A Mulher do Fim do Mundo, um samba-enredo para Elza Soares

Elza Soares ocupando o lugar que merece: o trono no palco

Elza Soares ocupando o lugar que merece: o trono do palco

Fotos: Mariana Gil

Somente Elza Soares seria digna da alcunha ignorada pela certidão de nascimento. Mulher do Fim do Mundo é nome de batismo que a vida dá para gente crescida e teimosa. Mas isso acontece só depois que ela mesma, a vida, põe o iniciado diante das provas mais exigentes. Mulher do Fim do Mundo é nome dado a quem não se entrega, àquela que se reinventa. E ainda pede, exige para cantar até o fim.

Eu pensava nisso enquanto o cenário do show se revelava no palco do teatro do Bourbon Country, em Porto Alegre, na sexta-feira passada. Nos lados extremos do palco, os músicos, jovens e com experiência na cena paulista: Rodrigo Campos (guitarra), Rafa Barreto (guitarra e violão), Marcelo Cabral (baixo, synth e violão de sete cordas), Dalua (percussão) e Guilherme Kastrup (bateria, produtor do disco), a quem devemos agradecer por este trabalho, o primeiro de inéditas da carreira de Elza, que já pode ser colocado entre os melhores da história da música brasileira. Obrigada, Guilherme, obrigada aos músicos.

Ao centro, uma rede feita de sacos plásticos de lixo preto e tranças mais espessas do mesmo material subiam a escada formando a saia que levava à Elza Soares. Lá no alto, ela estava vestida com um colant preto e cabelo violeta. Postada naquilo que poderia ser considerado uma espécie de trono – pelo menos é isso que minha admiração sugere ao invés do antigo e evidente problema de coluna que obrigam Elza a se apresentar sentada -, a cantora de 78 anos abre o show com a capela “Coração do mar”, poema de Oswald de Andrade, musicado por José Miguel Wisnik. O trabalho minucioso do cenário, luz e a saia foram assinados por Anna Turra, que criou uma atmosfera marcante com o jogo de cores quentes.

Em seguida de “Coração do mar”, emenda a canção que dá nome ao disco, “A mulher do fim do mundo” (Romulo Fróes e Alice Coutinho), com uma introdução que lembra o gingado do maxixe, para mais adiante crescer com a percussão e a guitarra. É o samba-enredo de Elza. O público delira. O rapaz sentado à minha frente apoia as mãos sobre a cabeça, como se não acreditasse no que via e ouvia. Sinto um arrepio. Seria o primeiro de tantos outros que me acometeriam no decorrer do espetáculo.

Na chuva de confetes deixo minha dor

na avenida deixei lá

a pele preta e a minha voz

na avenida deixei lá

A minha farra minha opinião

A minha casa minha solidão

Joguei do alto do terceiro andar

Quebrei a cara e me livrei do resto dessa vida

Na avenida dura até o fim

Mulher do fim do mundo

Eu sou e vou até o fim cantar

(Mulher do fim do mundo)

Após um breve e carinhoso boa noite da carioca, a percussão envolvente e marcante de “O canal” (Rodrigo Campos) toma conta. Na canção, “Chico, Alessandra e Mané vão a pé “por sete léguas de chão atrás de água, cavoucam a terra exaustos, mesmo assim, seguem. A letra mostra a esperança de Alessandra que acredita, até mesmo quando ela está morta. Alessandra já morreu, mas precisa acreditar/são três horas da manhã/ vê o brilho e o farol de Alexandre, o Grande.

“Vamos liberar? Vamos, gente?”, pergunta Elza ao público.

Momentos antes de começar o show, estudantes protestaram, dizendo que o teatro só concederia o benefício da meia-entrada para aqueles com carteira de estudante da UNE e da UBES. Os que contavam com carteira confeccionado pelo DCE, por exemplo, não foram aceitos. A produção do show de Elza deixou claro que a cantora só entraria no palco se os estudantes entrassem. Não consegui averiguar se eles entraram depois.

Elza Soares, no auge aos oitenta anos

Elza Soares, no auge aos oitenta anos

Elza sai de A mulher do fim do mundo para ingressar no disco de 2002, Do cóccix ao pescoço. Entra a voz rasgada, sob um ritmo cadenciado da banda, enfatizando que a carne mais barata do mercado é a carne negra (“A carne”, Seu Jorge/Marcelo Yuca/Wilson Capellette). Ela termina a música instigando o público a brigar, a lutar por um país melhor, ao que este se levanta sob gritos e palmas. Lembrando que em Do cóccix ao pescoço, a cantora interpretou “Dura na queda” (Chico Buarque), que, aliás, é um de seus apelidos: Perdida na avenida/canta seu enredo/fora do carnaval/perdeu a saia/perdeu o emprego/desfila natural. Há 14 anos, a Mulher do Fim do Mundo já anunciava a chegada.

“Agora vamos falar de um assunto muito sério. Não é brinquedo, não”, anuncia Elza para dizer que a “Maria da Vila Matilde” (Douglas Germano) está chegando com o celular em mãos, ligando para o 180 e disposta a jogar água fervendo em seu agressor, se for preciso. Um dos momentos ápice do show, certamente.  Elza fez uma plateia inteira, composta em sua maioria por mulheres, cantar em coro “Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”, quando a discussão sobre feminicídio ainda é tabu. Elza transformou denúncia em música. “Mulheres, se liguem, levantou o dedo, denunciem. Entenderam o que eu quis dizer, né? Prestem atenção, um – oito – zero. Vocês vão denunciar ou não?”

Em “Pra fuder” (Kiko Dinucci), Elza e os músicos chegam pra fuder mesmo. Do.ca.ra.lho. “O Kiko fez esta música especialmente pra mim. Por que eu não sei. Por que ele fez pra mim?”, pergunta a cantora ao baterista, manhosa e cheia de charme.

Olho pro meu corpo, sinto a lava escorrer

Vejo o próprio fogo, não há força pra deter

(…)

Pernas abertas, te prendo num beijo

Sufoco a sofreguidão

(…)

Meu temporal me transforma em loba

Presa, você vai gemer

Feito cordeiro entregue pra morte

Seu sussurrar a pedir

Pra fuder, pra fuder, pra fuder, pra fuder

E lá estava Elza, no auge de seus quase 80 anos ardendo em fogo, tesão e desejo cantando em alto e bom som, não para fazer amorzinho gostoso, mas pra fuder mesmo. É a mulher que se reconhece boa o suficiente para colocar tudo abaixo. O popular “chegar, chegando”. Foi inevitável procurar algumas expressões em minha volta que não escondiam certo constrangimento – do público mais velho, sobretudo. Racismo, fome, violência e machismo deveriam constranger muito mais nossa sociedade.

A participação do ator Rubi no palco, encarnando “Benedita” (Celso Sim, Joana Barossi e Fernanda Diamant), foi um show à parte. Ele interpretou a travesti traficante procurada pela polícia, com uma performance que duela entre Benedito e Benedita. Uma narrativa que, musicalmente, conduz o público a momentos de tensão. Sim, incrível. Após apresentar todo o disco, Elza retorna para o bis com “Volta por cima” (Paulo Vanzolini) e “Pressentimento” (Elton Medeiros/Hermínio Bello de Carvalho). Minhas mãos estão dormentes de tanto aplaudi-la.

Tenho receio em qualificar A mulher do fim do mundo como definitivo na carreira de Elza, menos pela presunção e mais pelo medo de não poder ouvi-la novamente. A impressão que se tinha, no entanto, ao assisti-la naquela sexta-feira, é de que tudo o que poderia ser dito foi dito neste álbum. O disco, por meio do trabalho de artistas excepcionais, tem carne, suor e sangue que tomaram forma na voz da diva.

Me engane, Elza, permita que minha leviandade e imprudência se calem antes de você.

A Mulher do Fim do Mundo não anuncia o fim, mas mostra a audácia em saber viver nele. Desfilar em sua passarela sob chuva de confetes, deixando a dor na avenida e cantando até que se perca a voz. Elza, você é dura na queda.

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