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Sandra Coutinho (e) lidera a nova formação, com Michelle Abu na bateria e Silvia Tape na guitarra

 

Fotos e vídeo: Fernando Halal

Mercenária: pessoa que age ou trabalha apenas por interesse financeiro, por dinheiro ou algo que represente vantagens materiais; interesseiro, venal.

Se o dicionário estivesse se referindo à banda As Mercenárias, essa definição seria bem diferente. Uma banda formada somente por mulheres, com letras politizadas, instrumental pesado e vocais agressivos, em plena década de 80, não é exatamente o que se pode chamar de algo movido por “interesse financeiro”.

Com pouca exposição na grande mídia, o hoje clássico grupo de pós-punk paulista nunca primou por caminhos que levassem ao lucro fácil e ao sucesso instantâneo. Foram apenas dois álbuns de estúdio, Cadê as Armas (1986), e Trashland (1988). Uma discografia pequena, mas que resistiu ao teste do tempo e, aos poucos, vem sendo redescoberta pelas novas gerações.

É esse interesse dos jovens que levou a baixista Sandra Coutinho, única remanescente da formação original, a reativar a banda após um longo período de inatividade. Não que haja um enorme séquito de novos fãs (na apresentação do dia 29 de setembro no bar Tabu, em Porto Alegre, havia pouco mais de 50). Porém, a empolgação dos fãs é tamanha que faz a líder das Mercenárias se entusiasmar também. “Eu resolvi continuar porque o público é interessante, segue junto, conhece os discos… A gente toca um repertório que tem 30 anos, e mesmo assim permanece atual”, diz Sandra, em entrevista ao Nonada. Acho que é porque a forma como anda a humanidade segue a mesma”, filosofa.

O show

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Sandra comanda As Mercenárias durante show em Porto Alegre

Ao lado de Silvia Tape (guitarra e vocais) e Michelle Abu (bateria e vocais), Sandra esbanja energia e bom humor em cima do palco. A descontração é tanta que, em dado momento, ergue uma taça de espumante. “Tim-tim!”, brinda ao público e às companheiras de banda, que prontamente erguem as suas.

A apresentação das Mercenárias consiste na execução de quase todas as músicas já gravadas pelo grupo – incluindo, aí, algumas da Demo 1983, lançada recentemente e disponível para download aqui –, com destaque para as ácidas “Polícia” (nada a ver com a dos Titãs) e “Santa Igreja” e o maior clássico “mercenário”, “Me Perco”.

Na formação atual, Sandra assume os vocais, mas Michelle e Silvia dão uma forcinha, formando um coro potente. “A Rosália (Munhoz, primeira vocalista) tinha uma voz rasgada, forte. A minha é diferente, mas, com o reforço das meninas, conseguimos criar uma sonoridade intensa também”, destaca Sandra. Tecnicamente, o instrumental supera o das gravações originais, muito graças à pegada de Michele, que, literalmente, senta a mão na bateria.

Igreja x religiosidade

Antes de “Santa Igreja”, Sandra faz um breve comentário. “E viva o papa Francisco, que parece ter o maior bom senso da face da Terra”, diz. Ao ouvir algumas risadas do público, rebate: “sério, gente, não estou sendo irônica”.

Questionada sobre qual era, de fato, sua intenção, ela garante não ter problemas com o papa ou com religião. E que não se arrepende de nada do que escreveu. Um trecho de “Santa Igreja”: “O jovem rebelde e criativo/questiona e desobedece o poder/daí encontra com Jesus/e as leis da Santa Igreja vai obedecer/vai se foder!”

“Em ‘Santa Igreja’, a letra é minha. Nela, eu coloco a minha crítica à instituição igreja, não à crença. Hoje é claro que eu sou outra Sandra, no sentido de que naquela época eu me considerava ateia ou coisa do gênero, mas de lá pra cá eu passei por muita coisa, tomei daime, fui no candomblé… Falei do papa, porque, ao meu ver, ele conquista as pessoas sem que elas precisem virar católicas, e, ao mesmo tempo, abre a cabeça dos católicos para várias questões. Ele não demonstra problemas em conversar com o Fidel Castro, por exemplo. Fala coisas importantes que nenhum estadista tem coragem de falar. Tem letras que são pesadas no sentido de ter palavrão, naquela época era um recurso da gente, de rebeldia”, argumenta.

Pioneirismo

Durante a entrevista, várias pessoas surgem no camarim para tirar fotos ou bater um papo com as integrantes da banda. Algumas meninas as abraçam e agradecem pelo pioneirismo das Mercenárias, banda que abriu caminho para as mulheres no cenário musical do Brasil. Sandra fica feliz com o reconhecimento, porém, não demonstra muito apego a bandeiras.

“Eu acho que o mais importante é você estar alinhada com a sua história. Se tiver os seus princípios preservados, muita coisa não vai acontecer contra você. A gente tinha princípios. Ser mulher não me impediu de fazer o que eu faço. Se eu me sinto envergonhada, não é o outro que tá me censurando, sou eu mesma tô me censurando. Então, acho que o ‘criar com mulheres’, no nosso caso, não se dá pelo fato de dizer ‘olha, somos mulheres’, é porque simplesmente é confortável para nós”, defende.

Idas e vindas

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Sandra espera gravar novo disco de inéditas

Sandra está satisfeita com a atual formação das Mercenárias, como um trio. Porém, não foi fácil chegar até esse formato. As primeiras tentativas de retomar o grupo consistiam em arregimentar antigas componentes, como Rosália e a guitarrista Ana Machado. Responsável pelas baquetas, Lou largou a música e, após assumir identidade trans, hoje é um conhecido ativista e ator, Leo Moreira Sá.

Após o fim da banda – que, depois de estrear pelo selo Baratos Afins, gravou o segundo disco pela poderosa EMI e logo em seguida levou um pé na bunda da gravadora –, cada mercenária tomou seu rumo. A baixista partiu para a Alemanha, onde teve diversos projetos musicais diferentes, não necessariamente ligados ao rock. Porém, a cada passagem pelo Brasil, surgiam convites para um revival.

“Eu fiquei 14 anos fora, e vinha mais ou menos de dois em dois anos. Nessa época, eu cheguei a entrar em contato com as outras integrantes, mas nenhuma delas topou, então eu fiz uma apresentação com o Clemente (vocalista e guitarrista do Inocentes), o Mingau (baixista do Ultraje a Rigor e ex-guitarrista do Ratos de Porão) e o Edgar (Scandurra, guitarrista do Ira!) na bateria, então foi As Mercenários (risos). Aí viajei de novo para a Alemanha e, quando vim definitivamente para cá, nem pensei na possibilidade de voltar porque já sabia que elas não iam topar a parada”, explica.

“Então, certa vez o Edgar veio e me disse: ‘querem que a gente faça um show’. Era no Sesc Pompeia. Aí eu arrisquei chamar a Rosália, e ela topou; a Ana, de jeito nenhum. Conseguimos uma guitarrista, a Geórgia (Branco). E o público foi muito receptivo! Mercenárias era uma banda underground, gravou só dois discos, com uma tiragem reduzida, mas tinha um público incrível, de outras gerações. Aquilo pra mim era um mistério! Como a banda sobreviveu quietinha e todos conheciam esse repertório? Então a gente continuou, mas, como o Edgar não podia, entrou a Pitchu e começamos a fazer shows.”

Porém, essa formação não durou muito tempo. “Geórgia vinha de outra praia, mais rock’n’roll”, e Pitchu era uma grande baterista, mas vinha da escola heavy metal, queria fazer umas coisas mais elaboradas que as músicas não pediam. Além disso, certo dia a Rosália disse que não queria mais e a gente parou de novo”, lembra.

Mercenário honorário

Edgar Scandurra tem um papel curioso na história das Mercenárias. Único integrante do sexo masculino que já passou pela banda, o guitarrista fez as vezes de baterista na primeira formação, chegando a gravar a demo de 1983. Depois, apresentou Sandra às atuais integrantes.

“Edgar Scandurra fez o link com a gente: eu conheci Michele tocando no Benzina, que é o projeto solo eletrônico que ele fez quando o Ira! acabou por um tempo. E através dele conheci a Sílvia também.”

“Eu fiz um show no restaurante do Edgar, ele tinha um restaurante pequenininho, e promovia uns showzinhos lá, bem íntimos”, complementa a guitarrista, lembrando que é, originalmente baixista. “Pra mim é um desafio muito legal, porque esse é o único trabalho em que eu toco guitarra. Eu não sei tocar outras músicas, só as das Mercenárias!”, confessa Silvia.

O futuro das Mercenárias

Sandra considera a inexperiência de Silvia como guitarrista (“acaba sendo uma vantagem, pois ela acaba fazendo um som completamente dela”) e a habilidade de Michelle na bateria essenciais para o que chama de “Mercenárias 2015”. “Elas se entregaram à história da banda, que, além do instrumental diferenciado, tem muitos backing vocals. Além de pegar essa coisa de palco, a gente também tem essa ‘liga’ criativa, partindo para a criação, composição.”

Eis que surge a deixa para a inevitável pergunta: é possível esperar um terceiro álbum das Mercenárias? “Temos proposta de fazer um ao vivo, mas já avisamos ao pessoal do selo (Nada Nada Discos, que lançou este belo box) que temos interesse em gravar alguma coisa de estúdio e eles tão abertos a isso, podem fazer um contrato com a gente. Eu gostaria que a gente tivesse um autoral inteiro”, revela Sandra. Os fãs (novos e velhos) ficam na torcida.

Veja aqui um trecho da entrevista, em que Michelle Abu e Silvia Tape falam sobre a influência das Mercenárias para elas, além do vídeo de “Me Perco”, ao vivo em Porto Alegre:

 

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