Precisamos falar sobre as mulheres que não estão com a banda

Clara, Daniele e Filipa (da esq. pra direita) estão à frente do projeto (Foto: divulgação)

Clara, Daniele e Filipa (da esq. pra direita) estão à frente do projeto (Foto: divulgação)

por Marta Karrer

Em 1991, Kathleen Hanna já dizia no manifesto Riot Grrrl: “Eu acredito de coração que as minas constituem uma força revolucionária da alma que pode e vai mudar o mundo de verdade”. Em 2016, Salma Jô (vocalista do Carne Doce) canta em Falo, do disco Princesa: “Já tá cansado da minha voz porque/ O tempo todo o timbre feminino é/ Pra maioria algo enjoativo/ Não é um gosto pessoal”.

Mais de 20 anos se passaram entre uma frase e outra, e sabemos que não faltam mulheres talentosas com trabalhos bem executados no cenário musical nacional e internacional. Mas ainda assim, olhando para as mesas dos eventos sobre a indústria da música, só vemos homens palestrando. Se retirarmos todas as bandas que não tem uma mulher que seja na formação dos cartazes dos principais festivais do mundo, os lineups ficam praticamente vazios.

Sim, são inúmeras as cantoras brasileiras aclamadas pela crítica. Mas por que não ouvimos falar mais das bateristas, compositoras, guitarristas, baixistas, técnicas de som, produtoras, roadies até que elas sofram algum tipo de assédio?

Foi com a proposta de mapear e entrevistar essas profissionais da música que nasceu o projeto We Are Not With The Band, na segunda metade do ano passado. Entrevistando nomes como Samira Winter, Rita Oliva (da PAPISA), Larissa Conforto (da Ventre) e a própria Salma Jô, a iniciativa aposta no texto aprofundado e nas fotos feitas a partir do olhar feminino de Filipa Aurélio para divulgar essas artistas que muitas vezes não recebem o devido reconhecimento pelos seus trabalhos. A identidade visual é assinada pela designer Clara do Prado, que gerencia os conteúdos junto com a publicitária Daniele Rodrigues – que conversou com o Nonada sobre o projeto e a relação dele com o protagonismo feminino na música.

Como surgiu a decisão de catalogar e fazer um acervo?

Tudo começou com uma ideia da Filipa. Ela é fotógrafa e tinha participado do Ladies Rock Camp no início do ano, fazendo o registro. Ela conheceu muita mina e ela teve a ideia de fazer um projeto visual, acho que era meio um Instagram só com fotos de minas em bandas. Aí ela me chamou pra ver como a gente poderia pensar em divulgação desse projeto. Mas a ideia mesmo era a gente conseguir se aprofundar mais nas pautas e não fazer notícias, porque a gente sabe que notícia tem tempo predeterminado. Como a gente tem nossos trabalhos, pra gente fica difícil. Mas a ideia é ampliar as entrevistas pra outros formatos, tentar fazer mais vídeos e não só texto. A escolha por ser conteúdo é pra conseguir explorar um pouco mais e não ter um prazo de validade. Eu não posso falar do lançamento do álbum da Papisa. Eu tenho que falar com a Rita, falar sobre a trajetória dela, o background dela, quem ela é, como ela chegou na Papisa, o que ela espera com isso, pra ser algo que tu vá ler no fim do ano e entender e aquilo ainda fazer sentido.

O que acontece é um apagamento das mulheres que fazem música, né? Elas sempre estiveram ali, só que nunca tiveram o mesmo palanque que os homens. Mas vocês vêem que isso se estende não só pra quem toca, mas pras mulheres que trabalham na indústria da música em geral?

Sim. Parece que fica muito no backstage. Sei lá tu vai ver o lançamento de um novo álbum de uma banda de caras. Tu vai ver e tem muita mulher envolvida. Mulher envolvida na produção, mulher envolvida na assessoria e em sei lá mais o que. E ninguém fala dessas mulheres, sabe? A  nossa ideia também é conversar com as mulheres que produzem, que noticiam, falar com mulheres que tão envolvidas na música. Mas a gente quer chegar num número X de mulheres que têm bandas pra daí passar pras mulheres que produzem e conseguir ir ampliando isso. Fazer uma série com as meninas que têm selo, que têm surgido muito mais e a gente nem sabia que tinha. O fato de existir um veículo, a gente enquanto veículo noticiando isso, já dá um up nessas coisas. Querendo ou não a imprensa tem um papel puta importante na história de qualquer coisa.

Qual é o critério de vocês para selecionar quem aparece no projeto? Se uma banda chegasse e dissesse que queria que vocês fizessem uma entrevista, o que precisaria pra isso acontecer?

Olha, ainda não chegou ninguém querendo ser entrevistado, mas o que aconteceu foi tipo que eu fui no show da Winter, e eu já tinha falado com a Samira, entrevistado ela pra Noize inclusive. A gente tava trocando uma ideia, ela perguntou o que eu tava fazendo, contei do projeto e ela falou “me entrevista!”. E daí tipo na hora peguei lá o gravador emprestado (meu celular já tava sem bateria) e fui lá entrevistar. Mas nunca ninguém mandou inbox  falando “ah, me entrevista”. No máximo uma menina mandou inbox divulgando o trabalho dela, que era bem massa até. Mas o critério de escolha a gente não tem muito pré-estabelecido. É banda de mina, que a gente já ouviu, que a gente acha massa e já tá no nosso radar e que a gente fez tipo uma pré-lista do que a gente acha interessante. Também pessoas que vêm tipo “ah tu já ouviu falar dessa pessoa?”, e a gente vai colocando lá na listinha pra tentar fazer um approach. Mas é bem difícil.

We are not with the band é  um projeto que valoriza o protagonismo das mulheres em todo o cenário musical (Foto: divulgação)

We are not with the band é um projeto que valoriza o protagonismo das mulheres em todo o cenário musical (Arte: divulgação)

A maioria é do indie, do alternativo, né?

São mais pessoas que a gente tem contato, mas a gente quer ampliar isso. Como a Filipa tá em São Paulo, pra ela facilita um pouco essa questão porque ela pode ir atrás. Tem umas meninas de um coletivo de rap lá em São Paulo que a gente tá a fim de falar com elas, mas vamo ver se vai rolar. A gente quer ampliar porque querendo ou não tem todo aquele lance da bolha. Fica fácil até quando são pessoas que a gente já conhece, né?

É, e também é complicado quando vocês são as únicas pessoas que tão fazendo esse trabalho agora, né?

Atualmente, sim.

Fica aquela responsabilidade de que se vocês não fizerem, a pessoa não vai aparecer?

Exato. Mas até esses dias surgiu uma página no Facebook de uma menina lá de São Paulo que era “Todo dia uma banda de mina diferente”. Quando surgiu a gente pensou: “Nossa, parece…igual? (risos)” e ficamos naquelas de “Bah, mas o que será que vai fazer?” A gente poderia juntar as coisas e não fazer uma concorrência, mas basicamente o trabalho dela, pelo que eu tenho acompanhado, é mais divulgar mesmo links e tal. Não tem um aprofundamento que nem a gente vai lá, troca ideia e tenta trazer coisas novas e uma discussão sobre gênero na música.

A proposta é fazer um acervo, como se fosse um índice, né? Mas vocês ao mesmo tempo tentam aprofundar e focar no trabalho daquela pessoa mesmo, não só porque ela é mulher e faz música, certo?

É, a gente se pega discutindo muito isso da questão do gênero. A gente quer que chege um dia que a gente não precise mais falar que é um trabalho só de minas. A gente simplesmente vai lá e vai fazer e só vai ter mulher e ponto. Porque é importante a gente falar com essas mulheres, porque elas têm um processo criativo, elas têm uma trajetória, elas não chegaram ontem ali, sabe? Tem toda uma questão muito importante que a gente percebeu que é deixada de lado. A gente tenta trazer um apanhado da trajetória delas enquanto mulheres, processo criativo dos últimos trabalhos delas, e essa questão do feminino, de como que elas se vêem. No início a gente até perguntava sobre a questão de sofrer algum tipo de assédio, e depois a gente foi percebendo que isso é super relativo. E fica meio foda porque muitas das entrevistas a gente acaba fazendo por e-mail, então não consegue extrair alguma coisa sobre assédio quando a pessoa nem tá ligada no que vem a ser um assédio.

Tem muita mulher na música, mas pessoas ficam se prendendo muito na questão delas não serem valorizadas e não no que faz isso acontecer. Então, o que faz essa desvalorização acontecer?

Uma das coisas que eu fiquei muito me perguntando esses tempos é sobre nosso “feminismo de internet” e sobre como às vezes as próprias meninas acabam se colocando numa situação meio que de vítima. A gente já é vítima, mas parece que fica confortável, ao invés de dar o protagonismo feminino ficar tipo “não, a mina só fez isso porque o cara foi escroto”. Não porque ela sempre quis fazer tal coisa, não porque ela sempre achou massa. A gente tem que simplesmente esquecer essa questão do homem sendo escroto e focar na parada da mulher sendo foda. E isso é muito difícil ainda. É isso que a gente quer se apegar: essa mulher é foda porque ela é essa mulher, porque ela tem esse background, é isso que ela quer, foi isso que ela pensou e é isso. É essa mulher.

Isso entra também na escolha do nome de vocês? “Não estar com a banda” seria isso?

É! Eu tô ali porque eu quero!

Outra coisa: porque escolher um nome em inglês sendo um projeto nacional?

Foi uma coisa mais da Filipa, porque a ideia do projeto foi dela. Ela já chegou com o nome pronto. Tem uma referência de um livro [I’m Not With The Band: A Writer’s Life Lost In Music, da inglesa Sylvia Patterson] e também tem a questão de universalidade. A Filipa é portuguesa e ela mora aqui no Brasil faz uns dois anos. Eu moro aqui em Porto Alegre e a gente se conheceu no Rio. Tem todo esse lance de umas transitoriedades, de ficar mais fácil por ser  uma língua que todo mundo tem um pouco mais de contato. A gente escuta muita música gringa, apesar da gente estar fazendo um trabalho com mulheres aqui. Agora  na playlist que a gente fez em parceria com o Bananas Music Branding a gente explorou outras mulheres de outros países. É muito difícil a gente conseguir falar com uma banda internacional. A gente conversou com as meninas da Pega Monstro, de Portugal, mas elas ainda não retornaram, e fora isso a mais internacional foi a Samira, que é meio a meio (risos).

Eu vejo muito que quando alguém faz música, a pessoa tá dando a própria verdade das coisas. É a experiência que tá ali. Além da questão de que uma mulher não tá num show,  não ouve uma banda,  não frequenta o cenário porque alguém indicou ela pra lá e sim porque ela quer, vocês não acham que também é sobre o que essa mulher diz merecer ser ouvido ou não?

Eu tava pensando sobre isso esses dias. Veio uma menina no Facebook falando porque as listas de melhores do ano não incluem EP. E ao mesmo tempo, quando tu olha pra todas as listas de melhores do ano, tu vê muitos trabalhos masculinos, às vezes tu vê uma coisa feminina. Aí a gente acaba entendendo no meio do caminho a importância da comunicação na música. Elas andam muito juntas, e eu vejo que pra bandas de mulheres essa comunicação se dá duma forma mais difícil que em bandas de homens. E eu não sei que momento isso acontece. Eu vejo bandas dos meus amigos em que os guris se dividem, e em banda de menina parece que tudo fica muito mais difícil de acontecer. Eu tentei formar uma banda esse ano e eu só consigo dizer que é uma banda platônica, porque a gente não conseguiu sair da ideia. Eu comecei a fazer aulas de guitarra, eu evoluí muito na guitarra e as outras minas sequer começaram a tocar alguma coisa. E eu vejo essa dificuldade na comunicação também. Precisa ter um trabalho de se apresentar para um veículo, mandar release, fazer foto de divulgação que às vezes eu acho que mulher não tem tanto esse tempo que é primoroso pra fazer. Acho que eu viajei um pouco na pergunta (risos), mas…

Isso é muito de conseguir dizer que as pessoas valem o teu tempo e tu vale o tempo das pessoas, né? Tipo, não tem como fazer foto de divulgação sozinha…

Exato! E também precisa do veículo pra validar o teu trabalho. Tu precisa sair num Monkeybuzz, num Miojo Indie, numa Noize e acho que as pessoas tão olhando muito mais pra isso esse ano. Acho que 2017 vai ser um ano melhor pra mulheres na música. A gente vai começar muito forçando a barra na questão do gênero, e eu espero sinceramente que a gente não precise falar que é mulher e que a gente simplesmente ocupe o espaço, sabe? É a questão da cota, né? Agora ficam tipo “ah, a gente tem que colocar mina porque fica chato”.

 

Qual é a importância de ser uma fotógrafa mulher iniciando o projeto, com um olhar feminino?

É muito a questão do olhar mesmo. Por mais que seja uma banda que tenha uma única mulher, o fato dessa mulher ter a noção do papel dela ali e ser uma mulher forte e empoderada, já dá uma conotação absolutamente diferente também pelo olhar de quem tá tirando essas fotos. Eu acho isso muito massa.

 

E o que vocês planejam daqui pra frente pro projeto?

A gente tem umas três entrevistas pra lançar que a gente não conseguiu transcrever ainda. E muita coisa pra fazer, mulher pra trocar ideia e todos os dias meio que fazendo os contatinhos. Tem toda a questão logística da foto, e a gente percebeu que isso é algo quer a gente vai ter que ampliar e pegar contribuição. Colocar outras meninas na roda pra fazer foto, pra fazer entrevista. E é muito importante também colocar outras mulheres porque se ficar só a gente acaba diminuindo as possibilidades. A gente vai perder possibilidade de mostrar o trampo de outras mulheres porque a gente não consegue quando a gente pode chamar outras meninas que se interessem pra fazer isso também.

A iniciativa traz entrevistas com diversas artistas e profissionais da música (Arte: divulgação)

A iniciativa traz entrevistas com diversas artistas e profissionais da música (Arte: divulgação)

E quanto às perguntas, vocês tem uma base pronta, tipo um questionário, ou vai de cada entrevista?

No começo a gente tinha um roteiro, mas no meio do caminho a gente percebeu que isso é muito pobre. Acaba não explorando muito a questão do trabalho artístico daquela mulher. E depois a gente ficava com perguntas muito mais relacionadas a assédio, como que elas se sentiam como mulher, se elas viam alguma evolução quanto a isso, se elas estavam ligadas a algum movimento feminista, se elas achavam importante os homens serem inclusos nessas discussões de gênero e tal. Aí no meio do caminho a gente entendeu que tinha que estender muito mais pro processo artístico dessas mulheres pra daí chegar na parte do gênero e da luta.

A ideia é encarar elas como sendo capazes de não só lutar, mas de fazer coisas além do sofrimento de ser mulher?

Exatamente. E não focar tanto realmente na questão do sofrimento, focar no protagonismo mesmo. Se tu é uma mulher foda, fazendo um trabalho foda, tu já tá há mais de dez anos fazendo isso não sou eu que vou ficar aqui fazendo uma de coitada. Tu pode contar de mil coisas afudê que tu já fez. Esse é o espaço pra falar de coisas massa que tu já fez.

Tem também a questão da mediocridade do homem branco, né? Pelas entrevistas, vocês enxergam que na hora de começar e botar a cara a tapa é um desafio maior pras mulheres?

Pelas entrevistas a gente percebe que assim como os caras quando começaram tiveram uma puta dificuldade, essa questão de se provar é o tempo inteiro. É no início mas ainda acontece. Eu tenho que provar que eu sei fazer tal coisa, eu tenho que provar que eu tenho essas referências, eu tenho que provar que eu sei afinar essa porra dessa guitarra, que eu sei afinar uma bateria, eu tenho que provar que eu sei fazer um lá menor, sabe? Pras mulheres é o tempo inteiro, enquanto que os caras vão lá e tocam e foda-se.

Fazer música depende de um público, e depende de um protagonismo, de estar confortável com as pessoas focando em ti. E a gente nunca acha que os homens tão querendo atenção fazendo as coisas – sempre parte do princípio que eles tão ali porque querem se expressar. Tu acha que esse benefício é dado pras mulheres?

Ah, verdade, não tinha pensado nessa questão do querer atenção e de se expressar. Porque uma coisa está atrelada à outra. Mas uma coisa que eu tenho pensado nos últimos tempos é no questão do posicionamento de uma banda também. Se tu te posicionar como uma banda de mina, talvez isso te tire um certo público por um preconceito bobo. Eu tinha uma amiga que dizia “Ah, não gosto de banda com vocal de mina”. E eu nunca tinha entendido isso. É uma questão meio que machista, tipo, caras gostam de ver minas em bandas com instrumento mas se não aparecer muito. Toca uma guitarrinha ali só. Não vai tocar bateria, tocar baixo. Tem também a coisa interessante da inventividade, da criatividade – até que ponto uma mulher consegue segurar isso né? Não segurar, mas, lidar com todas as críticas e tal.

As grandes artistas mulheres que tão em alta agora (Ava Rocha, Karina Buhr e etc) são artistas que pegam a bandeira de ser mulher e a força feminina como uma coisa central do trabalho delas. Se elas fizessem um trabalho que mostrasse mais vulnerabilidade, tipo o que o Rubel faz, o que 5 a seco faz…será que elas teriam licença pra isso?

É muito óbvio a mulher falar de fragilidade mas se homem fala é bonito, né (risos). É complicado porque tem muitos detalhes aí que a gente acaba não percebendo no dia a dia do porque a gente chega nesse momento de precisar dar vazão a trabalhos femininos. São muitos detalhes, desde a escolha do repertório, a escolha do instrumento que tu vai usar, a escolha do figurino, veículo que tu vai te apresentar, lugares que tu vai fazer teu show…são muitos detalhes que a gente nao pensaria se não fosse o momento atual permitir isso vir à tona. Eu fico muito orgulhosa de estar fazendo um projeto assim, porque querendo ou não é algo que ajuda a gente a pensar sobre essas coisas. Vai sair essa entrevista e pode ser que alguém ache massa e plante uma sementinha.

Que outras ações vocês vêem que ajudam as mulheres no cenário e na indústria na música como um todo?

Recentemente em Sao Paulo teve o SIM, aquela Semana de Música e tal. Aí eu tava vendo uma entrevista com a criadora, a Fabiana, que ela tava falando justamente da questão que tem muita mulher na música mas não tem protagonismo. Tem muita mulher envolvida mas quem acaba aparecendo sao sempre os caras. E que ela ia tentar colocar mais mulheres na roda, fazer uma roda de conversa de mulheres e eu acho isso super interessante a gente pensar cada vez mais nessa inclusão e não pensar só nessa cota de mulheres. Mas ao mesmo tempo a gente vê ainda: tu olha as fotos da roda pra falar da curadoria musical e é um bando de macho. Tem um monte de mulher fazendo isso, custa chamar uma? É isso sabe, ir buscando informações sobre. É muito importante os veículos também irem se atentando mais à questão feminina. Ainda é a melhor forma das pessoas conhecerem novas bandas.  Uma coisa que eu fico muito chateada ainda é o número menor de mulheres técnicas de som, trabalhando mais no detalhe da música. Eu não conheci nenhuma até agora, e to querendo muito buscar essa pessoa pra entrevistar. Uma mulher que masterize, que faça o show de um show mas não encontrei ainda.

E como vocês enxergam esse fenômeno de enquanto tem tantas mulheres querendo ser ouvidas, várias pessoas continuam escutando artistas que são acusados de assédio ou de terem uma conduta ruim no geral?

Isso é uma parada que é muito complicada porque o julgamento se dá no meio virtual e ele se dá de uma forma muito intensa. As pessoas não sabem o que acontece na vida real, às vezes. Nos últimos tempos aconteceram coisas com pessoas próximas de mim e a gente se viu muito perdidos, porque é complicado tu julgar o trabalho de um cara por um episódio que tu nem sabe como foi de fato. Ao mesmo tempo que tu te diz feminista e tem um projeto para divulgar o trabalho feminino, tu duvida de uma figura feminina em prol de uma figura masculina. Só que às vezes tem que ter um trabalho meio pedagógico dessas coisas que a internet não dá espaço. Simplesmente ir lá e apedrejar é quase como a gente reproduzir um sistema carcerário na internet – excluir em vez de mostrar pro cara onde que estava o erro, onde que ele pode melhorar pra não vir a fazer isso de novo. Eu acho que homens em geral são muito suscetíveis a cometer esses erros e continuar perpetuando esse machismo em diferentes níveis. É muito complicado, é como se não tivesse o que fazer. Claro que tu não vai ficar endeusando o trabalho esse cara, mas ao mesmo tempo parece que se tu pondera tu tá passando pano. Às vezes o cara nem quer entender e é um bosta mesmo, mas aí tu vai fazer o quê? A pessoa precisa entender o erro dela. Mas não é sendo apedrejada que isso vai acontecer.

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