Pierre Lévy: “Na internet, todos podem ser jornalistas de algum modo”

Lévy falou sobre seu conceito de inteligência coletiva e a curadoria de informações (Foto: Luiz Munhoz/divulgação)



A livre circulação das informações na internet e, em maior potência, nas redes sociais, é tão comum hoje em nossas vidas que nem paramos para pensar nas consequências que essa oportunidade provoca no mundo. O filósofo francês Pierre Lévy pesquisa o tema desde os anos 1990 e acredita que estamos vivendo uma revolução social e cultural.

Lévy apresentou algumas de suas ideias no Fronteiras do Pensamento, nesta segunda (28), no Salão de Atos da Ufrgs. Em 2003, quando participou pela primeira vez do ciclo de conferências, ele já falava sobre o avanço das trocas de informação e novas formas de comunicação – em uma época em que a principal rede social era o orkut. Na verdade, foi em 1994 que Lévy lançou a obra Inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. Referência na área da cibercultura, o livro fala sobre o compartilhamento, o ensino e o aprendizado no ciberespaço, por meio da livre interação entre os indivíduos e do intercâmbio de ideias. As reflexões preveem um futuro em que a educação será revolucionada, e as pessoas construirão juntas um conhecimento sem hierarquia.

Nova civilização

Um dos pilares sustentados por Lévy na conferência foi que a humanidade vive uma constante evolução, no que diz respeito à comunicação. “A seleção e a organização de dados é uma atividade central da sociedade”, disse, refletindo sobre como o alfabeto, os números e técnicas como a impressão transformaram as sociedade. O que muda com as novas tecnologias é a capacidade automatizar os dados.

O filósofo defendeu também que, no ciberespeço, “a informação é acessível em qualquer parte, de todos os lados”. Mesmo notando que atualmente, 45% da população mundial tem acesso à internet (no início do século XXI, o índice era de apenas 1%), o autor tem a visão otimistade que, no futuro, todos estarão conectados. Todo esse processo deve dar início a uma nova civilização, cujo cerne devem ser as ciências humanas. “Ainda nem conseguimos imaginar como ela será, pois estamos no início dessa revolução cultural, científica e social”, afirmou.

Mas é fato que importantes mudanças já estão acontecendo. Um exemplo é o Big Data, que proporciona a capacidade de processar uma enorme quantidade de dados. Hoje, esses dados são controlados por órgãos e grandes empresas, mas Lévy acredita que todos os indivíduos terão o mesmo acesso daqui a algum tempo, em um processo semelhante ao que ocorreu com a internet desde os anos 1960.

Democratização da cultura

Na área cultural, o impacto dessas mudanças é muito visível, de modo que produzir, consumir e compartilhar cultura está se tornando cada vez mais acessível e horizontal. “Os direitos autorais concebidos na época do surgimento da impressão estão sendo colocados em questão”, segundo Lévy. Ele citou o movimento software livre e as licenças livres como a Creative Commons (também adotada pelo Nonada), que formam o que ele definiu como um conjunto de “direitos autorais coletivos”.

Interessante também a observação de Lévy sobre o patrimônio cultural. Cada vez mais, as obras dos museus, arquivos e bibliotecas passam a ser digitalizados e, na teoria, estão a disposição de todos. Isso não acontece na prática, por obstáculos como o idioma em que os arquivos são categorizados, por exemplo. “Mas existe uma tendência muito interessante que consiste em amadores agindo como curadores”, observou. O trabalho consiste em refazer os catálogos de forma coletiva, traduzindo e categorizando de novas formas as obras, de modo a torná-las mais acessíveis. Antecipando a descrença dos mais conservadores em deixar pessoas aparentemente leigas manipularem esses dados, o autor citou o caso da Wikipédia. “Todo mundo tinha medo no começo, mas tem funcionado muito bem, os possíveis erros são corrigidos pelos próprios usuários.”

Essa foi a segunda conferência de Pierre Lévy no Fronteiras do Pensamento (Foto: Luiz Munhoz/divulgação)

Essa foi a segunda conferência de Pierre Lévy no Fronteiras do Pensamento (Foto: Luiz Munhoz/divulgação)

Inteligência coletiva e midialivrismo

O entusiasmo seguiu quando o tema passou a ser o jornalismo e, mais especificamente, um processo que vem sendo cada vez mais difundido como midialivrismo no Brasil (embora ele não tenha utilizado essa palavra): “Ao contrário da forma clássica de comunicação regulada por editores, nesse novo sistema de comunicação não temos mais esse controle. Todos podem ser autores e editores. Todos podem ser jornalistas de algum modo”. A curadoria da informação também está presente em todo o ciberespaço, mesmo que seja um simples “like” no Facebook, como ele exemplificou.

O fato é um desenvolvimento do que ele já havia antecipado em 1994 em Inteligência Coletiva. Essa nova situação requer também uma nova educação, novas habilidades para os cidadãos e para os profissionais das diversas áreas impactadas pela inteligência coletiva. Lévy abordou alguns elementos que ele julga necessários ao amadurecimento desse processo, como escolher boas fontes de informação, ampliar a pluralidade destas fontes, buscando novos pontos-de-vista e saber interpretar os dados.

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É nesse contexto que o jornalismo alternativo na web adquire importância, na medida em que ecoa vozes diferentes daquelas estampadas com poucas alterações nas manchetes dos grandes jornais. Saímos da conferência com o pensamento otimista inspirado nessa forma bonita que Pierre Lévy têm de enxergar o mundo. Precisamos acreditar que a democratização da comunicação e a ampliação de novas visões são apenas uma questão de tempo. Mas será que as questões econômicas, sociais e políticas mundiais vão permitir que, algum dia, inteligência coletiva seja para todos de forma igualitária?

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