Presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, Marco Cena, falou sobre o futuro da Feira do Livro (Crédito da foto: Leonardo Kluck/Nonada)
Presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, Marco Cena, falou sobre o futuro da Feira do Livro (Crédito da foto: Leonardo Kluck/Nonada)

Marco Cena está completando a sua gestão na presidência da Câmara Rio-Grandense do Livro e nessa entrevista concedida ao Nonada faz um balanço sobre o seu trabalho, o futuro da Feira do Livro e as mudanças que podemos esperar para os próximos anos. A Feira do Livro começa hoje (30) e segue até o dia 15 de novembro.

Nonada – Essa é a sua segunda Feira na Presidência da Câmara Rio-Grandense do Livro, já que a sua gestão compreende o biênio 2014/2015. Gostaria que você fizesse um balanço do trabalho até agora.

Marco Cena – Estamos passando por um período de transição. Desde que eu assumi senti que seria assim, pois o perfil desse tipo de evento está mudando. A maneira de captação, a maneira de realizar os eventos está mudando. Essas leis, a Lei Rouanet ajuda para caramba, mas, ao mesmo tempo, a batalha tem que ser maior para conseguir, tem que ser um outro tipo de esforço para chegar até lá. A Feira do Livro cresceu muito , a Câmara do Livro é quem gerencia a Feira, mas a Feira hoje cresceu demais. Não que a Câmara não tenha capacidade, mas o evento cresceu de tal forma que está tomando a Câmara. Então, nós temos que nos adequar aos novos tempos e a envergadura da Feira. Na minha gestão, eu estou tentando adequar essas coisas, ajeitar. A própria administração, a comunicação interna, como as coisas acontecem dentro da diretoria. A Câmara é uma instituição privada e não tem objetivo de lucro e nem pode ter. Depende ainda obviamente de verba pública e cada vez menos tem que depender de verba pública, mas pelo tamanho do evento cada vez depende mais. Então, são essas adequações que a gente tem que fazer para que se sustente pelo menos 50% ou mais sozinha. Essas coisas que estou tentando equacionar dentro da Feira do Livro, mas muito mais devido a grandeza da Feira do Livro que está nos obrigando a fazer um novo direcionamento de gestão.

Nonada – Vivemos em um momento de crise aqui no Estado e os investimentos estão curtos, mas a Feira conseguiu manter a participação de grandes empresas como a Petrobrás e a Braskem.

Marco Cena – A crise não é só aqui no Estado, é no Brasil mesmo, vivemos uma instabilidade muito grande…Ninguém sabe o que vai acontecer. O que aconteceu com a Petrobrás foi o seguinte: a Petrobrás é nossa parceira desde 1998, se não me engano. E nós não deixamos em momento algum de contar com ela, assim como a Petrobrás em momento algum fechou a porta para a Feira do Livro. O que aconteceu foi um pequeno descompasso até de fluxo administrativo deles pelo tamanho da crise que estão passando. Já estava acabando o tempo para fechar as contas e não tínhamos ainda um sinal da Petrobrás, um sinal positivo, e nós não podíamos esperar mais. Então, se houve uma crise nesse relacionamento, foi só uma crise de tempo. “Olha só, precisamos que responda para nós, se não vamos ter que procurar outro patrocínio”, mas não foi pela falta de vontade da Petrobrás, não é isso, foi pelas modificações administrativas e políticas que a Petrobrás está sofrendo no momento.

Nonada – Como você avalia o futuro da Feira do Livro? Ela deverá encolher para se manter?

Marco Cena  – Não, eu não penso nisso, acho que aí seria um retrocesso. A Feira não tem como encolher, como diminuir a sua proposta de educação e o comprometimento que  tem com o livro, com a leitura, com o mercado editorial. Não tem mais. Pouca coisa acontece na literatura do tamanho da Feira do Livro. Ela contempla vários setores da cadeia do livro, ela contempla várias escolas públicas e tal…A Câmara do Livro está com vários projetos ligados a literatura  desenvolvendo-os durante todo o ano junto com a Secretaria da Cultura. Então não tem como dizer não para isso. E todos esses projetos culminam, de uma forma ou de outra, dentro da Feira do Livro. Nós temos um comprometimento desde o começo do ano com escolas públicas, com projetos de leitura, com autores e isso não tem retrocesso, não tem como voltar atrás. Nós temos que continuar.

Nonada – A campanha para incentivar doações de Pessoa Física para a Feira do Livro é um novo caminho para a sua organização? 

Marco Cena – É apenas o princípio de uma campanha que estamos começando a desenvolver. Queremos ter um maior comprometimento da comunidade com a Feira do Livro. E é uma coisa fácil e que nós descobrimos durante o processo todo, que é: qualquer pessoa física pode doar até 6% do imposto pago para o governo. O processo é super simples de fazer, via internet. Tem um valor mínimo que é R$100,00. Não é um valor estipulado pela Câmara, é um valor estipulado pela Lei. E é uma maneira de proporcionarmos para a nossa comunidade uma oportunidade de ajudar também a Feira. Não é só a Feira, ajudar todo os projetos de leitura, porque cada contribuição dessa é um ou dois livros, ou mais, para cada comunidade carente, que não tem acesso a leitura ainda. Então é uma maneira de formar gerações, contribuir para a Cultura e você sabe para onde está indo a tua grana, né…

Nonada – É uma programa que vai ficar para as próximas edições?

Marco Cena – Veio para ficar. Esse ano a gente fez de uma forma emergencial, e nós vamos ter na praça um estande que vai orientar as pessoas de como deve ser feito isso. E nós pretendemos fomentar essa campanha todo o ano que vem e assim que sair os detalhes das Leis vamos fazer uma campanha mais forte, mais firme em cima disso, de mais incentivo.

Nonada – E as pessoas não teriam que ter uma maior participação se elas estão colocando o dinheiro também?

Marco Cena – Estamos pensando ainda. Vamos tentar fazer algum convênio, desconto na Feira, enfim. Hoje ainda é emergencial, porque é ligado a Lei Rouanet. Nós não conseguimos captar toda a Lei esse ano, então, nós temos uns 500 ou 600 mil reais sobrando, que estão a nossa disposição. Então, isso é uma forma te tentarmos conseguir o dinheiro que está disponibilizado. Como eu te disse, agora é emergencial, é uma campanha que vai até dezembro para poder usar esse dinheiro que nós temos disponível. Depois disso, para o ano que vem, nós vamos fazer um programa mais forte, mais efetivo.

Nonada – Tu falou em mudanças de leis, o que seriam?

Marco Cena – Não é nada definitivo, mas o que se fala é, o que se desenha é que tanto a LIC, quanto a Rounet, elas vão ter que se readaptar e então vai haver modificações. Nós temos que estar preparados para isso.

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A Feira do Livro não deve retroceder”, acredita Cena (Crédito: Leonardo Kluck/ Nonada)

Nonada – A Feira nessa sua edição nos convida a pensar e refletir…Gostaria de lhe perguntar qual você acha que deve ser a reflexão para está trabalhando com Cultura no momento.

Marco Cena – A Cultura e a Literatura devem ser levadas mais a sério. Acho que estão levando muito na brincadeira, porque eu digo isso: o índice de analfabetismo funcional no Brasil atualmente é assustador. Há muitas pessoas que leem sem entender uma palavra. Hoje nós sofremos um bombardeio de informações, de todos os lados, principalmente as gerações mais jovens, digamos assim. É um bombardeio de informações, um diz uma coisa outro diz outra. A gente vai no Google e faz uma pergunta e vão te mandar quinhentas coisas, tu não vai sair mais sábio dali, tu não vai ter fundamento para saber se é verdade ou se não é verdade. Hoje se fala em homofobia, casamento gay, todo mundo tem uma opinião sobre isso e hoje todo mundo tem acesso a opinião dos outros via redes sociais. Mas quem tá falando com embasamento? Para que lado eu vou realmente? Eu tenho que ter esse filtro, eu tenho que me proteger. Tenho que proteger a minha identidade, se não eu vou ser igual a todo mundo.

Então dentro desse aspecto, dessa realidade que a gente vive hoje, que eu acho que é uma realidade de comprometimento muito raso com as ideias e as circunstâncias que se vive, nada melhor que um livro para fundamentar as tuas ideias. Para tu ler e estudar, rever, formar a opinião em cima disso, acho que o livro tem esse papel. A nossa campanha é justamente em cima disso. Vamos ler mais, vamos fundamentar mais, vamos ter mais certeza do que nós estamos falando. Se não, continuaremos com intolerância sempre em nossas discussões. Vai ser quem grita mais, quem grita menos. Então, é justamente em cima desse pensamento que urge, digamos assim, um novo raciocino em cima da cultura, da política, das relações humanos, e para isso tu tem que ter embasamento.

Nonada – Além das dificuldades econômicas, também tivemos agora a complicação das águas do Guaíba invadindo o Cais Mauá. Como ficou a questão do Teatro Carlos Urbim?

Marco Cena – Quando a gente consegue voltar para o Cais acontece intempérie. Estava tudo fechado já para fazer o teatro para 600 pessoas, teatro grande, bem bonito, com palco retrátil de frente para o Guaíba. Ia ser o palco central da Feira, tudo ia acontecer ali dentro. Conseguimos fechar isso, e daí começou a transbordar o Guaíba…e eu tinha um tempo para construir um Teatro. E aí eu decidi em não fazer lá, não poderia arriscar em construir e daí ter uma interdição no meio. Tenho 17 dias de Feira, só dois dias aquela parte fechada já complicaria tudo. Então, achamos melhor adiar esse projeto, tirar do Cais e colocar aqui para dentro aqui de novo, e daí muita coisa da programação teve que mudar, por isso que atrasou bastante, mas não dava para arriscar.

Nonada – Lembro-me que ano passado também lhe entrevistei e você afirmou que esperava fazer uma renovação, dar uma cara nova para a Feira. Achas que conseguiu?  

Marco Cena – Isso é uma característica da Feira, ela tem que tentar sempre apresentar alguma coisa, não digo nova, mas alguma coisa que desperte atenção para o livro. Então, a gente está tentando sempre tentando criar coisas que as pessoas possam se reconhecer, que encontrem o que estão procurando, sabe…e que coloquem de uma vez por todas na cabeça que o livro é a grande ferramenta. Se não houver uma construção de dentro para fora, de primeiro as pessoas se construírem, não vai haver mudança. De inovações na feira esse ano, nós temos nomes bárbaros que vão vir, nós temos encontros. Nós temos essa explicação para dar para o público, uma explicação na ordem de que esse esforço social tem que ficar sempre muito fortalecido. Esse esforço que a gente faz para colocar o livro e a literatura na vida das pessoas e principalmente nas escolas. A renovação tem que vir por aí, a linguagem, como você vai falar isso? Então, nós temos um trabalho direto na escola de formadores de leitura, sabe? Então, isso para mim é fundamental, começar lá na base.

Nonada – Voltando aquela questão do incentivo do poder público e das pessoas físicas para a feira. A feira ela não é feita só com o dinheiro do poder público. Como funciona?

Marco Cena – Primeiro temos os associados que tem uma contribuição mensal o ano todo e depois para expor na Feira eles também tem que pagar para isso. Então tem essa contribuição toda. Os patrocínios particulares, que, sem eles, não existiria nada. E esses patrocínios particulares obviamente são todos embasados pela Lei Rouanet ou a LIC, que é do poder público. Temos a prefeitura e o Estado que sempre entram com uma verba e que nos ajudam na montagem e no desenvolvimento de projetos que acontecem durante o ano todo. Então é mais ou menos nesse caldeirão de ajuda que a coisa acontece. Mas te digo o seguinte: tudo isso é 50% da Feira, o resto é parceria que a gente tem. Parceria com gente acreditando que a cultura, a literatura e o livro é um grande agente modificado, se não é esse grupo de pessoas e entidades que acreditam nisso, não sai a Feira do Livro. Isso eu te garanto. Se nós não tivermos parcerias não sai. Porque nós fazemos uma Feira com um custo que se botar no papel ela custa 5 vezes mais. Tranquilamente posso dizer isso. A gente só consegue fazer ela a esse custo devido a essas parcerias, a pessoas físicas, artistas, empresários que confiam e sabem qual é o papel que eles têm na sociedade.

Acho que cada vez mais nós temos que depender menos do poder público. Olha esse ano, quantos eventos, não só do Rio grande do Sul, mas do Brasil todo foram limados do calendário? Não aconteceram e se aconteceram foi de uma forma muito pequena.  A Bienal, pô, tem a Jornada Literária de Passo Fundo que não saiu, além de vários outros eventos que não saíram. Por quê? Dependiam exclusivamente do poder público. Então, qualquer crise política algo que pode acontecer em qualquer lugar e em qualquer momento, tu fazer um evento da envergadura que é a Feira do Livro confiando apenas no poder público acho uma irresponsabilidade. A Câmara não vai ficar dormindo, ficar esperando isso, sabe?  Acho que nós temos que cobrar do Poder público a sua parte, se não fizer, vamos fazer nós. Por isso que eu convoco o povo porto-alegrense e gaúcho, vamos fazer nós a Feira. Não vamos ficar esperando o poder público ou a boa vontade , nós temos forças para fazer isso, então vamos fazer isso.

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