Nos momentos de maior consciência coletiva, a chamada arte política ou engajada, ou seja, aquela destinada a refletir sobre questões sociais, costuma retomar o lugar de destaque que reivindica há décadas. É nos períodos em que o protagonismo do povo parece mais necessário devido à falta de representatividade nas esferas de poder que a arte aparece como válvula de escape e como catarse individual. Mas sua maior força está na capacidade de agir como (contra)poder e, mais especificamente, como instrumento de transformação social.

É o que vem ocorrendo nos últimos meses, quando se intensificaram as reivindicações pela saída de Michel Temer do poder, por eleições diretas para a presidência da República e pela manutenção dos direitos trabalhistas. Músicos de todo o país organizam grandes eventos com apoio de partidos políticos da esquerda e de movimentos sociais. No último domingo (11/6), foi a vez de Porto Alegre, que realizou um ato-show no parque da Redenção, convocado pelo coletivo Cultura pela Democracia, com quase 40 atrações musicais.

Arte engajada no Brasil

A preocupação social do artista latinoamericano ganhou força no começo do século XX, com a libertação dos padrões clássicos europeus, mas ainda com inspiração nas vanguardas. Exemplo marcante é o movimento muralista mexicano, cujo expoente é Diego Rivera, com sua busca por uma consciência social, por uma identidade nacional e pela socialização da arte. No Brasil, essa preocupação teve início com artistas visuais como Lívio Abramo, Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti, que procuraram retratar a classe operária e o povo em suas obras, contribuindo para periódicos do Partido Comunista Brasileiro. Surgiram revistas modernistas organizadas por artistas identificados com ideias progressistas, como a Movimento (1935), no Rio de Janeiro, e a Horizonte (1955), aqui no Rio Grande do Sul. Em sua maioria, artistas vindos da elite que buscavam uma aproximação com o povo e criticavam a burguesia da qual saíram.

“Os Operários” (1933), de Tarsila do Amaral

E a arte engajada virou uma constante no cenário cultural brasileiro, alavancada por uma riqueza criativa cujo alicerce é justamente a diversidade do Brasil. Pode-se duvidar do poder de transformação social profunda da arte (Marx, por exemplo, dizia que ela é um dos elementos da luta cultural e ideológica entre as classes, em um papel, portanto, de contra-hegemonia), mas é certo que ela faz refletir, busca o desenvolvimento intelectual individual – e por que não, coletivo?  Na ditadura militar, a resistência foi marcada por um efervescência cultural em um leque de áreas artísticas, muitas censuradas: nas artes visuais, na literatura, no cinema, nas artes cênicas e também na música. No movimento pelas Diretas em 1985, o momento era de libertação da arte, que se livrava das amarras da censura, mas também pelo aperfeiçoamento da democracia.

Ato-show: Cultura pela Democracia

O ato do dia 11 foi marcado também pela representatividade, a começar pelas mestras de cerimônia Gloria Crystal e Lili Fernandes, que apresentaram juntas desde às 11h da manhã até a noite. Entre as apresentações, políticos e líderes de movimentos faziam discursos, e artistas e intelectuais liam poesias engajadas. Artistas da nova geração portoalegrense, como Nani Medeiros e Thiago Ramil, se somaram a nomes como Hique Gomez e Raul Ellwanger, que apresentou sua versão brasileira de “Solo le Pido a Dios”, sucesso de Mercedes Sosa – conhecida como a voz da América Latina. Richard Serraria transformou o funk “Malandramente” em uma crítica a Temer e ainda lembrou do genocídio e invisibilização da cultura kaingang. Ernesto Fagundes evocou o clássico “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores”.

Banca Forte do Norte representou o rap (Foto: Diretas Já)

Não por acaso, Chico Buarque foi o cantor mais parafraseado no ato (como tem sido em outros eventos semelhantes no país). “Deus lhe Pague”, “Roda Viva”, “Vai Passar” e é, claro, “Apesar de Você” foram cantados em coro pelo público, que foi crescendo ao longo daquela tarde ensolarada. A obra de Chico, que já virou um dos símbolos máximos de resistência à ditadura, retorna agora não apenas pela identificação do cantor com a esquerda, mas também pelas músicas críticas a um governo que não dialoga com a população.

Mas muita coisa mudou na arte brasileira desde então. A luta do povo negro por seu protagonismo reflete diretamente na cultura, de modo que os atos em todo o país têm sido puxados principalmente pelo rap e pelo samba, ritmos antes desvalorizados que têm sido reconhecidos cada vez mais como arte. Em Porto Alegre, a cultura negra esteve em foco com as Negras em Canto, Edu Nascimento, Som De Black, Samba do Irajá, Turucutá, todos cantando clássicos do samba. O grupo de rap Banca Forte do Norte transformou aquele canto da praça em um caldeirão, com uma forte intervenção e letras de afronta típicas do gênero. Também teve poesia com o grupo de dança afro Brazil Estrangeiro, que trouxe a ancestralidade e a religiosidade negra. Representatividade que se viu também no público, composto por negros e brancos de todas as idades. Segundo a organização, 30 mil pessoas passaram pelo ato.

Edu Nascimento esteve entre as dezenas de artistas (Foto: Diretas Já)

Outras atrações pareciam improváveis, como o grupo infanto-juvenil Orquestra de Brinquedos, um grupo de Bluegrass (gênero ligado aos homens brancos dos Estados Unidos) e uma banda de jazz, que “está na novela das 19h da Globo” e até soltou algumas frases em inglês para o público. O que acontece é que muitos artistas não têm a política como eixo central de suas obras. Estudiosos da arte engajada como a historiadora brasileira Aracy Amaral explicam que o mais comum é que a política apareça em um momento singular da carreira. Assim, há períodos em que artistas nem sempre engajados vivenciam o desejo e/ou a oportunidade de entrelaçar seu trabalho à realidade social.

Cabe a reflexão sobre o momento que o país vive, a impopularidade de Michel Temer e o papel social não apenas do artista mas sobretudo de sua produção. Afinal, muito se discute sobre a suposta ausência de preocupação estética em muitas obras políticas. Ora, o que significa a ausência de política em obras puramente estéticas diante da realidade brasileira?

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