Nair na FestFotoPoa 2016 (Foto: Louise Soares/Nonada)
Nair na FestFotoPoa 2016 (Foto: Louise Soares/Nonada)

Mais de cinquenta pares de olhos estão vidrados no vídeo exibido em um auditório no centro de Porto Alegre: fotos e ilustrações de vaginas, acompanhadas pela voz de uma mulher narrando sua experiência com temas relativos à libertação sexual feminina, como masturbação, prazer e a não aceitação ao padrão de beleza imposto pela sociedade. Enquanto sorrio e agradeço mentalmente por aquele vídeo, um homem à minha frente solta um risinho constrangido. Era possível imaginar o desconforto geral naquela sala escura, que estava praticamente lotada, com vários homens de meia idade e até alguns mais idosos. Ao fim da exibição, uma mulher se levanta de sua cadeira para fazer o que todas nós queríamos naquele momento: agradecer a responsável por aquela proeza, Nair Benedicto, fotógrafa de 76 anos homenageada pelo FestFotoPoa deste ano.

Nair foi escolhida para encerrar a programação do festival especializado em fotografia, que ocorre todos os anos em Porto Alegre. “Na primeira vez que vim ao festival [em 2012], este audiovisual foi proibido, mas hoje vamos conseguir exibir”, ela havia anunciado minutos antes. O vídeo em questão, com o título “O Prazer é Nosso”, foi realizado por Nair e outras mulheres nos anos 1960, antes que a ditadura passasse a impor as normas da moral e dos bons costumes que censurariam qualquer iniciativa como esta. “O machismo não é algo isolado”, ela disse durante a conferência. “Temos que combater em tempo integral, na nossa família, discutindo com os homens. Nós podemos fazer tudo. Na minha época, tinha a Simone de Beauvoir, hoje tem a Judith Butler com outras ideias”, ela completou, se referindo à pesquisadora referência na Teoria Queer.  

As questões sociais sempre pautaram o trabalho de Nair no fotojornalismo. Suas fotografias sobre violência contra a mulher, questões indígenas e o movimento dos trabalhadores sem terra são reconhecidas internacionalmente. Hoje, Nair continua ativa na luta por justiça social. Nos primeiros minutos de fala naquela tarde, tratou de se indignar com a situação política do país. “Nós estamos vivendo um golpe que não é chamado de golpe. Temos que estar constantemente dizendo não. Não aceitamos isso que foi feito à nossa revelia. Nosso país não é o país do Cunha, do Moro, do Temer e do Malafaia. É o país da Nise da Silveira, do Chico Buarque, da Pagu, do Paulo Freire, do Darcy Ribeiro.”

O desejo de registrar em imagens as lutas das minorias veio de sua resiliência, sua força que irradia através do olhar e que é capaz de inspirar imediatamente quem presencia suas falas. Em 1969, quando estava no segundo ano do curso de Jornalismo na USP, Nair foi presa. Depois de ser torturada no Departamento de Ordem Política e Social (Dops), devido ao envolvimento com a Aliança Nacional Libertadora (ANL), ela ainda ficou anos no presídio Tiradentes, onde foi colega de cela de Dilma Rousseff. Quando saiu, viu na fotografia um instrumento de ativismo.

“Em cada profissão, a gente pode brigar pra ter um país mais igualitário. Temos uma mídia que está falando sempre a mesma coisa, não tem visões diferentes. A maioria da população não tem acesso a outra informação que não a da grande mídia”, comenta. Antes de encerrar, a fotógrafa sugere um caminho nesses tempos difíceis e deixa uma pergunta relativa aos governantes interinos da República. “Temos que ser valentes e criativos, e também conhecer melhor nossa história e a história da América Latina. Minha preocupação é quem vai nos salvar desses ‘salvadores’”?

Parece surreal que obras problematizadoras como “O Prazer é Nosso” continuem tão atuais nos dias de hoje. É inegável, porém, o impacto de suas fotos, que continuam muito necessárias. É só reparar que os mesmos homens constrangidos diante de uma vagina a aplaudiram por longos minutos naquela tarde.

Travestis no Rio de Janeiro - Nair Benedicto
Travestis no Rio de Janeiro – Nair Benedicto
Manifestação de cultura tradicional em área do MST, na Zona da Mata de Pernambuco, em 2012 - Nair Benedicto
Manifestação de cultura tradicional em área do MST, na Zona da Mata de Pernambuco, em 2012 – Nair Benedicto
Menor na Febem, em Raposo Tavares (SP), 1979 - Nair Benedicto
Menor na Febem, em Raposo Tavares (SP), 1979 – Nair Benedicto
Imagens de índios Kaiapó feitas no Pará em 1989 - Nair Benedicto
Imagens de índios Kaiapó feitas no Pará em 1989 – Nair Benedicto
Mulheres no Sisal, 1985 - Nair Benedicto
Mulheres no Sisal, 1985 – Nair Benedicto

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Editora do Nonada, ativista da democratização da mídia e defensora do feminismo interseccional. Escreve preferencialmente sobre políticas culturais, culturas populares e arte engajada.