Amora: uma leitura feminista

amora slideTexto Camila Doval*

Na ocasião, lembro que estávamos indo bem, nunca tínhamos trocado um pneu, estávamos indo muito bem. Até que muitos caras começaram a nos rodear, rindo e dando palpite. Engraçado, nenhum se ofereceu realmente para ajudar, mas ficaram ali como varejeiras, fazendo um tipo de zumbido coletivo, praguejando nosso fracasso. Conseguimos, por fim, sem a ajuda não oferecida de nenhum deles. Na época, teria me ofendido até com a ajuda. Não estou dizendo que a zombaria não me ofendesse hoje, é claro que sim, mas eu aceitaria ajuda para trocar um pneu, visto que nunca na vida troquei um sozinha, fora essa vez em que ajudei a Michele.

Trecho de Amora, de Natalia Polesso (Porto Alegre: Não Editora, 2015)

Amora CAPAUm bando de mulheres empoderadas, é o que são as personagens de Amora. Empoderadas ou em pleno processo de empoderamento. Mulheres com vez e vozes altas, baixas, esganiçadas, sussurradas, gritadas, engolidas, não importa, todas descobrindo, assumindo e, o mais delicioso de tudo, com perdão para a irresistível sem-gracice, a amora do bolo, vivendo a sua sexualidade, a sua autonomia, a sua história, o que são.

Mas esse viver(-se) não é assim tão fácil quanto estou fazendo parecer. Viver o que é, para cada uma das mulheres de cada um dos contos escritos pela já premiada Natalia Polesso, custa algo precioso: o banimento do convívio familiar, a insegurança de existir em público, o silêncio do desejo, a negação de si, a recorrente sensação de fazer tudo errado, a violenta desconstrução do que foi aprendido, assimilado, incorporado, incutido como normal e, em função desse padrão tosco de normalidade vigente, viver o que é muitas vezes custa para essas mulheres rios de dinheiro em terapia.

E a busca de uma medida para a vida funcionar, nas belas palavras da autora, custa também a integridade física da miríade de personagens de Amora: elas caem, rolam escada abaixo, machucam-se, sangram, enjoam e vomitam, ou quase vomitam, ou vomitam por dias (talvez sejam esses os sintomas da machorra) e então engolem o sangue e as lágrimas e os cacos de vidro e expelem o sangue e a fumaça e outros fluidos involuntários que jorram de todos os buracos dos seus corpos na tentativa de expurgar a dor de um renascimento que é diário e que se dá não só interiormente; é para fora que elas querem nascer, e há uma força contrária sempre, ainda.

Mas elas resistem, todas. Tanto as velhas esquecidas que abriram caminhos em silêncio (você já perguntou para a sua avó se ela é lésbica hoje?) quanto as netas que em sua naturalidade anormal não conseguem entender qual o motivo para tanto drama, já que amor, amora, namorada são coisas tão boas para o mundo, tão necessárias e tão… evidentes. Depois de terminar a leitura e parar um momento para prestar atenção ao que o livro ainda ressoa dá para perceber com mais clareza que Amora é a imagem formada por essas inúmeras individualidades unidas pelo mesmo fio condutor e também dá para arriscar que os contos compõem uma novela de possibilidades. E que as velhas, jovens, meninas, aqui e lá, são uma, amora.

A minha leitura é feminista porque o empoderamento da escrita da Natalia saltou páginas afora, e minha índole ativista não me permite ignorá-lo. Mas com isso eu não estou afirmando que a escrita da Natalia seja engajada, apesar de cada uma de suas personagens ser um manifesto pelo viver(-se). A escrita da Natalia representa o que existe da forma como existe: a diversidade dentro da diversidade infinda (e sempre bem-vinda). Está tudo ali, impresso na mais pura literatura, que para mim é isso. Outra coisa não me interessa. Se não diz de mim, da minha vizinha do lado, das sociedades, das possibilidades, do meu acorda-vive-dorme-acorda-em-contato-com-o-outro-todo-santo-dia numa linguagem que me transporta para dentro-fora da minha vida, não me interessa, não me desperta, não me convida para o que é importante. Não me mostra que apesar de toda a ajuda não oferecida, até que algumas e alguns de nós estão indo bem.

*Camila Doval é doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS

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Um comentário em “Amora: uma leitura feminista
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