Festival dá voz às bandas instrumentais de Porto Alegre

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Banda Kiai foi uma das revelações do festival (Foto: Márcio PeixeArts)

Com a ideia de valorizar os músicos e dar visibilidade às bandas instrumentais porto-alegrenses de diversos estilos musicais, surgiu o Festival Porto Alegrense de Bandas Instrumentais. A segunda edição, realizada no início de abril, teve entrada gratuita e lotou o Solar Paraíso, casarão antigo que normalmente é sede do Festival Porto Alegre em Cena.

Apesar de fazer parte da semana de aniversário de Porto Alegre, o festival ganhou pouco destaque e sua divulgação atingiu mais a classe musical e o público envolvido. Para entender melhor como surgiu a ideia do evento e qual era seu objetivo, conversei com João Pedro Cé, integrante da banda Trabalhos Espaciais Manuais e idealizador da iniciativa, no primeiro dia do festival.

Uma ideia e um princípio de cena 

Bandas trouxeram diversidade de instrumentos ao festival (Foto: pedro Rheinheimer)

Bandas trouxeram diversidade de instrumentos ao festival (Foto: Pedro Rheinheimer)

Para iniciar, essa não foi a primeira vez que o festival aconteceu. Em 2012, no antigo Dhomba, na Cidade Baixa, a ideia de João Pedro Cé de dar espaço às bandas e artistas instrumentais que surgiam em Porto Alegre já havia saído do papel. De acordo com João, naquela época havia duas bandas que se destacavam quando o assunto era ter apenas a voz dos instrumentos: Pata de Elefante, que se dizia uma banda sem vocalista, e Quarto Sensorial, que se denominava instrumental. Já nesse ponto se nota uma sutil diferença, que levou uma boa parte do público a se interessar mais pela “banda sem vocalista” do que pela instrumental. Ao evitar ser chamada de “instrumental”, a Pata de Elefante acabou dando uma cara diferente ao gênero. No entanto, não acabou com o estigma.

O senso comum é pensar que música instrumental é sinônimo de música clássica, erudita, o que nem sempre chama a atenção do grande público que está acostumado a ouvir a mensagem que a música transmite claramente através da sua letra. Aliás, o gênero instrumental não visa abolir a voz, mas usá-la da mesma forma que qualquer outro instrumento. Não foi de poucos amigos que ouvi certo desdém, e um pouco de tédio, ao contar empolgada a notícia de que escreveria sobre o Festival Porto Alegrense de Bandas Instrumentais. É como se o gênero fosse marcado no pensamento coletivo como algo “culto” e isso fosse chato. Mal sabem eles que esse evento foi incrível, onde tive a oportunidade de conhecer melhor grandes instrumentistas locais.

Cheguei cedo ao Solar Paraíso, poucas pessoas da produção estavam por lá, muitas coisas ainda precisavam ser arrumadas e dentro da casa, na cozinha, João e Morena Bauler Chagas, uma das parceiras dele nessa empreitada, faziam os sanduíches que alimentariam os músicos naqueles dois dias de evento. Minha ideia era gravar a conversa que tivemos, mas tudo foi fluindo tão bem e João começou tão empolgado que não me dei ao trabalho de interrompê-lo para pegar o celular, apertar o play e pedir para retomar a conversa.

O primeiro ponto sobre o qual conversamos foi sobre o notório crescimento de bandas instrumentais na cidade. O mérito, segundo João e Morena, se deve à formação em música dos instrumentistas. Os cursos da UFRGS e do IPA fomentaram e impulsionaram o caráter popular desse gênero, convidando todos a experimentar diversas vertentes, surgindo focos em jazz, afrobeat, post-rock e muitas outras misturas.

Mas não é só a formação acadêmica que incentivou esse crescimento. Os movimentos sociais ajudaram muito nesse processo, fazendo com que os músicos começassem a pensar mais no que é música e para quem ela é feita, dando espaço a grupos que antes não tinham voz. Outra questão importante é a liberdade de expressão, que intensifica a produção artística na cidade e faz muitas pessoas quererem participar dessa transformação social que vivemos. Basta lembrarmos de movimentos como o Bloco da Laje, que “transgride” as normas sociais ao desfilar corpos nus e quebrar paradigmas acompanhados de uma infinidade de pessoas atrás de seu carro de som. Claro que isso é em clima de carnaval, mas ainda assim rege uma mudança.

Para João, o que temos em Porto Alegre não dá para ser chamado de “cena musical”, uma vez que essa geralmente é baseada em uma comunidade cultural com os mesmos interesses e a mesma visão sobre um determinado gênero de música. O que temos são muitos grupos que possuem a abordagem instrumental como sua essência, mas não dividem o mesmo espaço cultural – basta ver a diversidade do próprio evento que contou com vários estilos, do gauchesco ao jazz contemporâneo, passando pelo metal e o afrobeat. Geralmente, o público de uma banda não é o mesmo de outra, fazendo disso uma quase cena – talvez o embrião de alguma coisa.

O colaborativismo 

As Aventuras fez o público dançar ao som de surf music (Foto: Márcio PeixeArts)

As Aventuras fez o público dançar ao som de surf music (Foto: Márcio PeixeArts)

Uma das coisas que mais chama atenção sobre o Festival Porto Alegrense de Bandas Instrumentais é seu caráter colaborativo. Nessa edição, um dos grandes apoios foi de Laura Backes, que contribuiu para que o evento fizesse parte da semana de aniversário da cidade, rendendo ao Festival um local amplo em meio à natureza, o Solar Paraíso, que é o segundo casarão mais antigo de Porto Alegre – construído em 1820 e recuperado nos anos 2000 – além de caixas de som e iluminação para os shows que aconteceram à noite. Outro fator essencial para o sucesso do evento foi o apoio dos músicos, que tocaram sem ganhar cachê e muitos contribuíram emprestando seus equipamentos. De acordo com João e Morena, os músicos colaboram com o evento porque sabem que é algo que vai retornar para eles de alguma forma, pois é feito por eles mesmos para que possam mostrar seu trabalho.

O intuito do Festival Porto Alegrense de Bandas Instrumentais, segundo João, sempre foi a valorização do músico, desde a sua primeira edição há 3 anos. Não é difícil observar como a própria sociedade não dá valor a essa profissão. Para começar, muitos espaços remuneram mal os artistas, sempre com o argumento de “estar dando espaço para divulgar o trabalho”, o que leva muitos músicos a procurar outras formas de sobreviver. Outra questão é o pouco caso que temos com o que é local, algo que podemos dizer que está na essência do brasileiro. Na maioria das vezes o que vem de fora é muito melhor do que é daqui. Afinal, quem não pagaria mais de R$ 500,00 para ver a lenda que são os Rolling Stones? Ok. Rolling Stones é realmente uma lenda viva, mas porque reclamamos dos R$ 15,00 cobrados por artistas locais? É, por isso, que o Festival existe. Para mostrar que Porto Alegre tem muitos músicos bons que a gente nem sempre consegue ouvir, porque eles estão escondidos nos cantos de um bar qualquer ou nas esquinas da cidade esperando por alguns trocados.

As bandas 

Dia 02 de Abril

O primeiro dia do evento foi marcado pela diversidade de estilos musicais, uma das bases do Festival. O público variado e tímido que esteve presente na tarde quente de sábado curtiu bandas de jazz, música nativista, samba e rock instrumental.

– Djâmen Farias: Parte da nova geração porto alegrense, Djâmen abriu o Festival junto de mais cinco músicos e apresentou suas composições autorais de jazz contemporâneo e com clima de país tropical, além de fazer interpretações de Dorival Caymmi. Assista. 

– Instrumental Picumã: O conjunto nativista, composto por ótimos músicos, trouxe a música regional gaúcha para o festival. O acordeão de Paulinho Goulart e o violão de Matheus Alves dão a base da música regionalista, que ganha sonoridades de bossa com a flauta de Texo Cabral e de ritmos latinos com o contrabaixo de Miguel Tejera, sem contar o ganho afrobrasileiro incrível que a percussão de Bruno Coelho acrescenta. Assista.

– Conversa de Botequim: Com violão de 7 cordas, violino, cavaquinho, pandeiro e bandolim, os músicos apresentaram grandes clássicos dos principais compositores de choro e samba do país, como Pixinguinha e Chiquinha Gonzaga. Assista.

– Fratura Exposta: Composta por Theo Stochi, na bateria, e Daniel Roitman, na guitarra e pedais, a dupla trouxe o rock e o metal, dando mais peso ao evento. Com suas composições autorais dinâmicas e muitos efeitos sonoros, mudou o clima do palco e da plateia, que aos poucos foi ganhando mais camisetas pretas. O público gostou tanto que pediu bis! Assista.

– URSO: Formada em 2010, assim como tantas outras ótimas bandas instrumentais da cidade, os músicos de post-metal deixaram o clima um pouco mais contemplativo, com sua afinação um pouco mais grave e mais lenta do que a da banda anterior. A URSO tocou na primeira edição do Festival, em 2012. Assista. 

 Dia 03 de Abril

No segundo dia do Festival, a chuva apenas ameaçou aparecer e o tempo ficou firme até as apresentações acabarem. Com muito mais gente do que no primeiro dia, o público era formado mais por jovens, da faixa dos seus 20 a 30 anos – assim como a maioria dos músicos do evento.

– Marmota: Tocando um jazz mais introspectivo, a banda abriu o segundo dia com suas composições autorais. Formada em 2011, quando muitos grupos instrumentais surgiram, também participou da primeira edição do Festival. Assista. 

– Kiai: Diretamente de Rio Grande, as misturas da banda fizeram o público aplaudir de pé mais de uma vez. Os músicos Marcelo Vaz (teclado), Dionísio Souza (baixo), Zazá Soares (guitarra) e Lucas Fê (bateria) trouxeram sua energia para o palco e encantaram todo mundo, fazendo a plateia dançar e interagir. Assista. 

– Gabriel Romano e Grupo: A alma latina entrou novamente no palco com Gabriel Romano e suas composições próprias, que combinam choro, jazz, milonga e tango, uma mistura que funciona e deixa tudo mais bonito com o acordeão do músico em evidência. Assista. 

– As Aventuras: Formada por cinco mulheres, a banda puxa à memória de todos os sons das décadas de 50,60 e 70. Ótimas instrumentistas, as meninas colocaram o público pra dançar e arrancaram muitos aplausos do público com suas referências de surf music, rock e blues, tocando grandes clássicos da cultura pop. Assista. 

– Trabalhos Espaciais Manuais: Uma das bandas mais populares de Porto Alegre, a essência da TEM é aproximar o público e foi isso que os músicos fizeram. Os bancos foram arrastados pros lados e toda área externa do Solar Paraíso foi invadida por pernas que dançavam ao ritmo de afrobeat, jazz, rock, maracatu e samba. Assista. 

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