicológico que explica a frieza e agressividade do espião russo. E vê-lo ter momentos de doçura e preocupação com Gaby ou em resgatar o único objeto que mantêm lembranças do seu pai, é algo diferente de se ver e, por que não, bonito.

Já a personagem alemã adquire um tom mais femme fatale, ao invés de ser a moça a ser protegida pelos homens – por sinal, algo que temos visto com mais força neste ano. Mas se o longa possui uma heroína forte, a vilã do filme, Victoria (Elizabeth Debicki) é igualmente perigosa. Com uma atuação eficaz, que envolve charme e inteligência – algo que lembra Moriarty, vilão de Sherlock Holmes -, Victoria em nenhum momento se sente presa ao marido Alexander (Luca Calvani). Muito pelo contrário, é ela que toma as decisões e faz o que for preciso para botar seu plano maligno em prática. Alexander apenas segue o fluxo.

Mesmo com ótimos personagens, o que prende a atenção do espectador é a relação de Solo e Illya. Se no início os dois têm suas rivalidades, essa disputa ganha tons cômicos, pois, ao invés de tentarem se sabotar mutuamente ou se odiarem, eles tentam provar que um é melhor do que o outro em suas habilidades. Mas enquanto isso demonstra a mentalidade machista de querer provar superioridade com relação ao outro, o roteiro é inteligente em sempre apresentar essa disputa em situações engraçadas, o que nos faz refletir também do quão boba era essa ideologia durante a Guerra Fria. E com o desenrolar da história, vemos que os espiões percebem que possuem mais semelhanças do que diferenças, isso contribui na leveza do enredo.

Mas se a interação dos personagens funciona, isso é fruto de uma ótima direção de Guy Ritchie em fazer com que a dupla saísse da sua zona de conforto e interpretassem personagens de nacionalidades diferentes. Cavill, que é britânico, consegue perder completamente o sotaque natural e falar um inglês americano perfeito, mas seu personagem ainda mantêm uma atmosfera britânica a la James Bond. Já o americano Hammer surpreende no sotaque russo, dando ênfase a palavras terminadas em ing e a consoantes estranhas do idioma inglês.

(Crédito: Warner Bros./divulgação)

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Tendo um viés mais cômico, Ritchie consegue desenvolver a trama sem perder o tom de sensualidade e suspense que o gênero espionagem oferece. E já que seus filmes são conhecidos pelas constantes reviravoltas, além de apresentar elementos surpresas – algo semelhante ao que ele fez em Sherlock Holmes – o diretor insere esses elementos narrativos na história, tornando o filme coerente com a proposta do filme de ação. Outro elemento importante é que o diretor é eficaz durante as cenas de perseguição, possibilitando que o espectador saiba exatamente o que está acontecendo.

E enquanto franquias como Missão: Impossível, 007 e até mesmo Velozes e Furiosos nos jogam para diversos países afim de mostrar o quão complexo é o problema que os protagonistas enfrentam – algo que, ao meu ver, tem mais relação em apresentar a paisagem dos outros países do que um fator importante para o enredo -, O Agente da U.N.C.L.E. foca em apenas um território, o que facilita para que o espectador não se perca durante o desenvolvimento da trama. Talvez a opção em se manter em apenas uma localidade seja porque a história do filme se passa na década de 1960, o que dificultaria ir a diversos ambientes e ser obrigado a recriá-los naquela época. O que é uma vantagem a trama se passar praticamente toda em Roma, já que o local pouco se alterou arquitetonicamente com relação a aquele período. Por sinal, o design de produção é eficaz em reproduzir uma época tão glamourosa como foram os anos 60 e fazer seu público se sentir imerso naquela época.

O Agente da U.N.C.L.E. é competente em sua proposta de satirizar ideologias que, por muitos anos, foram utilizadas pelos EUA e URSS, principalmente no âmbito das artes, para atacar um ao outro. Mas o filme faz isso sem perder o charme que os filmes de espionagem proporcionam, o que faria James Bond ficar orgulhoso.

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