A vaga imagem de Grace Passô

Grace trouxe a Porto Alegre a primeira parte de seu projeto (Foto: Lucas Ávila)

Grace trouxe a Porto Alegre a primeira parte de seu projeto Grãos da Imagem (Foto: Lucas Ávila)

Por Anelise De Carli

Grace Passô esteve em Porto Alegre no início desta semana apresentando seu novo espetáculo Vaga Carne no 23º Porto Alegre Em Cena. Em 55 minutos de monólogo, a artista mineira fez o que muitos filósofos não conseguiram: romper de maneira contundente com o dualismo frágil da matéria.

Na Sala Álvaro Moreyra, durantes os três dias cercanos do feriado farroupilha, um espaço lotado e vazio ao mesmo tempo era o território ocupado pela peça. Uma voz que começa a falar sem que ninguém a escute, como que pensando alto, de repente consegue diminuir a luz da cena e conduzir a si a atenção do público, com quem inicia a travar um diálogo. Essa voz conta de suas peripécias, das diversas vezes em que já encarnou em patos, cavalos, sonhos de uma raposa e, agora, na nossa frente, encarna no corpo de Grace Passô.

Resistente a essa carne, tão cheia de fluidos e ruelas, a voz vai aos poucos descobrindo seus meandros. Ela descobre as graciosas movimentações da carne, que dão materialidade e potência a suas palavras. Acompanhadas por gestos, as palavras ganham engraçado efeito enfático ou irônico. Em troca, a voz descobre que pode emprestar-se a essa carne. Ela dá à carne algo que lhe foi negado, e a carne dá à voz as condições para uma nova forma de existência – essa, a única que conhecemos: onde o corpo é condição da mente e a mente é condição do corpo. Almagamadas, voz e Grace Passô agora são uma coisa só, indiscerníveis.

A atriz e dramaturga apresentou o monólogo Vaga Carne no Porto Alegre em Cena (Foto: Kelly Knevels)

A atriz e dramaturga apresentou o monólogo Vaga Carne no Porto Alegre em Cena (Foto: Kelly Knevels)

Não à toa que Grace Passô é chamada por muitos críticos como a melhor atriz do teatro brasileiro. Ela sabia exatamente sobre o que queria falar e, meticulosamente, criou uma narrativa profunda e envolvente para chegar lá. Experiente dramaturga, em Vaga Carne Grace criou uma imagem. Através da sua voz, ela nos sugere cenas o tempo, participamos imaginando. Mas é somente através da interdependência entre o que é imaginado e o que é vivido, conseguimos nos engajar na construção desse protagonista, que conseguimos produzir sentido.

A presença de Grace, sozinha e absoluta, no palco de poucas luzes, nos recorda que estamos, ao mesmo tempo, vivendo em pensamento e em carne, nesse duplo que chamamos de imagem. Para ser ainda mais enfática, a atriz nos ajuda a lembrar da nossa condição de carne quando vai apoiar seu corpo, ainda titubeante pela descoberta da voz, no corpo das pessoas da plateia.

Grace resume o espetáculo dizendo que seu corpo é o cenário e o protagonista é uma voz. Esse é o primeiro solo da atriz, diretora e dramaturga estreou no final de julho no Rio de Janeiro. A tripla atuação de Grace revela um envolvimento especial nos modos de estar em cena. Grace consegue, no início da peça, brincar com seu próprio corpo como se ele fosse uma partitura à parte da banda sonora. Ela fala e, aos poucos, vai fazendo o seu corpo obedecer.

a voz de Grace é uma das potências do espetáculo (Foto: Kelly Knevels)

a voz de Grace é uma das potências do espetáculo (Foto: Kelly Knevels)

A voz existe imbricada em nossos corpos, sofrendo de suas condições, e descobrindo outros poderes de dentro dessa condição. É por isso que a voz que habita a carne negra da mulher Grace Passô é diferente da voz que habita carnes brancas ou masculinas. Mas é também, somente por causa dessa voz que essa carne negra é escutada. É somente essa voz que vai nos conduzir a esse momento – o único momento em que somos todos realmente iguais –, o da pura poesia. Do lado de fora, a carne sofre dos julgamentos do olhar, de racismo, de machismo. Sofrimentos que fizeram a carne, sem voz, da mulher negra, calarem-se.

O texto que sua voz fala percebe que aquilo que pode falar coisas depende do corpo em que está encarnado. No corpo de Grace, a voz descobre que pode sentir saudade, sofrer de esquecimento, ou perceber-se uma mulher negra. A voz percebe que não pode mais abandonar o corpo desta mulher; ela já virou outra coisa, apaixonou-se, enredou-se, virou identidade.

A voz descobre – e assim nos faz perceber – que dentro do corpo de Grace ela pode ser diferente – quem sabe única. Acabam seus superpoderes, acabam suas ilimitações de uma existência que não é condicionada à vã passagem do tempo. A voz se apaixona pela infame carne, torna-se um, torna-se forte e torna-se frágil.

Vaga Carne é a primeira parte do projeto Grãos da Imagem. Resta saber que outras imagens Grace Passô vai nos oferecer para que lembremos que fortes e que vagas são a nossa voz e a nossa carne.

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