Um tempo todo seu – as escritoras e o ambiente doméstico no processo da escrita

veredas-banner-300x300px (1)“No começo do século XIX, uma família de classe média possuía apenas uma sala de estar para todos, se uma mulher escrevia, tinha que escrever na sala de estar, com todos os demais. E quando a senhorita Nightingale tão veementemente reclamava – ‘as mulheres nunca têm meia hora […] que possam chamar de sua’ – e era sempre interrompida.”

No ensaio Um Teto Todo Seu (1929), baseado em dois artigos escritos por Virginia Woolf e lido em duas universidades inglesas, a autora defende, assim como o título sugere, que, para as mulheres, “é necessário ter quinhentas libras por ano e um aposento com tranca na porta para escrever ficção ou poesia.“

Ressaltando a margem simbólica da sentença de que o valor em dinheiro representa o poder da contemplação e de que a fechadura na porta representa o poder de pensar por si mesma, sabe-se que dispor de espaço e tempo para a produção intelectual é um desafio. Sobretudo se a escritora tiver filhos e for casada, já que o trabalho doméstico – quase um século após a publicação de Um teto todo seu – ainda é considerado uma tarefa exclusivamente feminina (confira a reportagem Mantidas as condições atuais, levará 80 anos para alcançar a igualdade de gênero)

Levando em consideração as situações acima mencionadas, o Veredas pediu um depoimento a sete escritoras sobre as dificuldades encontradas por elas durante o processo de escrita.

Socorro Acioli (CE) 

(Foto: Renato Parada)

(Foto: Renato Parada)

Eu estou escrevendo ao mesmo tempo em que amamento minha filha de quatro meses. Na verdade, escrever não é o verbo correto. Eu estou falando para o microfone do meu celular que digita a partir da minha voz. É assim que eu tenho trabalhado nos últimos meses. Sou escritora profissional e não posso parar de trabalhar. Não tive licença maternidade e desde que minha filha nasceu eu já escrevi o argumento de um musical, um livro novo, reescrevi um romance juvenil, li alguns livros, escrevi crônicas semanais que dá um total de 16 desde que minha filha nasceu. Além disso, tenho uma filha adolescente e uma casa pra cuidar.

Quem dera eu tivesse um ambiente tranquilo, escrivaninha virada para o verde, o tempo de tomar um chá e pensar com calma sobre o que eu quero fazer. Felizmente eu tenho uma visão muito legal do meu trabalho. É o meu trabalho. Nada de glamour, nada de me sentir um ser superior inspirado que precisa de condições especiais. Preciso de inspiração, conexão com os meus sentimentos, mas aprendi a fazer isso de qualquer forma e em qualquer lugar. Se eu for esperar a situação ideal, não faço nada. Todas as coisas que mencionei acima foram opções minhas. Eu decidi casar, ser mãe, eu decidi viver literatura, estou feliz com minhas escolhas e consigo manejar todas elas com o tempo que tenho. E para ser bem honesta, eu tenho produzido muito mais. Se eu sei que a soneca da minha filha vai durar meia hora, eu abro a porta da minha alma durante esse tempo pra que o meu trabalho seja o melhor possível. Isso não acontecia antes. Sorte da Virginia Woolf que tinha dinheiro, tempo e um lugar isolado para escrever. Eu não tenho, mas continuo escrevendo. Na minha opinião, cada vez melhor.

* Entre suas publicações, Ela tem olhos de céu (Gaivota, 2012) e A cabeça do santo (Companhia das Letras, 2014), além de tradução de obras

Monique Revillion (RS) 

Penso que são conquistas, e também parte do próprio processo de legitimização do ato de escrever, da dificuldade em nos assumirmos intimamente enquanto escritoras ou escritores….e conquistas mais difíceis para as mulheres (por mais que este cenário tenha melhorado em algumas sociedades ou extratos destas, embora piorado em tantas outras). A conquista do tempo para a escrita, o desembaraço das lidas domésticas, dos envolvimentos profissionais, o espaço/tempo para a liberdade e para a criação, para o uso e o desfrute da criatividade. Se falta pão na mesa ou se as crianças estão chorando, o bebê esperando o seio, tudo o que envolve o papel da mulher, da cidadã, da profissional de outras áreas, da mãe, da esposa, da filha, da companheira, papéis que aceitamos com mais ou menos intensidade ou entusiasmo, ou rejeitamos totalmente, se existe esta opção.

Creio que há toda uma hierarquia de demandas a serem atendidas antes, e que dependem das condições emocionais, sociais e econômicas de cada um, da autonomia possível para obtermos as condições e recursos -internos e externos- para as conquistas que envolvem a escrita. No meu caso, “ter um teto todo meu” fez parte destas conquistas (entre tantas outras conquistas e muitos fracassos, que caminham gradualmente), e que hoje se concretiza na Casa Mimosa, meu espaço de trabalho. Brinco que ali tenho meu “bunker” onde me refugio dos ruídos do mundo e, contraditoriamente ou não, onde também amplio o mundo e os ruídos que me interessam.

*Teresa, que esperava as uvas (Geração Editorial, 2006) e O Deus dos insetos (Dublinense, 2013)

Karin Krogh (SP) 

(Foto: arquivo pessoal)

(Foto: arquivo pessoal)

“Valorizo seu trabalho porém não traz um tostão para a casa”, este poderia ser o título da minha autobiografia. Acordo cedo, arrumo as crianças para a escola, limpo o xixi do cachorro que teima em fazer no lugar errado, tomo café, medito, sento na intenção de ler/escrever, lembro do almoço (daqui a pouco as crianças voltam, o tempo passa muito rápido), tenho que fazer supermercado, faltam frutas e verduras, não marquei o dentista das crianças (de novo!), a comida dos bichos está acabando, queimou a lâmpada da cozinha, sento novamente em frente ao computador, busco as crianças, almoçamos, lição de casa “Mãe, eu não entendi!”, Mãe, me ajuda!”, “Mãe, mãe, mãe…” e lá se vão centenas de súplicas. Explico que trabalho em casa, quando estou no computador é trabalho, quando estou lendo é trabalho, mas este é um limite tão fino, difícil de ser interpretado como tal. “Valorizo seu trabalho porém não traz um tostão para casa”.

Chega a noite, coloco as crianças na cama e a casa e o silêncio se tornam meus. Durmo, exausta, pensando em tudo o que eu poderia ter lido, escrito e não pude, deveria largar tudo e fazer o concurso do INSS, acordo durante a madrugada umas duas vezes com novas ideias, histórias, projetos e anoto no meu caderno que fica no criado-mudo. Acordo, completamente ciente que meu tempo será o mesmo de ontem, que terei as mesmas frustrações porém não tenho mais controle sobre mim, são as palavras que me põem em vida.

* Dondila e Jurema (Giostri, 2014)

Regina Lúcia Azevedo de Melo (AM) 

O ofício de escrever requer dedicação, pois passa por reflexões, leituras e muito trabalho (criar, redigir, revisar, reescrever…), e nem sempre dispomos do tempo necessário para tal. Além disso, conciliar as tarefas do dia a dia é algo bastante difícil, uma vez que nossos compromissos domésticos e, mesmo outros, profissionais nos cobram a divisão do tempo. Mas como o tempo é uma invenção nossa, geralmente quando nos envolvemos com algum projeto literário novo, ou, no meu caso, noutras atividades artísticas, pois trabalho com projetos culturais, o dia deixa de ter 24 horas, passa a ter 30 ou mais, mesmo que o dia seguinte seja subtraído (risos).

Enfim, a paixão pela literatura nos leva a quebrar convenções!Viver de literatura exige-nos disposição e coragem; disposição para encarar a rotina, os desafios e as dificuldades; e coragem, para mudar todas as situações desfavoráveis, o que nem sempre é possível, principalmente porque viver de literatura é quase um sacerdócio para o qual nos tornamos missionários, quase sempre voluntários, uma vez que somente escritores bem remunerados e com grande notoriedade podem viver de seus ofícios. Para escrever, precisamos de um canto, quase sempre silencioso, ou com os ruídos, sons e músicas necessários ao estímulo de nossas inspirações. Geralmente, esse cantinho fica dentro de nossas casas, mas pode ser no quintal, no escritório, num espaço aberto… Contanto que nos traga a paz necessária ao desenvolvimento das ideias. Não sei se todas, mas algumas mulheres, como eu (risos), só conseguem escrever depois que sua casa está toda arrumada. Daí posso virar a noite e o dia escrevendo, com chazinhos, ou na companhia de um bom vinho.

* Entre as suas obras Pariência (Manaus, 1984), Estação do nada (Manaus, 1987) e Ykamiabas – Filhas da lua, mulheres da terra (Nelpa, 2012).

Marta Barcellos (RJ) 

(Foto: Aline Massuca/Editora Record)

(Foto: Aline Massuca/Editora Record)

Quando saí da labuta do jornal diário, há dez anos, para escrever (primeiro matérias como jornalista free lancer, depois literatura), percebi que não podia trabalhar em casa: minha filha tinha cinco anos e era bastante agarrada em mim. Mais que isso, o ambiente doméstico parece puxar a mulher para o seu lado menos criativo, o de “cuidadora” do bem estar alheio. Muitas mulheres, na maturidade, passam a vivenciar o mesmo problema de quando os filhos eram pequenos: são “naturalmente” escolhidas para serem as cuidadoras dos familiares muito idosos. Uma amiga minha deixou de escrever um tempo porque tinha que cuidar da sogra com Alzheimer. Detalhe: separou-se pouco depois da sogra morrer. Por tudo isso, hoje, tenho a seguinte rotina: todo dia saio de casa e vou para um pequeno apartamento-ateliê, de 18 metros quadrados, a três quadras de onde moro. Tenho um teto todo meu. É onde estão meus livros, meu computador e meu silêncio. Acredito que o silêncio é algo especialmente precioso para as mulheres, ainda mais quando nunca moraram sozinhas. É o meu caso, pois saí da casa da minha mãe já para morar com meu marido. Sem o silêncio e o recolhimento, não há literatura.

*Antes que seque (Record, 2016), vencedor na categoria conto no Prêmio Sesc de Literatura 2015.

Carina Luft (RS) 

Para ser sincera, não consigo conciliar tudo. As tarefas mencionadas pela Virginia Woolf afetam, sim, o meu processo de escrita. Para escrever, eu preciso de silêncio e de um ambiente adequado. Distrações me perturbam e interrompem o raciocínio. O processo de criação acontece, pra mim, na forma de insights, se eu perder uma ideia ou pensamento no momento em que eles chegam, dali a pouco não consigo mais buscá-los. Quanto ao dinheiro, também é pertinente. Há poucos dias comentei com minha terapeuta o quanto eu seria mais produtiva se não precisasse trabalhar. Minha atenção e concentração ficam voltadas ao trabalho todos os dias, o dia todo. Eu desejo um futuro com mais individualismo, tempo e aposentadoria digna para desenvolver os meus projetos literários.

* Fetiche (Dublinense, 2010) e Verme (Dublinense, 2014)

Sheyla Smanioto (SP) 

Não é fácil ser mulher na literatura. Nos meus primeiros escritos, eu era um homem de trinta e poucos anos, escritor frustrado, talvez jornalista. Parecia o certo, o óbvio. “Minhas vozes femininas são fracas”, eu lembro de ter pensado, mas a verdade é que eu não estava olhando direito para elas. Meu processo de encontrar a tal da voz literária, esse talismã, foi também o processo de deixar falar a mulher que vivia dentro de mim esquecida num canto, “meio bruxa, meio feiticeira”, como diz a Virginia Woolf. A mulher não, as mulheres. A lua, a loucura, o demônio, enfim, minha ancestralidade.

Fui largando mão de todo resto, deixando para trás quem acha que ser mulher é cuidar bem da casa, “entender seu lugar”, “ser mais feminina”. Ergui meu “teto” e o entendimento de que, mesmo tendo lutado muito por ele, é um privilégio. Por ter vindo da periferia é fácil ver o quanto eu tive chances que nem todo mundo tem, tive sorte, encontrei pessoas incríveis pelo caminho. Agradeço todos os dias e lido com a culpa e escrevo, escrevo como quem reza e como quem grita, chorando os mortos, conjurando, hoje em dia “meio bruxa, meio feiticeira”. Um dia, quem sabe, bruxa inteira.

* Dentro e folha (Dulcineia Catadora, 2012), Desterro (Record, 2015), vencedor na categoria romance no Prêmio Sesc de Literatura 2015.

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