Evento Às Armas trouxe diversos grupos militantes para pensar sobre a produção de conhecimento
Evento Às Armas trouxe diversos grupos militantes para pensar sobre a produção de conhecimento (Foto: Chael Omnusan)

por Lorenzo Leuck

É possível fazer algo além de assumir o papel daquele pesquisador que, mesmo simpático à causas sociais, permanece ligado às dinâmicas das instituições que o financiam? Como seria a produção de conhecimento fora do âmbito acadêmico? E quais ferramentas nos permitiriam encarar tais desafios?

Estes foram alguns dos questionamentos levantados durante o evento “Às Armas: Aportes Metodológicos para a Pesquisa-Militante”, organizado pelo Instituto de Experimentação e Pesquisa Social “Outras Margens”(IEPS).

Formado em sua maioria por antropólogos, o instituto já realizou um projeto piloto de reforma agrária em Artigas, ao norte do Uruguai, bem como mobilizações com o Comitê Popular da Copa contestando a remoção de famílias da Comunidade Cristal  – devido a obra de duplicação da Avenida Tronco durante o período da copa -, além do resgate cultural de grupos carnavalescos e assessoria antropológica e política à comunidades quilombolas.

“O incômodo de não querer ocupar lugares historicamente pré-estabelecidos foi o que incidiu no Outras Margens. Queríamos fazer algo diferente”, afirmou Luíza Flores, uma das fundadoras do Instituto, a respeito do período  em que ainda estavam cursando Ciências Sociais na UFRGS, em 2014.

Superar a defasagem das agendas de pesquisa acadêmica diante de demandas concretas e inquietações dos movimentos sociais,  foi como Juliana Mesomo e Alex Moraes – ambos fundadores – definiram a Pesquisa Militante durante a abertura do evento. Para Alex, isso possibilita o desenvolvimento de discursos e ferramentas capazes de transgredir o atual sistema de validação de conhecimento, que muitas vezes responde apenas ao mercado editorial das universidades.

O evento foi organizado pelo grupo Outras Margens (Foto: Lorenzo Leuck)
O evento foi organizado pelo grupo Outras Margens (Foto: Lorenzo Leuck)

“Nossa intenção não é só construir novos espaços de debate, pretendemos também provocar esse processo de democratização de acesso à universidade. Que o engajamento que temos com coletivos nas nossas pesquisas não tenha que resultar somente em papel morto de artigos. Isso pode ser vivenciado de outra forma, inclusive sendo o aporte para processos políticos importantes”, instigou Juliana.

No decorrer do evento, oficinas temáticas tomaram conta da programação. Foram contemplados temas relacionados à pesquisa militante e às estratégias dos movimentos sociais. Uma atividade de rádio na rua, promovida pelo Boca de Rua, incentivou as pessoas a expressarem suas ideias e refletirem sobre as maneiras de produzir e veicular informações. Além disso, houve um momento para propor projetos que consolidassem as parcerias feitas durante o evento, assim como um processo de auto avaliação, feito entre o Instituto, os coletivos e o público. Algumas sugestões, como a de se sentar em círculos, puderam ser seguidas e tiveram efeitos imediatos. Outras, porém, ficaram para as próximas edições.

Uma crítica recorrente foi quanto à ausência de mulheres na composição das mesas de debate. Segundo Luíza Flores, em decorrência à formação do IESP, os primeiros coletivos de pesquisa militante convidados eram compostos inteiramente por mulheres, tais como “El Kintral” (Chile) e “Situaciones” (Argentina), mas devido a imprevistos não puderam ir. “Futuramente o Instituto pretende abordar o papel ocupado pelas mulheres tanto em coletivos, como na sociedade, de maneira mais interessante, aprofundada e complexa”, afirmou Luíza.

Estiveram presentes no evento integrantes do grupo Juguetes Perdidos,  do jornal Boca de Rua, do Instituto de Assessoria às Comunidades Remanescentes de Quilombos (Iacoreq) e da Universidade Popular dos Movimentos Sociais. (UPMS). O primeiro surgiu em Buenos Aires, e os últimos três em Porto Alegre, concomitantes ao primeiro Fórum Social Mundial.

Boca de rua 

o Jornal de Boca é produzido por pessoas em situação de rua (Foto: divulgação)
o Jornal de Boca é produzido por pessoas em situação de rua (Foto: divulgação)

O jornal Boca de Rua é composto por uma equipe de 30 moradores de rua, que com o apoio de alguns jornalistas e estudantes de comunicação da Fabico (UFRGS) e da Famecos (PUCRS), produz matérias que trazem não só as necessidades da população em situação de rua, como também questões relevantes à cidade. Atualmente o jornal conta com uma tiragem trimestral de aproximadamente 12 mil exemplares.

Cicero Adão Gomes, integrante da equipe, relata que no início as pessoas tinham receio de serem entrevistadas por moradores de rua, porém hoje, brigam para aparecer nas páginas do jornal e recebê-los. Apesar dos avanços, ele afirma que ainda há muito pela frente: “Estamos unindo forças com os movimentos sociais. A ocupação da Demhab, que estamos tocando com o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) e pelo Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST) é a prova disso”, declarou Cicero a respeito do movimento que ocupou o DEMHAB dia 14 de julho, em contestação a política habitacional de Porto Alegre.

“Os moradores de rua pensam e teorizam sobre o mundo”, afirmou apoiador do jornal e graduando de ciências sociais, Bruno Fernandes, argumentando que o Boca de Rua compõe novos territórios e faz uma cartografia da realidade social de Porto Alegre

(Algumas das fotos feitas para as primeiras matérias do Boca de Rua estão a mostra na exposição “Imagens de uma Gente Invisível”,  que ficará até dia 31 julho no Sindbancáros)

Instituto de Assessoria às Comunidades Remanescentes de Quilombos (Iacoreq) 

Representando o movimento negro e quilombola, estiveram presentes Ubirajara Carvalho Toledo e Sebastião Henrique S. Lima do Instituto de Assessoria às Comunidades Remanescentes de Quilombos (Iacoreq), que surgiu a partir de um trabalho desenvolvido pela antropóloga Ilga Boa Ventura em parceria com pesquisadores e militantes de diversas áreas do movimento negro. Segundo Ubirajara, na época as comunidades quilombolas eram completamente invisibilizadas nas políticas públicas do RS. Visto isso, no ano 2000 o Iacoreq propôs ao Governo do Estado um projeto de formação para atuadores nas comunidades quilombolas remanescentes.

O projeto foi aceito, porém a legislação exigia que o Iacoreq fizesse relatórios antropológicos. Dada a característica oralidade da cultura negra ancestral e as estratégias que os primeiros quilombos utilizavam para sobreviver à escravidão, foi necessário que o instituto percorresse o interior do estado para recontar a história dessas comunidades

Em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), foram apontadas 43 comunidades remanescentes no Rio Grande do Sul. Pela UFRGS, mais de duzentas ervas medicinais utilizadas pelas mesmas. Desde então, o IACOREQ auxiliou a formação de mais de 15 associações comunitárias quilombolas. Fomentando também a constituinte da federação das comunidades quilombolas, que atualmente conta com 58 comunidades participantes.

“Nossa ação é de empoderamento, vivemos um processo de cidadania incompleto, pois a população negra ainda vive sequelas do racismo e da escravidão, as pessoas sequer são detentoras ou sabem dos seus direitos”,  afirmou Ubirajara a respeito do trabalho do Iacoreq, e de artigos da constituição como o 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias que afirma que o estado deve emitir título definitivo de posse  as comunidades quilombolas com parecer de quilombo.

Juguetes Perdidos 

O movimento Juguetes Perdidos da Argentina, representado por Leandro Bartolotta e Gonzalo Sarrais Alier, tratou sobre a politização imediata das condições de vida na periferia. Este tema diz respeito a sua própria história, que começou em 2004, após o incêndio da boate Cromañón em Buenos Aires, que deixou 194 mortos e ao menos 1432 feridos.  A boate, ainda que localizada no centro da cidade, era o ponto de encontro de jovens da periferia, que na época tinham como principal meio de expressão o rock n roll.

A partir desse acontecimento muitos jovens começaram a contestar outras impunidades, como ao referido ‘Gatijo fácil”, atos de execução sumárias realizados pela polícia na periferia. Na época costumavam produzir o que chamavam de “textos de agitação” hoje escrevem livros, seu último lançado se chama ¿Quién lleva la gorra?

Segundo Leandro, para combater o silêncio, estes jovens estabeleceram uma espécie de “aliança insólita”, que com uma margem de erro pode ser interpretada como uma  percepção implícita que mudou os seus territórios e a maneira como se  relacionavam.

“Ocupar é uma estética, uma linguagem”, afirmou Gonzalo. Criar novos espaços, comunas, coletivos virou praxe. Segundo ele, devido a contratos sociais que restringiam e privatizam estilos de vida, isso não agradou boa parte da população argentina.

Em relação à academia, tanto Leandro como Gonzalo compreendem que o tal distanciamento do objeto de estudo é apenas uma forma de “jogar o corpo fora”. Não é possível compreender somente o circuito do consumo ou do trabalho, é preciso ter uma visão do todo. A própria investigação militante não seria o bastante nesse caso. Para Leandro, por meio de uma investigação existencial e sensitiva, escrever deixaria de ser visto apenas como um registro e passaria a ser uma maneira de nos reinventarmos.

Universidade Popular dos Movimentos Sociais 

Oficina realizada em Porto Alegre pela Universidade Popular dos Movimentos Sociais (foto: divulgação)
Oficina realizada em Porto Alegre pela Universidade Popular dos Movimentos Sociais (foto: divulgação)

“Desconfiem de quem tem a palavra”, alertou o integrante da Universidade Popular dos Movimentos Sociais, Fábio Merladet, em sua fala. “Porque eu e os companheiros aqui estamos em cima e vocês ai em baixo? Por que não em círculos?”, provocara. Para ele a palavra é a mais poderosa ferramenta, que pode tanto libertar quanto oprimir.

“O final século 20 mostrou com eficácia a morte de todos os processos emancipatórios, dando a entender que o capitalismo havia vencido e que tínhamos que aceitar suas desigualdades. Porém um dia, o jornal francês Le Monde anunciou: o século 21 havia começado uma nova esperança, em Porto Alegre”, comentou Fábio sobre o período em que Porto Alegre, em oposição ao fórum econômico de Davos, sediou o primeiro evento de globalização contra hegemônica do mundo, o Fórum Social Mundial.  “Porém, ainda que o Fórum tenha dado voz à imensa diversidade , ele tinha seus defeitos, entre eles a falta de diálogo entre os movimentos sociais ali presentes”, digressou, criticando.

A partir dessa demanda surgiu, por sugestão do sociólogo Boaventura de Sousa Santos, a universidade popular dos movimentos sociais (UPMS) , que apesar de levar o nome de universidade, não tem professores nem alunos,conteúdos pragmáticos ou  cursos de formação. Segundo Fábio, em grandes círculos todos somos educadores e educandos, e portadores de conhecimentos singulares capaz de transformar a realidade a nossa volta. “Temos que compreender o outro para ir além “, concluiu.

Se quiser saber mais sobre a pesquisa militante, você pode acessar a pasta Dropbox feita pelo Instituto.

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