Fotos: Ismael Fonseca

Na última edição do Sopapo Poético, o Nonada conversou com os dois convidados da noite. Um poeta e um artista multimídia que levam o protagonismo negro consigo, para o seu trabalho, fazem questão de debater questões sobre negritude. Confira abaixo as entrevistas.

Moisés Patrício

Sarao-3Moisés Patrício é artista multimídia e arte-educador. Nasceu em Santo Amaro, São Paulo. Trabalha e vive como artista e educador. É membro-fundador do Atelier Coletivo DES (Dialéticas Sensoriais), que, desde 2006, realiza ações coletivas estéticas, produzindo exposições, instalações dialéticas sobre arte contemporânea e urbanidade nas periferias de Santo André e São Paulo. Moisés Patrício participa da Mostra X, em cartaz na Fundação Ecarta até o dia 15 de novembro. No Sopapo Poético, Patrício fez uma performance baseada na religiosidade negra, apresentando um de seus alter egos: o Preto Patrício. Através de sua arte, Moisés Patrício expõe temas da comunidade negra para quem não está acostumado a ver problematização.

Nonada Gostaria que tu explicasse um pouco a série “Aceita?”, como ela começou e como foi desenvolver esse projeto.

Moisés A série “Aceita?” nada mais é do que uma problematização da mão escrava no Brasil. Evidentemente eu quero com esse trabalho, eu pretendo provocar reflexão à contribuição intelectual do negro no Brasil. Então, para problematiza essa questão, eu resolvi fotografar a minha mão. Porque, diariamente, as pessoas no meu entorno em São Paulo costumam reduzir a minha contribuição intelectual a uma simples mão de obra. Ou imagina que a minha contribuição só chegue a uma mão de obra. Então assim, eu falei “bom, se as pessoas só percebem a minha mão, então vou começar a dialogar a partir da minha mão”. Então eu começo uma pergunta, se as pessoas aceitam essa condição da mão escrava no Brasil. Então é assim: você aceita? E, a partir dessa pergunta, eu vou fazendo uma foto por dia e publicando nas redes sociais com diversas questões relacionadas à mão de obra, à manufatura, ao gesto. Tudo que está intrínseco ao negro e à mão do negro no Brasil, por mais que as pessoas não imaginam.

Nonada Como tu vê a importância de pontos de cultura negra? Em Porto Alegre, por exemplo, tu já conhecia a cidade? Tinha conhecimento de como é aqui?

Moisés Eu não conhecia Porto Alegre e estou encantado. Porque se tem um estereótipo absurdo de Porto Alegre, como se tem de tudo. E em São Paulo, a máxima é que Porto Alegre é um front de resistência da branquitude. “Não, mentira!?. Incrível isso, como assim!?” Isso é um absurdo, é mais uma estratégia de diluição e eu percebi hoje estando aqui. Bom, na verdade tentaram me diluir desse movimento, desse ponto de resistência, na verdade que nem é o candomblé, que nem é o sarau, que nem são as periferias, que nem é a capoeira, esse(Sopapo Poético) é mais um ponto de resistência, uma leitura contemporânea que nos é oferecida como ferramenta de oralidade. Então assim, eu acho incrível, eu acho que pontos de resistência como esse têm que, cada vez mais, ser proliferados. Porque entre nós mesmos(negros) tem uma dificuldade de nos reconhecermos. Evidentemente hoje eu quis causar um espanto e optei pela religiosidade porque sei que esse é um tema tabu. E é um tema tabu porque essa coisa foi roubada da gente mesmo. Todo esse aprendizado com o corpo inteiro foi tirado, foi fragmentado, porque assim fica mais fácil de controlar, não é verdade? E o controle é isso, você segmenta para poder ter controle da coisa. E eu convido todos que estão participando tanto com a série “Aceita?” quanto com essa ação performática para, justamente, aprender com o corpo inteiro. Para que exija que quando o seu processo se dê, ele se dê de forma completa, entendeu? Então, eu gostaria de ter falado muito mais coisa, espero ter outra oportunidade. Eu acho que assim, temos que comer, temos que dançar, temos que espiritualizar, tudo ao mesmo tempo. Não dá para fragmentar mais as coisas.

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A performance de Moisés prendeu a atenção de todos no Sopapo

Nonada E essa apresentação no Sopapo Poético? Tu falou que é um alter ego, o Preto Patrício.

Moisés Na verdade, na arte eu crio nesse espaço. Então assim, na verdade eu vou me apropriando de muitas coisas, e, principalmente, reapropriando da nossa história para poder provocar nas pessoas, na genética das pessoas essa memória. Então assim, para remeter a ancestralidade, eu invoquei um ancestral que é, justamente, um familiar que veio do Benin. Que vivia em um reinado em Benin, e que nesse reinado ele, justamente no período em que os portugueses estavam indo lá para escravizar as pessoas, ele foi desestabilizado e escravizado, e veio para o Brasil. E aqui no Brasil, teve que se readaptar porque lá era ele o Rei, e aqui ele era simplesmente um Preto Velho. E aqui o Preto Velho é uma redução do indivíduo, porque o Preto Velho, na verdade, é a metáfora do negro que resistiu ao sofrimento. E aí, ele sobreviveu ao sofrimento. Aí você fala: “Pô, como que esse cara sobreviveu ao sofrimento, e hoje existe um grupo enorme de jovens sendo assassinados. Como que esse conhecimento pode ser repassado?” Evocando essa presença. Então hoje, foi um pouco da evocação dessa presença de um ancestral. E que ele vai passando de tempo em tempo, e ele retorna ao seu reinado. Na verdade, ele começa com uma roupa toda branca, e depois ele termina com essa roupa dourada, que nada mais é, essa a metáfora do retomar do empoderamento.

Nonada E no teu trabalho, tu tem muitos alter egos?

Moisés Tenho muitos alter egos, muitos personagens, e eles aparecem em várias ocasiões. Tem vezes que ele não quer aparecer.

Nonada Tu sempre comenta sobre a importância de artistas negros no mundo da arte.  Qual é a importância?

Moisés Bom, a importância de artistas negros é justamente você se ver no outro. Quando você vê um artista negro você entende que existe uma cultura no lugar. Então você não pode falar que existe uma cultura, se ela não for representada. Quanto mais artistas negros, mais referências os jovens vão ter, mais rica a história vai ficar, o Brasil vai se desenvolver com mais potência. E é isso, quanto mais artista negro, quanto mais negros tiverem a percepção do teu potencial artístico, da tua raíz artística, quer dizer, da função da arte, com mais potência esses espaços vão acontecer.

 

Jorge Fróes

Sarao-12Natural de Porto Alegre, Jorge Fróes é poeta, escritor e professor língua portuguesa e trabalha com literatura. É também integrante da Associação Negra de Cultura e um dos idealizadores do projeto Leituras Negras, que, desde 2005, promove o encontro de leitores para reflexão e discussão de livros com temática negra. Produziu, com outras 20 pessoas, o livro sobre Oliveira Silveira após a morte do professor. No Sopapo Poético, Jorge Fróes lançou seu primeiro livro individual de poesia, Estamos Quites.

Nonada Como tu vê o Sopapo Poético? Já conhecia, participou?

Fróes O Sopapo Poético é uma roda de poesia realizada para a população negra. É “Sopapo Poético: Ponto Negro da Poesia”. Um evento que abre espaço para escritores negros e já fui um dos convidados, inclusive, em maio de 2014. O Sopapo Poético já trouxe o Cuti aqui, já homenageou Paulo Ricardo Morais. O Sopapo Poético é um evento que cada vez mais cresce na cidade e que mais gente vai se agregando. Com feira, com arte, com cultura, com dança. O Sopapo Poético é o ponto negro de cultura, neste momento, na cidade.

Nonada E hoje tu está lançando o teu livro no Sarau, poderia falar um pouco sobre a obra?

Fróes O meu livro Estamos Quites tem um viés que é voltado para a cultura negra, mas tem aspectos gerais. Poemas que eu, é meio chato falar de si mesmo, mas poemas que eu julgo que têm um aspecto filosófico, que tem uma viés muito grande. Tem alguns poemas que falam, por exemplo, em Deus. E, de certa forma, dialogando com Deus no ponto de vista de igual para igual. Esse título Estamos Quites é um poema que diz: “que as coisas grandes não interessam, nem deus me interessa”. Mas estamos quites, porque Deus não se interessa pelas coisas pequenas. Então, essa mostra, esse pedacinho que eu te dei do poema é alguns poemas que falam sobre Deus num jogo de igual para igual. Tem textos por ali escritos há 20 anos. Tem um poema meu chamado “Danço” virou espetáculo meu em Porto Alegre, organizado pelo grupo Gadei. E tá completando 20 anos esse ano. Então, é o meu primeiro livro individual. Eu tenho participações em antologias e em outros projetos. Individual é o primeiro.

Nonada Cultura negra em Porto Alegre, como tu vê ela?

Fróes Cultura negra, ela sempre teve e sempre existiu. Sempre se organizaram(os negros) na forma de terreiro, carnaval, em eventos literários, o Exemplo é um jornal feito aqui. Inclusive o Oliveira facssimilou. É, sempre teve e vem se ampliando. Ainda não é o ideal, acho que o ideal é o dia que a gente cruzar nos lugares e tiver 50/50, porque a população negra tem esse percentual no país. Pode não ter esse percentual no Estado, mas tem no país, no Brasil como um todo. Então, ela vem crescendo, mas ainda distante do que poder ser, do que pode vir a ser.

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