Karina concedeu entrevista ao Nonada na véspera de seu show no Unimúsica (Foto: Raphael Carrozzo/Nonada)
Karina concedeu entrevista ao Nonada na véspera de seu show no Unimúsica (Foto: Raphael Carrozzo/Nonada)

Cantora, compositora, percussionista, atriz, escritora, fanzineira, ilustradora. Karina Buhr é muitas em uma só. Com 42 anos de vida e 24 de carreira, já fez parte das bandas pernambucanas Comadre Fulozinha e Eddie. Desde 2010, ela segue carreira solo na música, tendo lançado os discos Eu Menti pra Você (2010), Longe de Onde (2011) e Selvática (2015). Em 2012, criou o fanzine digital anual Sexo Ágil, que aborda temas pertinentes no feminismo, como corpos diversos,  violência sexual, camisinha, mundo do trabalho, entre outros.  Na literatura, estreou em 2015 com o livro Desperdiçando Rima (Editora Rocco), que contém poesias e ilustrações. Além de tudo isso, Karina assina uma coluna na Revista da Cultura desde 2012, com textos e desenhos.

Karina é conhecida por ser engajada com o movimento feminista por falar abertamente sobre suas posições políticas, como o apoio à descriminalização do aborto e o repúdio ao governo Temer. Como consequência de falar o que pensa, é comum ela se envolver com polêmicas. A mais recente foi com a capa de seu disco mais recente, Selvática, que sofreu censura no Facebook em 2015 por conter imagem de seus seios, sendo esse considerado um “conteúdo que não segue os padrões da rede social em relação à nudez”. Mas o efeito foi inverso: o disco de Karina Buhr repercutiu e suas ideias sobre equidade, feminicídio e poder se espalharam pelo Brasil inteiro.

No dia 3 de agosto, o Nonada conversou com a artista sobre preconceitos, machismo, carreira e cenário musical atual. A primeira coisa que falei quando a vi foi que meu primeiro show dela (Olinda, carnaval de 2012) me marcou muito, principalmente por causa da sua performance ultra dinâmica, enrolando fios no pescoço, subindo em pilastras e batendo em si própria. Karina, lisonjeada, me abraçou calorosamente e, assim, acabou me acalmando, já que eu estava prestes a entrevistar alguém que admiro e com quem eu tenho muita coisa em comum.

Nonada – O tema do Unimúsica é A Palavra Futuro. Por que você acha que foi convidada a integrar esse projeto?

Karina Buhr – Eu preciso descobrir (risos). Mas não sei, talvez por eu falar sobre um monte de coisa, como feminismo e questões políticas. Talvez tenha a ver com isso.

Nonada – O que é selvática?

Karina Buhr – Eu nunca tinha escutado essa palavra. Apesar de gostar muito da Bíblia e já ter lido ela – eu gosto dela como fábula, como linguagem -, eu fui ler a Genesis e ela tem essa coisa dos animais selváticos, que Deus tinha criado Adão, Eva e os animais selváticos, e eu gostei dessa palavra. Esses animais são os bichos escrotos – os ratos, as cobras, os lagartos. Como a Bíblia é um livro muito machista, eu fiz uma analogia com as mulheres, como se elas fossem esses seres selváticos. As mulheres ali sempre são relacionadas com traição, fraqueza. Aí eu fiz uma letra como se fosse reescrevendo a Bíblia, reescrevendo essa história de violência. Achei “selvática” uma palavra bem forte.

Nonada – Você tem três discos solo: Eu Menti Pra Você (2010), Longe de Onde (2011) e Selvática (2015). O que mudou em você nesse meio tempo?

Karina Buhr – Eu não sei exatamente o que mudou. No som, foi ficando tudo cada vez mais pesado, o show foi ficando mais pesado e acho que eu fui atingindo cada vez mais público. E com essa comunicação muito direta que a gente tem com o público, via internet, isso acabou chegando em mais pessoas. Então, esse outro lado é uma coisa que também cresceu na minha vida. Começou a rolar encontros, debates sobre feminismo, principalmente; por conta do livro também, o Desperdiçando Rima, em que acabam gerando debates onde política também entra. Então, essas minhas opiniões políticas acabaram atingindo mais gente com o tempo e eu acabei participando mais ativamente de um monte de coisa.

Nonada – Você se considera uma líder feminista?

Karina Buhr – Não me considero uma líder feminista. Me considerar líder de algo é difícil, fico meio agoniada (risos), mas, sem dúvida, as coisas que eu falo hoje atingem muito mais gente do que no primeiro disco. O público era menor, agora é maior. E por conta desse tipo de comunicação também, na internet. Isso é um fenômeno de pouco tempo pra cá, e muito intensa. Eu até tento fugir um pouco disso, porque tem hora que você endoida e tem muita comunicação errada no meio, gente que entende de maneira errada o que eu falo. Mas acaba que essas ideias têm um retorno, as pessoas falam muito disso. Não vêm só elogiar o trampo, vem também discutir. E eu acho muito legal isso também vir junto com a música.

Além de cantora e compositora, a artista também já lançou livro e fanzines (Foto: Raphael Carrozzo/Nonada)
Além de cantora e compositora, a artista também já lançou livro e fanzines (Foto: Raphael Carrozzo/Nonada)

Nonada – Você já sofreu preconceito no meio musical por ser mulher?

Karina Buhr – Sim. Toda hora, todo dia. Já teve até caso de tocar em algum lugar em que me disseram: “hoje a noite é rock e você vai tocar amanhã, no dia das cantoras”. Mas ué, não pode se encaixar? Você tem que ficar na noite “cantoras” ou algo que signifique isso. E machismo no cotidiano, todo dia.

Nonada – Você liga para isso?

Karina Buhr – É, eu não acostumei. Porque é uma coisa que limita a gente, paralisa, por mais que eu possa passar uma imagem de que eu não me deixo abater por isso. Já deixei de fazer muita coisa por causa disso. Já dei muito freio. Isso acontece todo dia. Meus próprios colegas fazem e nem percebem, às vezes. Então, tem coisa que a gente passa por cima para poder fazer, senão a gente fica chorando em casa e não faz mais nada. Mas me acostumar, eu não me acostumei ainda não.

Nonada – Você já passou por alguma experiência misógina muito marcante?

Karina Buhr – Tem várias situações. Mas eu comecei a pensar nisso desde criança. Inclusive, eu vim saber da palavra feminismo muito depois de já fazer isso. Eu era a chata das férias, porque eu achava um saco essa divisão entre meninos e meninas. Tudo bem, tem menino e menina que gosta de brincar de casinha, mas eu não gostava. Eu não gostava de brincar com os meninos também, achava um saco. Agora, de situação, tem tantas…

Nonada – Eu soube de um caso em que você foi na delegacia denunciar um estupro…

Karina Buhr – Já passei por algumas claras tentativas de estupro, pelo menos umas três. Mas essa da delegacia foi que, numa época, estavam rolando muitos casos de estupro no meu bairro, em Recife,, mas nunca achavam o cara. Aí um dia, eu estava voltando da venda com um quilo de açúcar e o cara me atacou. Me jogou contra um muro e começou a me agarrar, a tapar minha boca, essas coisas. Mas eu consegui me desvencilhar dele alguma hora e cheguei em casa, verde. Falei pra um vizinho do acontecido e ele me levou na delegacia. Chegando lá, um cara perguntou o que aconteceu e eu disse: “Tentativa de estupro”. Ele disse: “Quem diz qual foi o crime é a gente, não é você não”. Já levei um tapa na cara, né. Foi a segunda violência. E olhe que o estupro não chegou a se consumar de fato. Tem muita mulher que chega destruída e recebe o mesmo tratamento. Aí eu descrevi a situação e ele perguntou: “Mas cadê as marcas no seu corpo?”. Não tinha coisa roxa, não tinha arranhão. Ele julgou como tentativa de assalto. No fim, não deu em nada.

Nonada – Mudando de assunto. Você já veio outras vezes pra região Sul, e o Sul é totalmente diferente da região Nordeste. Como é tocar aqui?

Karina Buhr – No Nordeste mesmo, há muita diferença de uma cidade para outra. Desde pequena que eu viajo muito, mesmo antes de tocar. Tenho um pedaço da família em vários lugares da Alemanha, outro pedaço espalhado pela Bahia e em Recife. Então, eu sempre transitei entre esses lugares. E eu amo viajar. Só queria que desse para ficar mais tempo nos lugares. As vezes que eu toquei aqui foi sempre uma farra, uma festa. Acho até um pouco parecido com Recife nisso.

Nonada – Você sente falta de fazer shows mais intimistas?

Karina Buhr – Meu público não é tão grande, mas eu acho que nessa coisa de você tocar para grande público, dar entrevistas, estar na imprensa, você acaba virando um personagem de você mesmo. Então, muitas vezes, aquilo não lhe representa. É maravilhoso fazer showzão, mas, para mim, o que é mais precioso é se juntar com os amigos e tocar. Esse é o motivo pelo qual a maioria das pessoas começa a fazer isso.

Nonada – Como que é o cenário musical de Pernambuco?

Karina Buhr – É do mesmo jeito que era há muito tempo atrás. Você fica como se fosse exótico. Mesmo a Nação Zumbi, que tem um público muito grande, ela não é colocada no mesmo lugar que Engenheiros do Hawaii, por exemplo. É uma coisa isolada.

Nonada – Você acha que tem a ver com o fato de ser do Nordeste, algum preconceito velado?

Karina Buhr – Sim, e não é nem velado, é isso mesmo! Tem muita coisa rolando em Pernambuco e que a gente não fica sabendo. Ou melhor, fica sabendo porque vai fuçar e vai saber, mas não vai estar no jornal, nos lugares. É sempre taxado de regional. Depois que a Folha de S. Paulo diz que você é massa, os jornais de lá passam a falar sobre. Aliás, o jornalismo tá se reinventando. Os grandes jornais tão se acabando. Parece que tá cada vez mais na mão das pessoas, mas ainda sinto que ainda tá muito raso isso. Falta as pessoas pegarem mais para si, descobrir as coisas. Eu tenho 42 anos e sou sempre considerada da nova geração. Eu podia, sim, ter começado a tocar agora, mas comecei em 1992. Antes desses trabalhos, eu tenho um monte de disco gravado, com um monte de banda, como Comadre Fulozinha e Eddie. Não que isso seja ruim, é que eu não sou mesmo da nova cena. É até bom dizerem que é nova cena porque aí você aparece mais no jornal (risos).

Nonada – Você se considera uma cantora punk? Porque é o que eu vejo.

Karina Buhr – Eu acho isso elogio, acho maravilhoso, muito obrigada! Acho que sou sim. Eu já fui bem mais punk do que eu sou hoje. O que eu não me considero é cantora. Eu gosto muito de cantar, mas eu canto as minhas músicas – as letras que eu faço, as músicas que eu faço. Isso, para mim, é tudo junto. Se eu fosse só cantar, eu não seria cantora. Eu até recebo convites, como aconteceu para cantar Secos e Molhados e Wando. É maravilhoso, mas é sempre um desafio. Então, cantora punk eu estou achando ótimo!

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Editora, nordestina, nômade e entusiasta de produções autorais. Gosta de escrever sobre música e qualquer coisa que seja cultura.