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Texto Filipe Rossau

Entre as qualidades encontradas em bons filmes independentes, geralmente está a sobriedade de seus realizadores quanto ao que esperar de suas obras. Erik de Bruyn, ao adaptar o livro J. Kessels, de P.F. Thomése, parecia saber até onde seu Road Duster (2015) poderia ir. E aproveitou bem seu espaço.

De Bruyn já havia levado os atores Fedja van Huët e Frank Lammers para o Netherlands Film Festival em 2000, em seu longa de estreia, Wilde Mossels. Ele traz de volta a dupla, dessa vez para colocar o escritor holandês Franske (Fedja van Huët) no ponto de partida de sua mais nova história. Sem saber muito bem como iniciar seu texto, Franske vai aos poucos narrando a história do filme– ao passo que com esta vai escrevendo seu livro. Não demora muito para perceber que o aspecto de metalinguagem permeará o filme. Assim como em sua obra ficcional, Franske recebe um telefonema de Bertje de Braaji, amigo de infância que agora é contador. O motivo da ligação é que um dos clientes de Bertje sumiu e tanto a família quanto seu sócio estão à procura. Franske já escreveu romances policiais e seu grande personagem, J. Kessels, é o nome certo para encontrar o desaparecido que, o máximo sabido até então, está em Hamburgo, na Alemanha.

A narrativa lenta do início, somada a quadros mais longos e poucos cortes, ditam o ritmo da dificuldade de Franske em engrenar no seu texto. A medida em que ele se une a J. Kessels e juntos partem em sua trajetória, suas aventuras são mostradas em cenas compostas com um número muito maior de quadros. Nessa viagem de Franske, Kessels e Bertje, novos cenários são introduzidos: restaurantes, hotéis, bares, casas noturnas e estacionamentos sombrios. Sempre em ambientes escuros e de pouco espaço, valorizando o fato de que os personagens transitam em locais sujos e perigosos, intimidadores.

Rico – e um pouco exagerado – em referências, lembra até de Friedrich Nietzsche, Franz Kafka e Edgar Allan Poe. Da viagem da Holanda até a Alemanha, elementos de road movie marcam o clima dos protagonistas em trânsito. Em Hamburgo, o thriller da investigação sobre o paradeiro do cliente desaparecido de Bertje se mistura a tons de vermelho e verde cobertos por efeitos de fumaça, do neon noir. Conciliar essas características na narrativa foi uma das razões para Road Duster levar os prêmios de Melhor Direção, Melhor Edição e Melhor Design de Produção no Festival Internacional de Cinema Independente de Moscou.

O que motiva Franske é que, ao ajudar Bertje, este facilitará o encontro com sua irmã, Brigit, paixão adolescente de Franske, hoje uma mulher de meia-idade. O drama de Franske adiciona o ingrediente de “down memory lane”(busca a uma memória do passado) no longa. Essa mistura de elementos faz com que não haja certeza sobre o gênero exato proposto em Road Duster. Embora a comédia pese com mais força nas situações problemáticas nas quais os protagonistas entram tentando se livrar de problemas anteriores e o personagem de J. Kessels reúna em si um alto número de elementos cômicos (alemão de orgulho ferido que idolatra a cultura norte-americana, sendo responsável pelo elemento country na lembrança do roteiro ao folk estadunidense), Road Duster se encaminha em busca a um traumático passado que só é recordado com saudosismo por ser romantizado.

Embora longa demais, a mistura de elementos no filme de Erik de Bruyn funciona porque se reflete na confusão de Franske em sua tentativa de escrever um livro. O ponto mais interessante de Road Duster é dar a impressão de estar sendo criado diante dos olhos do espectador, junto com a trajetória do protagonista em seu desafio literário.

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