Johnny Hooker é um homem que não tem vergonha de sentir

Hooker voltou a se apresentar e Porto Alegre, dessa vez com casa cheia (Foto: Carol Corso/Nonada)

Hooker voltou a se apresentar e Porto Alegre, dessa vez com casa cheia (Foto: Carol Corso/Nonada)

Uma fossa sem fim. Assim é a música de Johnny Hooker, ou John Donovan – seu nome de batismo. Na última quinta-feira, no bar Opinião, o público, formado em sua maioria por jovens adultos e com grande presença LGBT, lotou o espaço para ver o artista performático e tentar curar as feridas do coração. Cantor, compositor, ator e roteirista pernambucano, Hooker se permite doer ao máximo com fim de relacionamentos, extraindo os piores e os melhores momentos para fora de si. E nos tempos atuais, onde falta compaixão, carinho e empatia, isso é ótimo.

O show estava dentro da programação da festa Borogodó, de música brasileira. Por isso, o show só começou por volta de 00h30min, mais de duas horas depois do início da festa. Mas não foi um sacrifício esperar: no setlist havia Criolo, Caetano Veloso, Tulipa Ruiz, Chico César e muita, muita música da região Norte. Incrível como a gente, do Sul, houve pouco carimbó.

A apresentação começou com a exibição de um pequeno clipe do Johnny recitando uma poesia, creio eu, já que não dava para ouvir bem o que ele falava por causa da plateia ansiosa, animada e eufórica para vê-lo ao vivo depois de tanta espera. O último show da turnê do disco Vou Fazer uma Macumba pra te Amarrar, Maldito! (2015) começou com a faixa-título, seguido de “Alma Sebosa”, onde se percebe as primeiras expressões corporais de Hooker e da banda Madimboo, que o acompanha.

O show integrou a turnê do álbum "Vou Fazer uma Macumba pra te Amarrar, Maldito!" (Foto: Carol Corso/Nonada)

O show integrou a turnê do álbum “Vou Fazer uma Macumba pra te Amarrar, Maldito!” (Foto: Carol Corso/Nonada)

Sua roupa era feita de volumosas penas pretas nos ombros, um tecido transparente preto por todo o corpo e detalhes em dourado. Além disso, maquiagem de delineador completou o visual, que com pequenas danças sensuais e um tanto eróticas, mostrou-se que Johnny tinha, sim, uma identidade própria. Depois, veio o ska “Chega de Lágrimas”, uma música com tom de superação, para chacoalhar um pouco mais a galera (Chega de lágrimas/Eu vou meter o pé na estrada/Me livrar de você/Da sua cara). Em seguida, o cantor perguntou: “Vocês estão prontos para transar comigo esta noite?”. Claro que estávamos.

E seguiu com a música “Só pra ser teu homem”, ainda da época da banda Johnny and the Hookers (2011). O agogô, a guitarra e a percussão eram marcantes na canção, que homenageia sua cidade natal, Recife. Após, o artista pegou uma cadeira amarela e começou a cantar, acompanhado só do violão de Artur Dantas, umas das músicas mais bonitas do disco, tanto em letra quanto em melodia: a dramática “Segunda Chance” (Me profanou, me incendiou, pediu a Deus/Com toda força que o meu corpo fosse teu/Me consolou, justificou, disse: sou teu!/Me carregou nos braços/E então se escondeu). Confesso que a música a seguir, “Boyzinho”, eu não entendo e não me agrada muito. Mas um ponto positivo foi que ao vivo vimos um belo duelo entre a guitarra e a percussão. É muito bom ver um artista solo colocando sua banda em evidência certos momentos.

A Madimboo segurou as pontas enquanto Johnny Hooker vestia um blusão brilhoso e uma calça preta. Quando entrou no palco novamente, entoou o hit “Amor Marginal” – que, por sinal, o canto rasgado dela me lembra muito Cazuza —, trilha sonora da novela Babilônia, da Globo, que foi ao ar em 2015. O clipe dessa música, com mais de dois milhões de visualizações no Youtube, conta a história de um caso extraconjugal homossexual. Johnny Hooker é assumidamente gay, e procura sempre colocar a causa em pauta nas suas músicas e nos seus clipes.

legenda bla vla vla (Foto: Carol Corso/Nonada)

A apresentação teve momentos políticos e covers brasileiros (Foto: Carol Corso/Nonada)

Visivelmente emocionado com a casa cheia, Johnny declarou amor por Porto Alegre e pediu para que “quem fosse da resistência” levantasse a mão. Grande parte da plateia levantou e bradou “Fora Temer”, plenamente apoiado pelo cantor e pela banda. A seguir, declarou que cantaria uma música “um pouco comunista”: era “Garçom”, do Reginaldo Rossi. “Pois no bar, todo mundo é igual”, disse Hooker. Também rolou cover de “Pense em Mim”, de Leandro e Leonardo.

Outra grande música do artista é “Boato”. Solar e de ótima métrica, o axé fala principalmente sobre amor-próprio e aproveitar o melhor da vida, sem ligar para os julgamentos e sem medo de ser feliz. A última música a ser apresentada antes do bis foi uma inédita, que entrará no próximo disco e que põe em questão as minorias políticas e a resistência às forças conservadoras (Não vá embora, por favor/A vida já me ensinou/Que o que vale mais é a resistência), beijando o guitarrista na boca ao final. Em seguida, Johnny apresentou seus músicos com uma gentileza singular.

Já cansado e com outro figurino (uma roupa colada toda dourada), Johnny voltou com o bis ficou por conta de “Volta”, canção tema do filme Tatuagem (2013) e do legítimo frevo “Desbunde Geral”. Com apenas 1h30min de show, Johnny Hooker conseguiu mostrar, como ele mesmo diz, que amar também é um ato de resistência.

O artista lotou o bar Opinião e declarou amor por Porto Alegre (Foto: Carol Corso/Nonada)

O artista lotou o bar Opinião e declarou amor por Porto Alegre (Foto: Carol Corso/Nonada)

       

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