O ano é 1998. Vestida com calças largas, boné, óculos escuros, Dina Di – se camuflava para fazer parte do rap nacional, que era quase exclusivamente masculino – soltava sua voz em letras como “Sou guerreira do Rap, linha de frente… Porta bandeira, peito equivalente”. Em entrevistas, a rapper afirmava que o uso de roupas largas era uma estratégia para que os homens prestassem atenção em suas letras, e não em seu corpo. Apesar de nos deixar após uma morte precoce em 2010, vítima de uma infecção hospitalar, Dina Di abriu o caminho para que as mulheres pudessem se expressar mais livremente no rap.

A trilha aberta por ela é hoje seguida por uma geração de mulheres inspiradoras como Tássia Reis, Drik Barbosa, Negra Li e Karol Conka, o nome mais expressivo no cenário nacional. A rapper curitibana se apresentou nesta quarta-feira (30) pela primeira vez no Opinião, e encheu a casa em um show que misturou rap, empoderamento, música pop e, principalmente, feminismo.

Depois de alguns anos se apresentando em festas de classe média alta aqui em Porto Alegre, já estava mais do que na hora de Karol pisar no Opinião, uma casa de shows teoricamente mais democrática na programação e acesso ao público (que, no entanto, não deixa de ser classe média também). Mas a pista de dança casou bem com o que a cantora propôs: um show intenso, cheio de hits, sem tempo para respirar. Vale destacar que talvez a única decepção tenha sido a curta duração do show: pouco mais de 60 minutos que passaram voando, com um custo de cerca de R$ 50.

Em um show de pouco mais de 1 hora, Karol cantou quase todas as suas músicas (Foto: Camila Lara/Nonada)

Com uma presença de palco e um carisma marcantes, a mamacita colocou o público, formado quase que 100% por mulheres e casais gays, para cantar todo o setlist de aproximadamente 15 músicas. Deu para contar nos dedos o número de homens héteros brancos. Não foi surpreendente, porém; são raros os desconstruidões que aceitam de boa as verdades que Karol tem a falar.

Depois de o DJ colocar “Oba, lá vem ela” de Jorge Ben para tocar, a rapper já começou tombando com ‘É o Poder”, música que estará no seu novo álbum, que deve sair em março de 2017. “Se não tá no meu lugar então não fale, meu, não fale/ Se for fazer pela metade não vale, não vale”, ela cantou, com direito a samba no fim da música. Em seguida, soltou uma sequência de músicas do seu último álbum, Batuk Freak, lançado em 2013. “Sandália”, “Mundo Louco”, “Você Não Vai” falam sobre libertação e independência. Antes de “Bate a Poeira”, Karol fez questão de frisar por que estava ali em um dos vários momentos de interação: “Fodam-se os padrões!”

Mas foi com “100% Feminista” que o público veio abaixo, e as mulheres fizeram questão de cantar com força. A música, lançada há poucas semanas em parceria com a funkeira MC Carol, já é candidata a um dos símbolos feministas da música brasileira atual, ao lado de outras como “Triste, Louca ou Má”, da banda Francisco, el Hombre, por exemplo.

Represento dandara e xica da silva
Sou mulher, sou negra, meu cabelo é duro
Forte, autoritária
E às vezes frágil, eu assumo
Minha fragilidade não diminui minha força
Eu que mando nessa porra
Eu não vou lavar a louça (letra de “100% Feminista”)

No público, mulheres e casais gays eram a maioria (Foto: Camila Lara/Nonada)

Diferentemente de Dina Di, Karol pode se vestir como quiser e afrontar os homens com frases como “É quando eu quero, se conforma, é desse jeito/ Se quer falar comigo então fala direito” (“Tombei”), mas isso não significa que o percurso tenha ficado mais fácil e menos machista. Ao falar para as mulheres, porém, Karol nos empodera, potencializando o papel de transformação social do rap. Nesse sentido, quanto mais cresce a popularidade da cantora (que já se apresentou algumas vezes no programa da Fátima Bernardes, por exemplo, e já pode ser considerada uma diva pop ao lado de nomes como Anitta e Ludmilla), mais o feminismo se difunde no país. E, embora, suas referências na música pop sejam marcantes, é através do samba, do batuque e do rap que a sua força de ser uma mulher negra se manifesta.

De pele marrom mandando um som
De cabelo black usando batom
Tô de moletom quebrando no flow
Subindo a ladeira curtindo o que é bom
Salve Sabotage MC de compromisso
Cumpre seu papel no céu
Que aqui a gente te mantém vivo ( letra de “Boa Noite”)

O último bloco fez o público explodir com as músicas mais pop da carreira de Karol, como Gandaia e Toda Doida, em parceria com o Boss in Drama, que alçaram a rapper à popularidade nas pistas de dança nos últimos anos. Um dos melhores momentos ocorreu quando ela chamou fãs ao palco para brincarem de dublar “Sorry”, da Beyoncé. Chamando ao palco três mulheres negras e um fã de longa data (vestido como o cantor Jaloo!), o momento “diva pop” divertiu o público, não apenas com as performances mas também com as piadas de Karol. Tombei, talvez a mais aguardada – por ser um hit que casa perfeitamente a batida pop e a letra feminista – encerrou o show com o desejo de que ela volte logo e mais uma dose de libertação. Baguncei a divisão, esparramei, peguei sua opinião, 1, 2, pisei.

(Ela ainda voltou para o Bis com um cover de “Back to Black”, de Amy Winehouse)

No público, mulheres e casais gays eram a maioria (Foto: Camila Lara/Nonada)

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