Territórios Ngeros é um projeto que visa dar visibilidade à história do povo negro em Porto Alegre. Em 2015, o Nonada realizou uma série de reportagens sobre alguns pontos da cidade visitados pelo projeto. Agora, o prefeito Nelson Marchezan Jr. anunciou que a continuidade da iniciativa está em avaliação. 

por Manoel José dos Porongos, professor e um dos fundadores do projeto

Depois de superar muitos obstáculos, o Projeto “Territórios Negros: afro-brasileiros em Porto Alegre” passa hoje pela seu maior desafio, que é continuar atendendo estudantes, professores e comunidades de Porto Alegre, da região metropolitana, do interior do estado, de outros estados e até de outros países, mostrando que nossa cidade tem uma população afrodescendente e que essa população desenvolveu e desenvolve relações, práticas e vínculos sociais que definiram e configuram espaços públicos e privados de nossa cidade.

Somos desafiados a continuar promovendo uma política pública de superação do racismo, da discriminação racial e das injustiças que ainda persistem em nossa sociedade, oriundas dos tempos da escravidão. Somos desafiados a continuar afirmando que Porto Alegre é uma cidade multirracial e pluriétnica. Somos desafiados a continuar tratando de temas como o racismo, desconstruindo as suas lógicas perversas no cotidiano escolar. Somos desafiados a perceber que as políticas de reparação e de ação afirmativas são imprescindíveis para que tenhamos uma sociedade brasileira mais justa.

Somos desafiados a ver nossa cidade como um espaço que é compartilhado por diferentes culturas, em territórios específicos e justapostos, e que garantem mesmo a sobrevivência e a manutenção dessas culturas. Somos desafiados a contribuir para que tradições como o carnaval, a religiosidade, os espaços de convivência, entre tantas outras, e a memória viva dessas manifestações afro-brasileiras se mantenham vivas e ativas, reconhecidas e pulsantes. Somos desafiados a desenvolver uma atitude que estimule o reconhecimento das nossas, dos nossos outros e outras, que nos dê o sentido e a vitalidade da alteridade… Somos desafiados a construir políticas públicas dialogando com as comunidades. Enfim, somos desafiados a continuarmos sendo, tendo, praticando o princípio que vem no significado da expressão UBUNTU… eu sou quando todos somos!

A nova administração municipal, levando adiante a lógica do “Estado mínimo” e do desmanche dos órgãos públicos, da negação da diversidade e do não reconhecimento das diferenças, que se condensa na ação e na figura do prefeito Nelson Marchezan Júnior, e através da Companhia Carris Porto Alegrense especificamente, mas também por meio da Secretaria Municipal de Educação e das demais instituições governamentais municipais, quer extinguir o Projeto “Territórios Negros: afro-brasileiros em Porto Alegre”.

Estive na equipe que elaborou e colocou em prática o projeto, a partir de 2008, e participei intensamente e com muita emoção, do momento em que ele se tornou regular, em outubro de 2010, junto com colegas brilhantes, empenhados e dedicadíssimos. Comprometidos que éramos, e ainda somos, com o perfeito funcionamento dos serviços públicos de toda ordem.

Desde então já passaram por essa experiência de conhecimento/reconhecimento/identificação da e com a cidade e sua população negra mais de 50 mil estudantes, professores e cidadãos, mulheres, homens, jovens e crianças que recompuseram e reconfiguraram suas perspectivas em relação às suas próprias vidas. Negros, brancos, indígenas, locais e estrangeiros, que se fortaleceram nas suas falas e ações, na sua estima e no respeito ao olhar para um outro, uma outra, que se fazia vivo, viva bem diante de seus olhos…

Tudo isso ocorreu quando escolas infantis, do ensino fundamental, do ensino médio, universidade com alunos de graduação e pós-gradução, percorreram o trajeto dos territórios negros de nossa cidade no projeto que a atual administração municipal quer extinguir.

Porque não concordamos com o retrocesso, com a negação de nossa diversidade, porque desejamos a democracia, queremos que o Projeto “Territórios Negros: afro-brasileiros em Porto Alegre” seja mantido.

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