Mais do que plumas e paetês: resistência

Jazzmine Jones atua nas casas noturnas de Porto Alegre há cerca de um ano

Jazzmine Jones atua nas casas noturnas de Porto Alegre há cerca de um ano

“Todos nós nascemos nus. O resto é drag.”
RuPaul Charles

Texto Mariana Bampi

“Viado é aquela coisa muito performática, né?”, comenta comigo Jazzmine Jones, numa tentativa de justificar a sua vontade de entrar para esse mundo tão tabu e fantástico do drag. Jazzy – como também é conhecida – é uma drag queen recente no cenário porto-alegrense. Ela vem se apresentando em festas de casas noturnas especializadas há cerca de um ano. Suas principais inspirações vêm das divas clássicas da Broadway e passeiam pelos musicais modernos, como Chicago.

Enquanto Jazzy e eu conversamos em meio a doces e café numa agitada confeitaria do Centro Histórico, ela – desmontada – me desvenda os preconceitos e o que é, de fato, participar do movimento drag.

Nonada – Como tu descobriste o mundo drag?

Jazzmine Jones: Acho que não tem como não falar “assistindo RuPaul’s Drag Race”. Um reality sobre drag queens dos Estados Unidos. Foi contagiante. Um anos depois de assistir ao primeiro episódio da primeira temporada, a Jazzmine já havia nascido como persona drag.

Nonada –  Por que tu achas que a cultura drag está tão em alta?

Jazzmin –  Essa é uma boa pergunta. O drag existe há muito tempo como uma subcultura, algo marginalizado. É engraçado ver que agora vem tomando o devido espaço e se popularizando. Muita gente vê o lado ruim dessa popularização, como se a cultura drag se tornasse mainstream, mas não é mainstream. Pode até ser mais corriqueira para quem frequenta os círculos LGBTs, mas ainda é a minoria de uma população muito grande. O que acontece é que, no momento que pessoas como a MileyCyrusperformam ao lado de drag queens como aconteceu no VMA, tem gente que pensa que o movimento possa perder essa essência de contracultura que é tão presente, principalmente na estética.

Nonada – Tu achas que, mesmo depois dessa tendência à popularização, a cultura drag ainda sofre preconceito?

Jazzmine – Sim, com certeza. E não é um preconceito que vem só do pessoal padrãozinho heteronormativo, vem também de mulheres e da própria comunidade LGBT. Eu acredito que isso aconteça porque, erroneamente, drag é muito mais facilmente associado à transexualidade, que é uma das coisas que mais sofre preconceito no Brasil, de homens, mulheres, de todo mundo. Mas, na verdade, drag não tem essa relação com identidade de gênero, é muito mais teatro, criação de personagem e apresentação em palco. Eu sou um homem cisgênero, branco e homossexual. Não me identifico como mulher, mas eu criei uma personagem que é mulher. Ela não representa minha identidade de gênero e nem a minha orientação sexual. É uma exteriorização, como qualquer arte.

Nonada – Tu pensas que existe algum tipo de relação entre a cultura drag e os estereótipos de gênero?

Jazzmine – Essa cultura tem o poder de colocar no lixo essa coisa de binarismo e esses paradigmas de gênero. O drag se importa muito pouco com isso. Existem diversos tipos de drags: drag queens, kings, bioqueens [mulheres que se montam como drag queens]… Tem gente que não necessariamente quer se parecer com uma mulher, que usa peruca mas mantém a barba, ou é homem de seios ou simplesmente não [se monta] como ser humano. Drag está na montaria e te permite ser o que tu quiser.

Nonada – O que é ser drag para a Jazzmine?

Jazzmine – Drag é entretenimento, mas também é a representação de seres políticos. Um artista que performa pode até tomar a decisão de não se posicionar de forma pontual, mas quando tu vais para algum lugar, um homem vestido de mulher ou vice-versa, tu estás querendo dizer alguma coisa. Numa sociedade em que um homem que carregue signos femininos é visto como piada e uma mulher, igualmente adornada de características que remetem ao masculino, é vista como abominável, passível de levar uma surra só por ter tido a audácia de ter saído de casa,  a gente percebe que ser fazer drag incomoda, causa estranhamento e é por isso que estamos aqui. Ser drag é, no mínimo, gritar um grande foda-se.

A artista se define como um homem branco, homossexual e cisgênero (Foto: divulgação)

A artista se define como um homem branco, homossexual e cisgênero (Foto: divulgação)

Uma história nem tão contemporânea:

Por mais moderno e transgressor que seja o estilo e a cultura drag, não é novidade travestir-se na história da humanidade. Desde o auge da tragédia grega, na Antiguidade Clássica, até o teatro shakespeariano, montar-se foi uma necessidade cênica imposta pela moral da época, quando as mulheres eram proibidas de atuar ou ter qualquer outro envolvimento com o teatro.

De acordo com Igor Amanajás em seu artigo “Drag Queen: Um percurso histórico pela arte dos atores transformistas”, a história do drag é inerente à do teatro. A necessidade de mimetizar o outro, segundo o pesquisador, é datado do período das tribos pagãs. Máscaras, objetos e todo o tipo de utensílios – até enchimentos – não eram poupados em nome da representação.

Uma lenda diz que o termo drag surgiu no século XVI, com o grande dramaturgo Shakespeare. Diz-se que, ao criar suas personagens femininas, o autor escrevia no rodapé das páginas do roteiro a sigla DRAG – dressed as a girl, ou em tradução livre, vestido como uma garota. Isso acontecia porque os grandes papéis femininos escritos por ele eram interpretados por homens. Lady Macbeth, Katherina, Desdêmona e Pórcia: todas eram homens de enchimento.

Com o despontamento da cultura pop, o aumento do poder consumista, de movimentos sociais e de contracultura (Revolução Sexual, o hippie e o Movimento Gay, por exemplo), o drag ganhou grande impulso nos anos 60. Duas décadas mais tarde, esse estilo encontraria um contexto político mais sólido de militância da população LGBT.

Sempre na contra-mão, sempre tomando a frente em assuntos polêmicos e em defesa da causa LGBT, vivendo na linha tênue entre o popular e o estranhamento, o drag é como sentenciou Jazzmine: no mínimo, berrar um enorme foda-se

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