marina abramovicPor Leonel Mittmann

Arte e espiritualidade. Enquanto uma se manifesta através da razão e das emoções e se expressa materialmente em obra, a outra é imaterial, invisível, transcende a terceira dimensão, está ligada ao divino, precisa de fé. É dessa conexão que surge as últimas pesquisas artísticas de Marina Abramovic, artista expoente da performance arte no mundo, e resultou no filme Espaço além – Marina Abramović e o Brasil, em cartaz no Guion Center.

“Eu gosto de estar no que chamo de ‘espaço entre’. Isto acontece quando você abandona seus hábitos e se abre completamente para o destino” Marina Abramović

Dirigido pelo brasileiro Marco Del Fiol, o documentário mostra a trajetória da artista em busca de pessoas e locais de poder, que pode ser entendido por médiuns, religiões, seitas, rituais, yalorixás, curandeiros e espaços esotéricos. Ao todo, foram visitados seis estados brasileiros, somando mais de seis mil quilômetros percorridos durante os anos de 2012 a 2015.

O longa-metragem começa em Abadiânia (GO), onde Marina conhece João de Deus, fundador da Casa de Dom Inácio de Loyola. Ela participa de correntes de oração e acompanha de perto as cirurgias espirituais realizadas pelo famoso médium, que envolvem cortes e incisões. Também em Goiás, ela vai para a cidade que é considerada a mais mística do Brasil, Alto Paraíso, conhecida por seu solo abundante de cristais. A artista conhece Dona Flor, uma raizeira de 79 anos que produz medicamentos fitoterápicos através das plantas do cerrado e que dessa forma criou 18 filhos nascidos de seu ventre e mais 27 adotados, tudo isso sem saber ler e escrever.

O Vale do Amanhecer é a próxima parada de Marina, comunidade espiritual localizada em Planaltina, Distrito Federal. Esse espaço, de um sincretismo complexo, mescla elementos de religiões afro-brasileiras, cristianismo, espiritismo, e antigas crenças egípcias. De lá, a artista segue para a Chapada Diamantina (BA) e prova pela primeira vez o chá da ayahuasca em um ritual xamânico, uma das piores experiências de sua vida, diz ela no filme. Depois, em Curitiba, ela da nova chance à ayahuasca, mas dessa vez a experiência é positiva e Marina entra em transe e amplia sua consciência.

marinaA artista conversa com Mãe Filhinha, fundadora da casa Yamanjá Ogunté, em Cachoeira, na Bahia. Na época, a yalorixá (mãe de santo), estava com 108 anos e impressionou Marina por sua energia e lucidez. Tirando os pés do chão do terreiro, ela pisa na terra dos cristais, Corinto, Minas Gerais, e entre vales e montanhas medita junto de cristais.

Esse intenso processo artístico do documentário resultou também na exposição Terra Comunal – Marina Abramović + MAI, que ocupou em 2015 o Sesc Pompeia, na cidade de São Paulo. Nessa exposição, o público também podia fazer o Método Abramović, que consiste em doar tempo realizando exercícios de respiração e de meditação com cristais para apurar a percepção. Como a artista diz no documentário, ela quer ajudar a ampliar consciências através da arte.

Em seu processo artístico, Marina está em um estágio de reflexão sobre as afinidades entre ritual vs. Performance, como diz no filme: “Eu sempre me perguntei qual a conexão entre rituais e performance… Acredito que a conexão está na transformação. Depois que vivencia um ritual, você não é mais o mesmo. Você aprende alguma coisa. Torna-se diferente. A performance é muito parecida. Você cria um roteiro e, durante a performance, você lida com o que eu chamo de ‘eu superior’. Você se propõe a executar uma tarefa muito difícil. Quanto mais forte a performance, mais forte será a transformação”.

A experiência cinematográfica que o filme propicia se relaciona com as artes visuais e dramáticas no sentido de trazer para o espectador uma grande performance de 86 minutos. O impacto de toda a obra de Marina Abramović em mim, não apenas o filme, é tão potente que, para escrever esse texto, me submeti a atividades do Método da autora e exercícios de elevação da mente e espírito.

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