A fortaleza sonora do Cidadão Instigado

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Banda liderada pelo vocalista e guitarrista Fernando Catatau não vinha a Porto Alegre desde 2010

Fotos: Fernando Halal

Aguaceiro, blecaute, uma semana de trabalho apenas começando. Nada estava a favor do Cidadão Instigado em sua segunda apresentação em Porto Alegre, exatamente cinco anos e quatro meses após a primeira. Mas não existe jogo (ou show) perdido para a trupe liderada pelo vocalista e guitarrista Fernando Catatau. Diante de uma plateia acanhada – em número, mas não em empolgação –, a banda cearense deu mais “uma aula magna de rock independente”, como bem sintetizou o repórter/fotógrafo Fernando Halal na resenha do show de 2010.

O local (bar Opinião) e o projeto (Segunda Maluca) eram os mesmos, mas a sensação de déjà vu parou por aí. O sexteto cearense tocou um set formado basicamente por músicas novas, com espaço para apenas uma do primeiro disco, O Ciclo da De-Cadência (o quase mantra “Lá Fora Tem”), e duas de UHUUU! (“Homem Velho” e “Escolher pra quê”, que encerraram o show). A banda ainda fez uma bela versão de “Sunshine”, da subestimada Patrulha de Espaço, antiga banda do eterno mutante Arnaldo Baptista.

Não dá para dizer que o resto do repertório consistiu em faixas do recente Fortaleza, porque chamar de “resto” músicas como “Besouros e Borboletas”, “Dizem que Sou Louco por Você” e a agalopada “Quando a Máscara Cai” (que, até que se prove o contrário, é puro heavy metal) seria diminuir um dos melhores lançamentos do ano passado.

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Apresentação do grupo priorizou canções do último disco, Fortaleza

De qualquer forma, o mais importante aqui não é o que se toca, mas como se toca, e isso é algo que não mudou. Catatau continua um guitarrista impressionante e extremamente criativo, como atestam seus riffs e solos nada óbvios. Dustan Gallas (guitarra), Régis Damasceno (baixo), Rian Batista (violão e teclados), Clayton Martin (bateria) e, na mesa do som, o técnico Kalil Alaia (responsável pelos efeitos eletrônicos), complementam perfeitamente o som viajante do Cidadão Instigado, que vai do regional ao progressivo sem cerimônia alguma.

Não se repetir, aliás, é algo importante para Catatau, que conversou com a equipe do Nonada após o show. Na verdade, a entrevista estava prevista para rolar antes, mas o apagão resultou em um atraso que acabou não permitindo brechas que pudessem comprometer a programação. Em tempo: a abertura ficou a cargo do Conjunto Musical Sonido Libre, formado por músicos porto-alegrenses que fazem um competente som instrumental calcado em cumbia e outros ritmos latinos.

Confira, a seguir, nosso papo com Catatau:

Nonada – Fortaleza tem várias críticas sociais, especialmente em relação à especulação imobiliária. Como chegou a esse tema (Na faixa-título, Catatau canta “A elite foi pros prédios/E o povo sem perceber/Que a Fortaleza bela/Ninguém mais podia ver”)?

Fernando Catatau – A gente vê isso em todo lugar, na verdade, não só em Fortaleza. É uma coisa que não é de agora, vem desde sempre. E não para. Quando a gente acha que vai parar, começa de novo, como ocorreu de uns anos para cá. Eu pensava que São Paulo era uma cidade em que não se podia construir mais nada, que já estava carregada de prédios, mas aí veio mais um boom imobiliário. Em Fortaleza é um lance muito antigo, nos anos 80 foi uma devastação. Em 1971, a cidade praticamente só tinha casas. De repente, começou a ser devastada, levantaram aqueles prédios estilo “banheirão”. Você anda pela cidade e parece que tá andando num banheiro eternamente. A galera nunca acha que tem o suficiente e tá sempre querendo comprar mais.

Nonada – É um caminho sem volta?

Catatau – Não que não tenha volta, é que vai ter um fim. Vai chegar uma hora que não vai ter mais onde construir, vão ter que destruir os prédios para construir outros.

Nonada – Estás por voltar a morar em Fortaleza, não?

Catatau – Estou. Gosto muito de Fortaleza, sempre gostei. E tô cansado, faz 15 anos que moro em São Paulo, já morei antes, em 1994, 1995, e no Rio também. Já passei muito tempo batalhando fora e agora tô a fim de me aquietar um pouco.

Nonada – Li uma entrevista recente tua em que dizes que já sofreste xenofobia. Isso foi quando saístes do Ceará (em “Um Nordestino no Concreto”, do EP de estreia da banda, Catatau aborda a questão)?

Catatau – Sim, lá por 1994, 1995, em São Paulo. Eu andava pela rua e sentia isso, não tinha muitos amigos. Rolava pra caramba, e ainda rola. Agora tá “gritando”, depois das eleições e do que aconteceu nos últimos meses, de todo esse lance de extremismo que tomou conta do país, ficou pior ainda. As pessoas estão cada vez mais intolerantes.

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Fernando Catatau: “A grande mídia está jogando o povo contra o povo”

Nonada – Em um momento político como esse que o Brasil está vivendo, é importante o artista se manifestar?

Catatau – Sim. Tem muita informação sendo jogada para as pessoas, informação errada, muitas vezes. A grande mídia está jogando o povo contra o povo. Você nem sabe para onde ir direito, tem que se informar bastante para ter os pés no chão, saber o que tá acontecendo. E é difícil mesmo, até porque a gente sabe que no Brasil as pessoas não têm uma cultura política, é uma coisa meio nova. Antes era complicado por causa da ditadura, e depois dela veio uma geração que delirou com shopping center, a cultura do consumismo, dos Estados Unidos… E isso foi meio que passado pra nós. Com o tempo é que você começa a perceber o que que é legal, o que não é, se o que seus pais estavam passando eram coisas legais ou não. Às vezes, você tem que questionar todo mundo mesmo, e tentar achar o seu caminho. Eu tenho meu lado, já que é pra cada um ter o seu. Mas o grande lance vai ser quando as pessoas se unirem pra tentar salvar o planeta. A gente tá num momento histórico e chegando no fim dessa era capitalista simplesmente porque, do jeito que vai, o ser humano vai acabar com tudo.

Nonada – A banda está comemorando 20 anos, mas tem uma discografia pequena, com quatro discos e um EP. O ritmo de produção é mais devagar pelo fato de seres um cara bastante requisitado por outros artistas (Catatau já tocou/gravou com Arnaldo Antunes, Arnaldo Baptista, Céu, Edgar Scandurra, Karina Buhr, Otto, Los Hermanos, Vanessa da Mata… e a lista só aumenta)?

Catatau – A gente não anda no ritmo de comercialização da música, no tempo comercial. Nesse ritmo, geralmente você lança um disco por ano. Não temos nenhum vínculo com gravadora, fazemos as coisas no tempo e com a grana que a gente tem e pode fazer. E ainda tem o processo de criar as músicas, ir pro estúdio, arranjar… Mas espero que a gente consiga chegar mais rápido no próximo! (risos)

Nonada – O Cidadão é, hoje, uma banda ou um projeto solo do Catatau?

Catatau – (Enfático) Não, não. No começo era meu projeto, mas já há bastante tempo é uma banda. Participo de vários projetos, mas o Cidadão é a prioridade.

Nonada – Musicalmente, Fortaleza parece dar uma guinada pra outro tipo de música. Tem um pouco menos do brega, do romantismo dos discos anteriores, tendendo mais pro rock, especificamente o progressivo…

Catatau – A ideia era sair daquilo que a gente fazia, não se repetir, e achar um outro caminho. No próximo disco podem vir outras coisas… Eu sempre tive esse sonho de fazer um disco de rock, e no Fortaleza a gente chegou o mais próximo disso que podia. Mas acho que o romantismo tá presente também, o rock progressivo, o rock não progressivo, o pós-punk, mas cada um a seu modo.

Nonada – Vai demorar mais seis anos para a banda voltar a Porto Alegre?

Catatau – Vamos ver se trazem a gente aí, de repente o Márcio (Ventura, produtor responsável pela Segunda Maluca) encara essa parada outra vez… É massa demais, gostamos daqui, mas concordo, duas vezes em 20 anos é muito pouco! (risos)

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