Epidemia da invisibilidade em Hollywood e um panorama dos indicados ao Oscar

A Cerimônia do Oscar acontece no próximo domingo (28) e pode-se dizer que há tempos não era tão comentada. Pelo segundo ano consecutivo, não foram indicados atores negros na premiação, o que gerou um grande – e necessário – protesto que começou no twitter com a hastag #oscarsowhite. Mais do que isso, o diretor Spike Lee e a atriz Jada Pinkett Smith, juntamente com seu marido Will Smith, anunciaram em janeiro que não iriam à premiação. Recentemente, um estudo realizado pela Iniciativa de Mídia, Diversidade e Mudança Social da Universidade do Sul da Califórnia analisou mais de 400 filmes e roteiros de séries de televisões de 2014 e 2015 e retratou algo que chama de “epidemia da invisibilidade” em Hollywood.  

A pesquisa constatou que mulheres têm menos que 34% do total de falas de personagens em filmes e séries. Em filmes, apenas 29% dos papéis vão para atrizes. Grupos de minoria representaram um pouco mais que 28% dos personagens com fala em filmes e séries, sendo que apenas 2% foram identificados como L.G.B.T.  Por trás das câmaras, são somente 15% de diretoras, cerca de 29% de roteiristas e o crédito de criadoras de séries vão para 23% no período.

Com tudo isso acontecendo, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood anunciou em janeiro que vai mudar as regras do Oscar. Em votação unânime, o conselho da Academia aprovou uma série de modificações para incluir perfis diversos entre seus membros, possibilitando, assim, indicações e premiações mais abrangentes. Para isso, a Academia irá promover uma campanha a fim de identificar e recrutar possíveis novos membros, que representem uma maior diversidade. Em comunicado, Cheryl Boone Isaacs, a primeira mulher negra a comandar a Associação declarou que a “a Academia vai liderar (a mudança), em vez de esperar a indústria recuperar o atraso”. Já tava na hora, né?

A equipe do Nonada se dividiu para escrever sobre os indicados aos filmes. Apesar dos pesares há boas produções, que valem um investimento do seu tempo. Confere aí.

Creed: Nascido para lutar  

Michael B. Jordan é Adonis Johnson e percorre seu sonho de se tornar também um lutador (Crédito: Warner Bros/Divulgação)

Michael B. Jordan é Adonis Johnson e percorre seu sonho de se tornar também um lutador (Crédito: Warner Bros/Divulgação)

Sylvester Stallone (branco) chega como um dos favoritos para levar o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, porém estamos falando de um filme negro. Bem negro. A figura de Apollo Creed assombra seu filho, que vive se metendo em brigas. E quem ajuda o rapaz a se encontrar? Balboa. Até aí tudo certo, mas sério: o ator principal é negro (Michael B. Jordan), grande parte do elenco é negro, o diretor é negro, a trilha sonora mistura é composta por raps que marcaram uma época (Tupac) e sucessos atuais (Meek Mill). E o filme tá demais, soube explorar o potencial de cada ator e fez uma releitura à saga Rocky. Creed, junto com Beasts Of No Nation, encabeça o movimento OscarsSoWhite, porque né, a etnia representada no filme está bem clara, melhor, bem escura. (Airan Albino)

Straight Outta Compton  

Diretamente de Compton, Califórnia, veio o meu filme favorito de 2015. A história do grupo Niggaz Wit Atitudes (N.W.A) foi uma das melhores biografias dos últimos tempos. Um retrato quase fiel sobre a vida do membros Eazy-E, Dr.Dre, Ice Cube, Mc Ren e Dj Yella. O filme debate todas as questões de preconceito e violência que eram extremamente relevantes na época, como é hoje em dia. A indicação por Roteiro Original é um quinto do que a produção merece. A narrativa, a trilha sonora, a atuação do elenco, o encontro da história dos atores com o filme, enfim, esse é o melhor filme que tem o rap como tema. (Airan Albino) 

Brooklyn  

Fui para o cinema crente que assistiria Romeu e Julieta em uma versão italianos contra irlandeses. Que nada. Foram surpreendentes duas horas de uma história leve, bem construída e que me fez viajar no tempo, apresentando o romantismo das décadas de 1940/1950. Assim como a famosa ponte do bairro novaiorquino, a jovem Ellis se encontra divida entre dois locais: a Irlanda e os Estados Unidos. As indicações de Melhor Filme, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Adaptado são a prova de que o filme inglês/irlandês/canadense é destaque na premiação. Brooklyn chega no Oscar como o filme bonitinho que deve ser levado em consideração, assim como seus “antepassados” Pequena Miss Sunshine e O Grande Hotel Budapeste. (Airan Albino)

Divertidamente  

Divertidamente é uma experiência intensa. Oscilando entre lágrimas e risos, o filme nos apresenta como as emoções de Riley, de onze anos, organizam sua mente e vivência. Alegria, Tristeza, Nojeira, Raiva e Medo são parte da cabeça da jovem e controlam a forma como ela se relaciona com o mundo em uma mesa de controle. A partir das perspectivas das próprias emoções, o filme lida com temas delicados e complexos (como depressão infantil, inconsciente, abstração de pensamentos complexos), nunca menosprezando a inteligência daquele que assiste ao longa. O filme também acerta ao sugerir o caos que rege os seres humanos, apesar das emoções teoricamente nos organizarem. Vemos Alegria, Tristeza, Raiva, Medo e Nojeira testando possibilidades e situações pelas quais nunca passaram e descobrindo e evoluindo a partir dessas experiências. Isso reflete os processos de amadurecimento pelo qual as pessoas nunca deixam de passar. Logo, Divertidamente é mais um daqueles filmes da Pixar memoráveis e que mesmo trazendo referências temporais, promete tornar-se um clássico. (Júlia Manzano)

Perdido em Marte  

As imaginadas paisagens de Marte pela lente de Ridley Scott (Crédito: 20th Century Fox/ Divulgação)

As imaginadas paisagens de Marte pela lente de Ridley Scott (Crédito: 20th Century Fox/ Divulgação)

Perdido em Marte é um filme que não extrapola dentro de seu formato. Investe em uma estrutura clássica, mas é inteligente, curioso e que merece a indicação ao prêmio de Melhor Filme. Baseado no livro de mesmo nome de Andy Weir (que não li), o filme é realista ao mostrar uma situação que mesmo ainda não sendo cientificamente possível, já não é implausível para o espectador: uma tripulação humana em Marte (especialmente por estar prevista entre as missões da NASA para a década de 2030). Os personagens são carismáticos, destacando especialmente Mark Watney (Matt Damon) e Melissa Lewis (Jessica Chastain). O primeiro, sempre bem-humorado, é o botânico que, a partir de sua inteligência e da tecnologia abandonada pela missão terráquea, consegue ter esperanças de ser resgatado, enquanto Lewis é importante por sua representatividade (uma comandante mulher) e pelo senso de responsabilidade e seriedade que inspira em toda a sua tripulação. (Júlia Manzano)

Os Oito Odiados  

Em Os Oito Odiados, o espectador é novamente arrastado ao mundo de violência gráfica e relações humanas interessantes que Tarantino já havia demonstrado ao longo de sua careira. O filme traz personagens e reviravoltas interessantes, porém, peca ao demonstrar um tratamento desconsiderável à única personagem feminina em tela. Se em Kill Bill, À Prova de Morte e Bastardos Inglórios fomos apresentados a mulheres determinadas e que reagiram, apesar de também violentadas de vários modos, em Os Oito Odiados, Daisy Domergue é muito depreciada em tela, mesmo sendo uma pessoa detestável. Tarantino provavelmente quis que todos os oito personagens fossem (literalmente) odiáveis e desprezíveis, porém, desconsiderou o peso social que significaria representar a única mulher (entre os principais) desse modo. O diretor acerta em outras questões de representatividade, como expor o gritante racismo da época. Além disso, é capaz de explorar bem o cenário e construir interações interessantes. (Júlia Manzano)

O Regresso  

Apesar de alguns defeitos, O Regresso é um filme tecnicamente impressionante. Desde a fotografia, feita pelo fantástico Lubezki, que intercala planos gerais, para revelar o ambiente/locações, até os closes para mostrar com clareza as expressões faciais dos atores. Além disso, as cenas com planos sequência é algo maravilhoso de se ver. O filme é de DiCaprio. Com uma atuação formidável, o ator demonstra entrega total a obra, ao encarnar um personagem que se comunica, na maior parte do tempo, através de gemidos, grunhidos e olhares. Some isso a uma ótima trilha, montagem e atuações – como a de Tom Hardy – e O Regresso é, assim como DiCaprio, o favorito ao Oscar. (Raphael Carrozzo)

O Quarto de Jack  

Jovem, sequestrada cria seu filho em um cativeiro fazendo o possível para que ele tenha uma vida agradável (Crédito: A24/ Divulgação)

Jovem sequestrada cria seu filho em um cativeiro fazendo o possível para que ele tenha uma vida agradável (Crédito: A24/ Divulgação)

Quando terminei de ver o Quarto de Jack, não consegui não associar a uma versão moderna de Mogli – O Menino Lobo. No lugar de uma enorme selva, Jack, interpretado pelo ótimo Jacob Tremblay, vive dentro de um minúsculo quarto junto com sua mãe, interpretada pela também ótima, Brie Larson. E, além do cabelo longo, Jack possui a mesma inocência de Mogli, fruto da educação dada pela mãe. Assim sendo, é interessante ver como o menino se adapta a nova realidade e o que aquele quarto representa para ele. E por estarmos vendo tudo através dos olhos de Jack, o diretor Abrahamson é eficiente ao intercala, planos fechados, que reflete o ambiente que o personagem e sua mãe vivem, para depois utilizar planos abertos, associado ao novo mundo que personagem irá descobrir. (Raphael Carrozzo)

Mad Max: Estrada da Fúria  

Imagine tomar uma injeção letal de uma droga que, além de te deixar muito agitado, te causa alucinações. E assim que você vai se sentir vendo Mad Max: Estrada da Fúria. O longa é impressionante desde suas características técnicas até as atuações. Tom Hardy é pontual ao interpretar um personagem que pouco se comunica e utiliza muito a expressão facial. Contrariando os estereótipos sexistas do cinema hollywoodiano, Furiosa tem como principal característica o fato de não depender de um homem para botar seu plano em prática. A montagem é extremamente acelerada e que, muito diferente de filmes do…coof…coof, Michael…coof…Bay, não nos deixam perdidos. Tudo isso é fruto da ótima direção de fotografia que, ciente disso, se focou em colocar, no centro da tela, tudo que o telespectador precise ver e não se perca em meio ao caos no qual o filme se passa. Se não fosse O Regresso, o Oscar de Fotografia iria para Mad Max. (Raphael Carrozzo)

O Menino e o Mundo  

A animação é vencedora de diferentes prêmios da área e é forte candidata ao Oscar (Crédito: Espaço Filmes/ Divulgaçã)

A animação é vencedora de diferentes prêmios da área e é forte candidata ao Oscar (Crédito: Espaço Filmes/ Divulgaçã)

Um filme belíssimo, despretensioso e de aparência muitas vezes artesanal, já que os “desenhos palitinhos” a lápis de cor são a alma do longa-metragem. Na trama, o pai do protagonista resolve sair de casa para procurar um novo emprego, já que seu trabalho no ramo de produção de algodão se torna insustentável. O menino, protagonista do filme, vai em busca do pai, partindo para uma jornada de descobertas que é também uma espécie de odisseia. Cores, texturas, formas, tudo é milimetricamente pensado no filme de Abreu. E, embora o lirismo do longa por si só já conquiste o telespectador, há um forte teor político-social no filme de Abreu, que o torna ainda mais rico. O embate simbólico entre o pássaro colorido de manifestantes – que protestam através da ocupação física e artística dos espaços públicos – e a águia preta que remete ao nazismo das forças policiais repressivas é uma das passagens mais marcantes do longa. Apesar do caráter universal da história, é interessante notar como elementos de brasilidade aparecem ao longo de todo o filme, como o prato de arroz com feijão na mesa da família do protagonista ou o chapéu estilo cangaceiro dos trabalhadores da fazenda. O Menino e o Mundo é um filme intimista e criativo, mas que simultaneamente traz uma dura representação do Brasil e tem o DNA do país. (Thaís Seganfredo)

Carol  

Um dos aspectos mais marcantes deste longa são os seus silêncios significativos – cenas em que a trilha sonora é interrompida e a atmosfera do cinema é toda preeenchida pelos semblantes de Carol (Cate Blanchett) ou Therese (Rooney Mara), por uma troca de olhares entre elas ou pela atenção da câmera a algum detalhe do cenário. Silêncios estes que dão espaço para as interpretações detalhistas de Blanchett e Mara, cujas personagens vão se revelando para os espectadores à medida em que se revelam uma à outra. O filme é permeado por uma delicadeza que ecoa na trilha sonora, nos diálogos, na fotografia e que faz contraponto à tensão do enredo. É como se houvesse em cada detalhe estético uma promessa de resolução, uma nota de apaziguamento que emana desse grande amor, capaz de fazer frente aos preconceitos de sua época. (Giulia Barão)

A Garota Dinamarquesa  

O filme conta a história de Lili Elbe, uma das primeiras transexuais a se submeter a uma cirurgia de redesignação sexual (Crédito: Universal Studios/ Divulgação)

O filme conta a história de Lili Elbe, uma das primeiras transexuais a se submeter a uma cirurgia de redesignação sexual (Crédito: Universal Studios/ Divulgação)

É injusto generalizar esse comentário para todas as sessões, mas nas duas em que assisti ao filme a situação se repetiu: conforme se produzia a autodescoberta e transformação de Einar em Lili, os homens soltavam risinhos altos e nervosos, enquanto as mulheres que pude observar emocionavam-se. Por assim dizer, o filme não deixa ninguém indiferente. As ideias de masculino, feminino, transgênero são postas em questão na telona, não apenas na pele de Einar-Lili – cuja interpretação de Eddie Redmayne é minha favorita para o Oscar de Melhor Ator – mas também no papel de Gerda (Alicia Vikander) e de Hans (Matthias Schoenaerts). Além das atuações, o ponto forte do longa são os enquadramentos, nas belas paisagens europeias e, sobretudo, nas expressões e gestos das personagens, configurando cenas que parecem verdadeiros retratos em movimento e que reiteram o jogo de pintora e modelo estabelecido entre Gerda e Lili. A Academia ficou devendo uma indicação a Melhor Fotografia. (Giulia Barão)

Spotlight – Segredos Revelados  

A equipe Spotlight, do jornal The Boston Globe, é especial: pega poucas pautas, passa muito tempo apurando, investe em reportagem. Foi assim que, em 2001, descobriram um padrão de abuso de crianças por padres em Massachusetts acobertado pela Arquidiocese de Boston. A investigação recebeu o Prêmio Pulitzer de Serviço Público em 2003 e agora gerou também um filme, dirigido por Tom McCarthy, que traz um necessário tom sóbrio para a trama, ao mesmo tempo em que não deixa o suspense da investigação desanimar em nenhum momento. Com boas atuações de todo elenco, o que parece mais impressionar em Spotlight é justamente essa prática do jornalismo como uma função social. Aliás, o filme acerta em demonstrar fielmente a rotina da apuração de uma reportagem, por meio das várias reuniões, da procura por documentos, da realização de entrevistas. Em uma época na qual a o jornalismo muda rapidamente, filmes como esses servem para lembrar que sua essência investigativa e contestadora não deve mudar. (Rafael Gloria)

A Grande Aposta  

A produção apresenta de forma quase didática a crise financeira que começou nos Estados Unidos (Crédito: Paramount Pictures/ Divulgação)

A produção apresenta de forma quase didática a crise financeira que começou nos Estados Unidos (Crédito: Paramount Pictures/ Divulgação)

Esse é o tipo de filme que poderia ser muito complicado para a audiência entender. Poderia.  Não que não continue difícil (afinal, os termos econômicos parecem que foram criados para distanciar as pessoas), mas o diretor Adam McKay (quem diria, o responsável por O Âncora foi indicado a melhor diretor), no mínimo, facilitou um pouco a compreensão dessa história sobre a crise financeira dos Estados Unidos, que acabou gerando uma crise em escala mundial. A produção joga o holofote sob os investidores e especuladores financeiros que previram o estouro da bolha e resolveram apostar contra o que, desde sempre, era um dos investimentos mais seguros do mercado: os títulos de dívida imobiliária nos EUA. Mas o mérito é dessa quebra da quarta parede, quando é explicado diretamente para os espectadores conceitos econômicos que ajudam a entender a crise e o quanto absurda essa realidade pode parecer. Surpreendentemente, levou o prêmio do Sindicato de Produtores, que é uma premiação que costuma acertar os vencedores de melhor filme… (Rafael Gloria)

Steve Jobs  

O filme de Danny Boyle acerta em escolher três momentos cruciais da carreira de Jobs: as apresentações do Macintosh (1984), do NeXT (1988) e do iMac (1998), sendo que toda a narrativa se concentra nos minutos que antecedem cada discurso. O que vemos, então, é um filme basicamente de diálogos (a marca do roteirista Aaron Sorkin), o que pode se tornar cansativo ao longo do tempo – ainda mais porque dessa vez Sorkin não está lá muito inspirado. Além disso, pouco da faceta do Steve Jobs “explorador” é apresentada (embora a relação com a filha seja o ponto alto, juntamente com a relação com a personagem de Kate Winslet, que também quase rouba o filme), sendo, de certa forma, ainda endeusado – os enquadramentos não mentem. (Rafael Gloria)

Ponte de Espiões  

Aqui está uma produção que engana de imediato: parece ir pelo lado mais dramático e sisudo de um filme de tribunal, mas na verdade foca muito mais nas situações dessa grande missão que aconteceu de verdade durante a Guerrra Fria. E com belos toques de humor graças ao timing quase perfeito de Tom Hanks. É o velho Spielberg do entretenimento – e que bom. Na trama, baseada em fatos reais, Hanks vive o advogado James Donovan, que recebe em 1957 a ingrata missão de defender um espião britânico acusado nos EUA de trabalhar para os soviéticos. Enquanto isso, uma subtrama se desenrola, mostrando o que aconteceria se um espião americano fosse preso na União Soviética. É ao acompanhar a jornada de Donovan por esse país tão diferente do dele que o filme ganha muito em força. (Rafael Gloria)

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