Daisy Domergue (Crédito: The Weinstein Company)
Daisy Domergue é agredida diversas vezes durante o filme (Crédito: The Weinstein Company)

Nunca me considerei uma fã absoluta de Tarantino, apesar de admirar vários de seus trabalhos. Em questões de representatividade feminina, sempre achei o diretor esforçado, mesmo que não atingisse sempre os objetivos. A Noiva, Jackie Brown, Elle Driver, Vernita Green, O-Ren Ishii, Mia Wallace, Jungle Julia são algumas das mulheres dos longas do diretor que mostram a sua consideração pela força, habilidade e inteligência femininas. Porém, é com surpresa (para mim) que em seu novo filme, Os Oito Odiados, Tarantino erra no que diz respeito às mulheres. E erra feio.

No longa, um caçador de recompensas leva uma mulher para responder à justiça em uma cidade, acompanhado de seu cocheiro. Uma nevasca está próxima, e eles acolhem mais dois homens: outro caçador de recompensas e um jovem que, curiosamente, será empossado xerife da mesma cidade onde a criminosa pagará pelos seus crimes. Devido ao mau tempo, eles buscam abrigo em uma conhecida estalagem, onde encontram mais quatro homens. Pouco a pouco, as histórias vão se cruzando.

Domergue em cena, sendo acorrentada e arrastada por um personagem
Domergue em cena, sendo acorrentada e arrastada por um personagem (Crédito: The Weinstein Company)

Entre os momentos problemáticos, há vários envolvendo um homem em situação de poder sobre uma mulher. Não apenas a carregando acorrentada para onde quer que ele vá, John Ruth (Kurt Russell) arrasta Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) durante boa parte da projeção seguindo seus próprios desejos. Ele agride Daisy Domergue cada vez que ela levanta a voz para ele, chegando a jogar um prato de comida quente sobre seu rosto e quebrar o violão com que ela tocava música. Mas pasmem: ele também limpa o rosto dela, fornece comida e a tutela. Com essa, Tarantino quase fecha a equação dos relacionamentos abusivos. Essa situação em momento nenhum se inverte. A violência não é problematizada ou pelo menos vista como uma situação tensa. Bater na ÚNICA personagem mulher entre o grupo principal é totalmente naturalizado em tela.

Sim, Daisy Domergue é uma criminosa. Ela tem um histórico desconhecido durante boa parte da projeção, é racista e uma pessoa aparentemente cheia de defeitos terríveis. Logo, eu mesma não gosto dela enquanto personagem. Mas é interessante questionar o porquê de Tarantino sentir necessidade em atribuir tantas qualidades horríveis à personagem feminina (várias, das quais, também são atribuídas a personagens homens e brancos que dividem a tela com Domergue e que continuam intocáveis). Seria para justificar a violência que ela sofre? De qualquer maneira, o que Daisy Domergue passa na mão daqueles homens é desproporcional. Ela apanha por levantar a voz, por contestá-los em meio às adversidades. É verdade que vários personagens sofrem violências ao longo do filme (nunca no mesmo nível de Domergue), mas antes que defendam tal característica como justificativa da violência contra a mulher, explico: a violência entre mulheres, entre homens ou de uma mulher contra um homem é diferente da violência de um homem contra uma mulher. A razão disto é que este último caso é extremamente naturalizado na sociedade, onde homens ainda matam mulheres (ou espancam, ou fazem-nas sofrer qualquer tipo de violência) apenas por se considerarem naturalmente no direito disto.

Sendo assim, me parece problemático Tarantino apresentar tal situação e deixar com que todos os homens envolvidos saiam impunes, ou que essa situação não sofra as devidas críticas. Logo, defender tais atos misóginos como “também há violência com os outros personagens” é uma falsa simetria. O argumento não isenta Tarantino de responsabilidade por mostrar uma mulher apanhando gratuitamente por não baixar a cabeça para as ordens daqueles homens que a estão maltratando. Na sala de cinema que fui, boa parte do público ria quando Domergue apanhava, causando uma sensação de desconforto em mim. Ora, se Tarantino é um diretor experiente (e ele é), caberia também problematizar sua opção de como essa violência se dá, já que, mesmo podendo não ser uma escolha sua (transformar os atos violentos em alívio cômico), boa parte da plateia, e não apenas na minha sessão, intepretou assim. Daisy Domergue sofre uma violência desproporcional em relação aos outros personagens que estão em tela e cabe questionar o porquê disso.

(Crédito: The Weinstein Company)
Vingança do Major Marquis Warren, papel de Samuel L. Jackson, é um dos pontos fortes do filme (Crédito: The Weinstein Company)

O filme tem méritos. Fotografia e arte impecáveis, diálogos interessantes e um final, de fato, surpreendente. A violência clássica de Tarantino – quando não aplicada de forma injusta em Domergue – encontra espaço nas outras histórias, como a vingança do Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson). Além disso, ele é bem sucedido ao problematizar o racismo violento da época. Warren constantemente menciona as dificuldades de ser um homem negro no período, sendo ainda mais ele um militante (mesmo que de um modo não convencional) da causa. O ar western jamais se perde, desde os ambientes até o constante clima de vendetta que ameaça casa interação em tela, mesmo que não saibamos o porquê.

Mas isso não isenta a nova obra de Tarantino. Um diretor com sua experiência e capacidade deve ser responsabilizado por um filme onde atos de violência contra uma mulher soem como alívio cômico, mesmo que a intenção do diretor não tenha sido diretamente esta. A representatividade no cinema importa, e ver misoginia impune no filme de um dos diretores mais conhecidos da atualidade não me parece uma experiência agradável. Ai há outro problema: os fãs cegos que justificam que, pelo filme se passar em outra época, a violência contra uma mulher é justificável. Em primeiro lugar: ela é justificável se problematizada e demonstrada como a terrível coisa que é, além de mostrar o sofrimento e condição degradante que isto acarretava para as mulheres (questão em que o filme não é explícito, ou explícito o suficiente, ao meu ver). E Tarantino sabe problematizar isso, como mostrou com a magnífica vingança de A Noiva (Uma Turman) em Kill Bill (ambos volumes) e em À Prova de Morte, quando Jungle Julia (Sydney Tamiia Poitier) e suas amigas se vingam de Stuntman Mike (também interpretado por Kurt Russell). Porém, em Os Oito Odiados, parece que isso é tratado como um problema menor, não merecendo destaque.

Logo, Os Oito Odiados foi uma experiência desagradável para mim. Acredito que o filme tenha méritos e que muitos não o tenham sentido da forma como eu o senti. Porém, cabe reforçar que o filme é dirigido por um homem, que não tem a vivência de gênero necessária para sentir e talvez questionar violências cotidianas pelas quais as mulheres passam. Sendo assim, quando alguma sente o filme como sendo misógino, antes de defender cegamente um diretor do porte de Tarantino, é necessário ouvir e dialogar com essas vozes que se incomodaram com as situações vividas por Domergue, que infelizmente existem fora da tela também. E não é necessário ser uma criminosa ou uma pessoa horrível para passar por elas.

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Um comentário sobre “O caso Domergue e a falta de problematização sobre a violência contra a mulher em Os Oito Odiados

  1. Pra começar: Jungle Julia não se vinga de ninguém, ela é brutalmente morta com as amigas e quem se vinga é outro grupo de mulheres. Dizer que a violência “é justificável se problematizada e demonstrada como a terrível coisa que é” é exigir um certo tipo de história do filme. Não é porque a Daisy não pega uma katana pra matar todo mundo (já que a única vingança possível dela seria o resgate já planejado, por isso ela aguenta todas as agressões e até provoca outras) que ela é menos forte ou seu sofrimento é menos revoltante do que outras personagens. Broomhilda é a “donzela em perigo” de Django e sofre o diabo, mas ninguém reclama porque as pessoas lembram que existe contexto. Nem por isso essas coisas passam batido. Sair do cinema depois de ver uma mulher ser brutalizada por homens que valiam tão pouco ou menos do que ela achando que isso é misógino é ser muito limitado.

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