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Baiano esbanjou vitalidade e promoveu um arrasta-pé coletivo no Salão de Atos da Ufrgs

Texto e Fotos: Fernando Halal

Irrequieto. Ousado. Rebelde, vanguardista. Libertário. Gênio. Quantos vovôs por aí conseguem se enquadrar em tanto adjetivo, sem aparentar senilidade? Certamente um deles é Tom Zé. Aos 79 anos recém comemorados, o baiano de Irará aterrissou esta semana em Porto Alegre, onde fechou a série “Irreverentes” do projeto Unimúsica 2015 com uma apresentação que deixou o Salão de Atos da Ufrgs procurando o queixo no chão.

Como era de se esperar, aliás. Tom Zé no palco é sinônimo de festa. Fora dele também: que o digam as dezenas de admiradores que, horas antes do show, foram conferir sua entrevista aberta no mesmo local. O papo informal aliado à persona amalucada do músico garantiu muitas risadas. “A molecada costumava reduzir os nomes das cidades, como Belo Horizonte, que virou ‘Belô’. Como é que se reduz Porto Alegre?”, questionou. O povo entrega “Poa”, e ele: “Prefiro Poá, porque Poa meio que dá um susto na pessoa”, antes de cair na gargalhada.

De volta ao show: com ingressos esgotados em poucos minutos a entrada simbólica foi 1kg de alimento já era de se esperar um público, no mínimo, bastante ansioso pelo reencontro com o grande marginal da Tropicália. Na plateia, um mix de fãs veteranos, universitários de humanas, ciclistas e vendedores de artesanato praticamente acampou em frente ao prédio e trouxe ao espetáculo um adequado clima de flower power.

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Vestindo lingerie, ele fez uma declaração de amor às mulheres em “Ogodô, Ano 2000”

No palco, está a mesma banda que acompanha o músico há pelo menos uma década: Daniel Maia (guitarra), Felipe Alves (baixo), Jarbas Mariz (cavaquinho e percussão), Cristina Carneiro (teclados) e Fábio Alves (bateria). Para abrir a noite, o sexteto resgata a quase desconhecida “Nave Maria”, do disco homônimo de 1984. Não, definitivamente não estamos diante de um showzinho feijão com arroz de um velho e cansado medalhão da MPB.

O homem que um dia cantou “netos e bisnetos irão lhe sucedendo assim, sempre correndo, pois a grande cidade não pode parar” é mesmo imparável. A canção seguinte é uma releitura para a sua “2001”, imortalizada pelos Mutantes em 1969, e que ao vivo ganha variações de tom, requebradas de quadris do cantor e piadas inenarráveis com Rita Lee e o pênis de Roberto de Carvalho (só quem estava lá para saber).

“Vivo a vida toda pensando que sou criança, então não se envelhece”, ele filosofa, lá pelas tantas. Difícil discordar – muito embora uma criança não seja capaz de cunhar versos tão safados quanto os de “Geração Y”, a primeira amostra do novo álbum (Vira Lata na Via Láctea, de 2014) a dar as caras no repertório: iPad, ai, pede/iPod, aí pode! e por aí vai. “Essa eu escrevi antes de aprender o que é ‘mandar nudes’, senão teria colocado também”, entrega ele.

Por falar em novas gerações, o show também privilegia as recentes dobradinhas de Tom com nomes bacanas da neo-MPB, como o sambinha “Banca de Jornal”, parceria com Criolo, “Salva a Humanidade”, gravada com a Trupe Chá de Boldo, e “Papa Francisco, Perdoa Tom Zé”, escrita por Tim Bernardes (O Terno).

Pouco antes de “Ogodô, Ano 2000” ele defende que “esse negócio de que Deus não gosta de mulher é história, isso foi coisa do Rei Abraão”, enquanto, sem qualquer cerimônia, começa a vestir uma vistosa calcinha vermelha por cima da calça. Testemunhar um quase octogenário arriscar tantos contorcionismos já é um espetáculo à parte, em uma performance que às vezes lembra um lunático recém solto da camisa de força. Feita essa observação, uma peça de lingerie passa a ser mero detalhe.

A transgressora fase anos 70 é representada por “Menina, Amanhã de Manhã (O Sonho Voltou)”, “Hein?” e “Augusta, Angélica e Consolação”, e aí vem o ápice de uma noite já recheada de grandes momentos. Quando ele finalmente empunha o violão e solta os primeiros acordes de “Xique-Xique”, o forró come solto. O baixista Felipe conclama o povo a subir ao tablado e é prontamente atendido por uma legião que já não aguentava ficar sentada. O breve arrasta-pé termina com um batalhão de dançarinos rodeando Tom, que a essa altura faz movimentos dignos de um rockstar, dedilhando seu instrumento ajoelhado no chão.

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Fãs do interior do Estado presentearam o músico com um figurino especial

A plateia volta para seu lugar, mas já não há tempo para muita coisa. Nem bem encerra a última canção, a indefectível “Tô”, o compositor convoca todos para um encontro casual no lado de fora do prédio. Distribui beijos e abraços, faz careta para selfies, autografa discos, faz questão de aderir publicamente ao movimento Cais Mauá de Todos, e promete voltar com material novo.

Ah, se todos envelhecêssemos assim. Confesso que fico cansado só de pensar.

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Um comentário sobre “Tom Zé não pode, não deve e nem quer parar

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