No coração do mar retrata a busca humana por um sentido

No Coração do Mar é o livro sobre a história que inspirou Moby Dick

No Coração do Mar, o novo longa de Ron Howard, é inspirado no livro de mesmo nome (que não li) do historiador Nathaniel Philbrick. A obra relata o naufrágio do baleeiro Essex em 1920. Esta foi a tragédia que teria dado origem ao clássico Moby Dick, de Herman Melville. O próprio, inclusive, aparece no filme (anos depois) enquanto personagem (interpretado por Ben Whishaw) que decide entrevistar Thomas Nickerson (Brendan Gleeson, e, enquanto jovem, Tom Holland), um dos sobreviventes naquele momento do desastre que levou um grupo de marinheiros a ficarem por três meses navegando em botes sem suprimentos adequados.

Nickerson, que atua como narrador e agente do evento, tem apenas 14 anos na época em que saiu para navegar com o Essex em busca de óleo de baleias. O navio parte da ilha de Nantucket, em Massachusetts, quando a atividade baleeira ainda não possuía limites claros e diversas companhias atuavam na área. A embarcação deveria trazer dois mil barris com o produto, o que (cálculos meus a partir do demonstrado no filme) exigiria a caça de cerca de 40 baleias. O grupo sofre com diversas catástrofes naturais e demora para encontrar o primeiro baleal (cerca de três meses). Devido à ganância dos comandantes, o navio naufraga após um confronto com um “monstro” – uma baleia gigantesca -, deixando os marinheiros perdidos no oceano, que tentam sobreviver buscando soluções terríveis e nada ortodoxas naquele ambiente tão inóspito e desesperador.

Logo de início, ele estabelece a importância da dinâmica entre o capitão George Pollard (Benjamin Walker) e seu primeiro imediato, Owen Chase (Chris Hemsworth). Enquanto o primeiro descende de uma rica família de baleeiros e atua com certa prepotência, Chase é de origem humilde (ou de “forasteiros” como é chamado ao longo da projeção) e utiliza-se de todo o conhecimento que adquiriu ao longo de sua vida a partir da experiência. O contraste entre o conhecimento formal do capitão e a vivência do primeiro imediato pode ser visto, inclusive, quando enquanto Chase sabe o que fazer com naturalidade no caso de uma tempestade no mar, o outro utiliza-se de instrumentos marítimos que a maioria daqueles marinheiros sequer um dia colocou ou colocaria as mãos. A partir disso, o conflito entre os dois personagens torna-se crescente, mas ambos parecem respeitar-se a medida em que o tempo passa.

Marinheiros do Essex em meio a um baleal em No Coração do Mar

Marinheiros do Essex em meio a um baleal em No Coração do Mar

Porém, a tensão entre Chase e Pollard nunca chega a um extremo ou não é dada atenção suficiente a ela. Existem também outros momentos no qual o roteiro parece se apressar, não tomando o tempo necessário para dar a dramaticidade necessária. Entre eles, o mais gritante é quando Chase encara nos olhos a grande baleia branca que “causou todo o sofrimento” até ali. O encontro é rápido, nada tenso e frustra o espectador que espera, no mínimo, algum conflito ou crise existencial daquela situação. Além disso, a perseguição do animal aos botes é sutil, e aparece em segundo plano, mostrando que a real intenção do filme é focar na tristeza vivida pelos homens, mas ainda assim, frustrando por tirar do espectador esse possível conflito sobre a interferência humana no mundo selvagem.

Apesar disso, o longa tem muitos méritos. Relatando o que parece ser a vida em um baleeiro, entendemos a exigência do trabalho pesado que ali se apresenta. O Essex, longe de ser pomposo, apresenta-se como uma eficiente ferramenta de trabalho. O filme, graças à Direção de Arte responsável de Neal Callow, Dean Clegg e Nick Gottschalk, também mostra o processo real extração do óleo de baleia como sujo, desgastante e que nos faz questionar como aqueles homens eram capazes de aguentar tanto tempo (meses ou anos) no mar no meio de toda aquela situação. As privações e dificuldades nos botes também propõem exemplos da resiliência humana em tantos casos extremos.

O filme é construído a partir das memórias de Nickerson, e, sendo assim, acerta ao idealizar certas situações como quando aquela em que Owen sobe até o mastro do navio para arrumar algum problema nas velas. Enquanto o primeiro imediato escala a escada de cordas, uma música heróica toda ao fundo, pois estamos sendo narrados a partir das memórias de um rapaz de 14 anos, que certamente idealizou aquela situação ao longo dos anos, especialmente depois de conviver com um camarada como Owen Chase.

CH é o primeiro imediato Owen Chase

CH é o primeiro imediato Owen Chase

E Chase, que parece sempre estar mais à vontade entre a tripulação do navio do que na cabine de comando, encarna bem o papel de herói e ícone de navegação do momento. Figura típica associada à meritocracia e ao self made man americano, ele veio “do nada” conquistando seu espaço dentro do mercado baleeiro, sendo conhecido por grandes figurões locais. Mas ainda assim, é deixado de lado quando um nome como George Pollard e sua árvore genealógica aparecem no cenário.

Ron Howard, um diretor com bons filmes como Rush (2013) e Uma Mente Brilhante (2001) e exemplares medíocres, como O Código Da Vinci, parece acertar neste No Coração do Mar. Há alguns erros (a relação entre Chase e a esposa beira a breguice), mas, apesar disso, ele se apresenta como uma bela obra de resistência, maturidade e perseverança. É importante marcar que a constante busca por provar algo parece guiar aqueles homens. Para Owen Chase, melhorar a vida da esposa é o horizonte. George Pollard precisa demonstrar seu valor perante a família. E Thomas Nickerson, órfão e sozinho, encontra dentro das paredes daquele navio o caminho para tornar-se um adulto.

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