Clarice Falcão: nem precisa apresentar

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A pernambucana apresentou seu mais novo trabalho em Porto Alegre: Problema Meu

Fotos: Gisele Endres

“Ela está linda!”, disse o apresentador momentos antes de Clarice Falcão subir ao palco do Opinião, no sábado (25). Realmente, ela estava linda, mas o quanto esse adjetivo é necessário no momento de apresentar a cantora, compositora, roteirista e atriz? Inteligente, carismática e teatral, Clarice conquistou o coração do público na noite amena do inverno portoalegrense com suas canções-crônica-da-vida-real e com o seu talento para falar verdades colocando uma pitada de humor para parecer que é tudo brincadeira.

Começando com “Irônico”, do último álbum Problema Meu (2016), Clarice entrou no palco com seu sorriso largo e cantando junto com o público, que fez coro em muitos de seus sucessos. Com composições do trabalho mais recente e de Monomania (2013), seu primeiro álbum que era uma compilação de todos os hits da compositora na internet, o show prosseguiu com Clarice sempre sendo muito expressiva durante as canções, interpretando cada uma delas através de olhares e gestos. Um dos melhores momentos foi quando a compositora interpretou sentada a música “Se esse bar fechar”. Com o rosto triste e dizendo Eu sei que eu marquei às dez / E eu sei que já são três / Mas vai que ele se atrasou, parecia que o show continuaria dali, com Clarice sentada, até que um “garçom” entrou no palco e tirou o banco onde ela estava sentada dando comicidade ao momento.

Assim que cumprimentou a plateia, Clarice não pode ser mais precisa ao dizer que a casa estava tão lotada que ela parecia estar vendo um “pavê de pessoas”. Com ingressos esgotados, o público do show era composto em sua maioria por adolescentes brancos de classe média alta, que não cansavam de gritar “linda” e “diva” durante qualquer brecha entre as músicas. Prefiro acreditar que o sentido que eles tinham em mente não era elogiar só a aparência física da compositora, mas sim as tantas outras qualidades que ela possui.

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Os cinco lotes de ingressos foram vendidos para a noite de Clarice no Opinião

Sempre achei que Clarice Falcão era um daqueles ícones que aproximam todos os tipos de pessoas em seus shows, mas não foi isso o que aconteceu por aqui. Apesar de ter começado com suas canções na internet, ter participado do Portas dos Fundos e usar o humor para contar suas histórias tragicômicas, o máximo de diversidade que vi foi a presença do público LGBT, principalmente mais jovens.

Engraçada, fazendo piadas com o que é comum, falando através da melodia aquilo que todos sempre pensamos em algum momento, a Clarice é a mesma. Mas tem algo de diferente de Problema Meu para Monomania. Menos obsessiva com um relacionamento e mais independente como mulher, cantando “Eu escolhi você”, “Deve ter sido eu” e “Eu sou problema meu”, a compositora fala mais sobre empoderamento e sobre ser uma mulher que não tem medo de aceitar quaisquer condições que sejam. No entanto, isso tudo é apenas por meio de suas canções, em nenhum momento ela discursou falando da importância das meninas se imporem e não terem medo de ser o que quiserem ser. Mesmo assim, não tira o poder da mensagem empoderadora que ela tenta passar com as duas últimas músicas do show, sua versão de “Survivor” e “Vagabunda”, onde ela diz Me dá seu telefone, inimiga / Que é só você que vai compreender / Aquela agonia na barriga / Me liga, que eu tô que nem você.

O que é mais irônico, assim como o título da primeira música cantada no show, é que a banda de Clarice é composta por homens. Ainda assim, a atenção se volta toda para ela, pois ainda que estivesse usando só jeans e camiseta branca é ela que brilha com seus passinhos dançantes em cima do palco.

O show durou apenas um pouco mais de uma hora, deixando algumas ótimas canções do repertório da artista de fora, e foi leve como o clima que estava na rua. Ainda assim muita gente ficou por ali ao redor do palco, talvez na esperança de que Clarice voltasse mais uma vez. Talvez, como eu, esperando que ela interagisse um pouco mais.

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