O "Rei" cativa o público em Porto Alegre
O “Rei” cativa o público em Porto Alegre

Fotos: Fernando Halal

Dizem que quem já viu um show de Roberto Carlos já viu todos. Que ele é um artista previsível, que o repertório não varia muito, que até mesmo as falas do cara são ensaiadas. Nunca havia assistido a uma apresentação do Rei até a última quinta-feira, 31 de março, quando pude, finalmente, atestar tudo isso com meus próprios olhos e ouvidos.

Na verdade, eu não tinha passado pela experiência in loco, mas já tinha uma noção bem clara do que iria assistir. E, convenhamos, após tantos finais de ano embalado pelos especiais da Globo, qualquer um tem. À exceção dos convidados, estava tudo lá: o sorriso malandro, o jeito engraçado de falar, as canções de amor e as rosas. Muitas rosas.

Apesar de toda a previsibilidade do espetáculo, desta vez a coisa tinha um quê de especial. No auditório Araújo Vianna, Roberto estava tocando para cerca de três mil pessoas, a uma ínfima distância da plateia – mesmo da última fileira, era possível enxergar melhor do que na maioria dos setores da Arena do Grêmio e do Beira-Rio, que receberam as apresentações mais recentes do cantor em Porto Alegre.

O público se dividia entre as poucas pessoas que, como eu, estavam ali para sua primeira noite com RC, e as muitas que já tinha visto o show dúzias e dúzias de vezes. Faixa etária acima dos 50 anos, predominância de mulheres e muitos casais. A impressão era de que quase todo mundo já havia assistido, mas fazia questão de ver de novo.

Após um atraso de meia hora, as luzes se acendem e a calibrada banda RC9, sob a batuta do maestro Eduardo Lages, inicia uma versão pesada e instrumental de “Como É Grande o Meu Amor por Você”, com citações a vários outros sucessos do Rei. Um breve suspense e, sem fugir do script, de terno azulão e sapatos bancos, o homem surge no meio do palco para, a la Frank Sinatra, cantar “Emoções”.

“Lindo”, “maravilhoso”, “gostoso”, “eu te amo”, “casa comigo” e outros gritos entusiasmados quebram o breve período de silêncio que antecede a primeira interação com a plateia. “Estou muito feliz de voltar em Porto Alegre. Ou melhor, AeroPorto Alegre. O que tem de avião…”, diz, dando sua característica risada. A fala é conhecida e repetida em todos os shows na capital gaúcha, mas o público adora. É nesses momentos, também, que se percebe o quanto Roberto Carlos é carismático. Quando parabeniza a cidade por seus 244 anos, “um pouquinho mais (velha) do que eu”, arranca risadas não pela piadinha boba, mas pelo jeito de dizê-la.

Show contou com momentos engraçados e interação do cantor com a plateia
Show contou com momentos engraçados e interação do cantor com a plateia

Em seguida, avisa que o que sabe mesmo não é falar, mas cantar. E isso é indiscutível. Sua voz segue intacta e com praticamente o mesmo alcance que tinha no início da carreira. E estamos falando de um senhor prestes a completar 75 anos.

O repertório, assim como os solilóquios, não varia muito. Contempla todas as fases do Rei, mas se concentra nas baladas românticas, o que satisfaz a grande maioria do público. Quando ele pega o violão e dedilha a introdução de “Detalhes”, é impossível não sentir um frio na espinha. Algo parecido ocorre quando ele começa “Outra Vez” (“Você foi o maior dos meus casos/De todos os abraços/O que eu nunca esqueci”…).

Se você não for fanático, porém, irá admitir que, como compositor, RC degringolou a partir do final dos anos 70. Sendo assim, não há como escapar de babas como “Mulher Pequena”, “Nossa Senhora” e a mais recente “Esse Cara Sou Eu”. Mas fã que é fã, mesmo nesses momentos de cafonice extrema, aplaude de pé. E se emociona quando ele diz que “a alegria é zero, mas o amor, cada vez maior” ao apresentar “Lady Laura”, homenagem a sua falecida mãe.

A frustração pela presença dessas músicas se dá também porque outras bem superiores ficam de fora, especialmente as da época da Jovem Guarda ou da fase soul do cantor. A não ser por uma surpreendente “O Calhambeque” aqui ou uma renovada “Negro Gato” ali, o Rei parece não fazer muita questão em rememorar seus primeiros dias de sucesso. Das antigas, prefere incluir a nostálgica “Canzone per Te”, premiada no Festival de San Remo, na Itália, em 1968. Em uma das raras surpresas (não para quem viu o famigerado especial de fim de ano ou o DVD Primeira Fila), “Eu Te Amo, Te Amo, Te Amo” aparece em uma roupagem reggae bem razoável.

Se a linha entre romantismo e pieguice é tênue, Roberto Carlos está pouco ligando. Em um dos momentos mais engraçados do show, ele explica que “faltava alguma coisa” em suas músicas românticas pós-Jovem Guarda, que ele achava muito inocentes. Uma senhora na plateia prontamente grita “sexo!!!”, ao que ele prontamente concorda, emendando “Proposta” e “Cavalgada”, duas prováveis campeãs de audiência em rádios de motel.

O Rei promove sua tradicional distribuição de rosas no final do show (Crédito: Daniel Sanes)
O Rei promove sua tradicional distribuição de rosas no final do show (Crédito: Daniel Sanes)

Quem estava achando bom assistir RC tão de perto mal podia acreditar no que aconteceu no final. Ensaiado ou não, o coro de em “Como É Grande o Meu Amor por Você” vira uma procissão em direção ao palco e a área que separa este das primeiras cadeiras surpreendentemente é liberada, para apreensão dos seguranças, que até então curtiam o show numa boa. Mas os fãs não se exaltam a ponto de invadir o palco, se contentando em tirar fotos e filmar – com os celulares, é claro – o Rei de pertinho durante uma versão prolongada de “Jesus Cristo”. É hora da distribuição das rosas, e o cantor fica um bom tempo ali na frente entregando uma a uma, com toda a paciência do mundo, para dezenas de fãs. Na saída, quem não conseguiu uma flor tinha a opção de recebê-la de alguns “animadores” contratados, algo que, confesso, achei meio sem sentido.

Sempre tive algumas reservas com o ícone maior da Jovem Guarda, mais por fatores extramusicais (o contrato de exclusividade com a Globo, o episódio da biografia censurada, a suposta conivência com a ditadura militar) do que pela mesmice que se tornou sua carreira. Assistindo-o ao vivo, porém, consegui entender o porquê de ele continuar cativando multidões. E se você não entende, certamente é porque nunca foi a um show de Roberto Carlos.

Setlist:

Medley instrumental RC9
Emoções
Como Vai Você
Além do Horizonte
Ilegal, Imoral ou Engorda
Detalhes
Desabafo
Outra Vez
Lady Laura
Nossa Senhora
O Calhambeque
Eu Te Amo, Te Amo, Te Amo
Mulher Pequena
Negro Gato
Canzone per te
Proposta
Cavalgada
Se Você Pensa
Esse Cara Sou Eu
Como É Grande o Meu Amor por Você
Jesus Cristo

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