por Cristiane Marçal

O conteúdo desta reportagem é o ponto de partida de um projeto contemplado pelo edital Fumproarte – Humanidades, de 2016. A proposta é ampliar uma pesquisa iniciada há nove anos  pela jornalista e produtora cultural Cristiane Marçal e publicar o resultado em livro escrito pelo jornalista Jimi Joe e editado por S Lobo. As entrevistas citadas nesta matéria foram realizadas na primeira fase da pesquisa, em 2008. A previsão inicial era que o livro seria publicado no fim de 2018.

O projeto “A música urbana gaúcha através das rádios Continental AM e Ipanema FM” é um dos afetados pela inadimplência da prefeitura de Porto Alegre. Neste momento, o trabalho está paralisado, aguardando a decisão da gestão municipal e acreditando que ainda é possível uma solução que não cancele o projeto.

Foto de capa: comunicador Cascalho em festa originada por seu programa na Continental nos anos 70 (Crédito: Press/reprodução)

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Quem gostava de música nos anos 1970, 1980 e 1990 tinha bem menos opções que hoje para se manter informado sobre o assunto. As possibilidades ficavam em torno de veículos que marcaram época como a revista Bizz, a MTV ou publicações importadas que chegavam de acordo com a boa vontade do dono da banca. Porém, quem morava na grande Porto Alegre nesse período tinha uma fonte a mais de informação. Estamos falando de duas rádios que fugiram do formato convencional (geralmente regrado pelo que é chamado de Top 40), ampliaram suas pautas para além das determinações comerciais e, ironicamente, com o aval de dois grandes grupos de comunicação nacionais – a Globo, no caso da Continental AM; e a Bandeirantes, proprietária da Ipanema FM.

Ambas foram co‐responsáveis pela formação musical e cultural de diferentes gerações entre ouvintes, artistas, jornalistas e outros formadores de opinião cujo trabalho foi diretamente influenciado pela ação de divulgação realizada através dessas emissoras. Nesse período pré-internet, em plena ascensão das grandes gravadoras no Brasil, que determinavam a programação da maioria das rádios, elas ofereciam ao seu público uma rara oferta.

A iniciativa projetou artistas de diferentes gêneros artísticos e gerações como Hermes Aquino, Kleiton e Kledir, José Fogaça, De Falla e Ultramen. Embora o formato de conteúdo veiculado não fosse tão próximo, ambos cumpriram um papel de catalisadores da cena musical de Porto Alegre, e o mais interessante, revezando-se temporalmente (a Continental AM fechou em 1981 e a Ipanema FM abriu em 1980). A atuação desses veículos foi tão singular que, hoje, é possível apontá-los como personagens fundamentais na construção da identidade musical de Porto Alegre.

Continental AM, a filha rebelde da Globo

Carlos Couto na sede da rádio (Foto: Continental/reprodução)

Uma característica que diferenciava a Continental AM das demais rádios do anos 1970 era o perfil contestador. Quando o publicitário gaúcho Frederico Westphalen, conhecido como Judeu, assumiu a direção a convite da Globo, pediu carta branca para gerenciar a rádio, condição aceita pela emissora, que vinha há 8 anos tentando sem sucesso fazer a programação da 1120 deslanchar. A ousadia de enfrentar a ditadura com humor em uma rádio criada em 1971 era festejada pelo movimento esquerdista da época. O deboche aparecia em vinhetas como “Continental, a maior audiência no III exército” (referindo-se ao policiamento 24 horas da censura). A carta branca conquistada por Judeu permitiu que a Rede Globo tivesse uma rádio de oposição à ditadura em plena vigência do AI-5, possibilitando notícias como essa:

“Enquanto os proletras passam fome, o ministro da Agricultura vem julgar boi de latifundiário em Esteio. Ao mesmo tempo, aqui em Porto Alegre, na Redenção, acontece uma cerimônia onde vai ocorrer farta distribuição de latinhas” (referindo-se às notícias daquele dia – a abertura da Expointer e a solenidade de entrega da Medalha do Pacificador, uma das mais altas honrarias do exército, na Redenção). Essa notícia rendeu uma punição à rádio, que ficou fora do ar por três dias.

Outra inovação da Continental foi a linguagem. A fala casual, despojada e cheia de gírias dos locutores contrastava com a postura formal que ainda imperava nas rádios da época. Nem o espaço publicitário escapava das mudanças. As peças veiculadas na Continental eram exclusivas daquela rádio. Cada vez que um anúncio chegava, este era readaptado para a linguagem do veículo. Essa iniciativa colaborou para uma grande identificação e fidelidade dos ouvintes. Nenhuma rádio atingia tão bem o público universitário.

O principal diferencial era a programação musical. O conteúdo era 50% de música brasileira e 50% de música estrangeira (o que, na verdade, era uma lei da época simplesmente descumprida pela maior parte das rádios). O repertório de músicas internacionais contava com exclusividades trazidas pelo Agente 1120, um personagem criado pela equipe da rádio a quem era atribuída a responsabilidade da chegada de álbuns que só seriam lançados no Brasil meses depois. O Agente 1120 era, na verdade, Aldo Caye, comissário de bordo da Varig que aproveitava as viagens do trabalho para trazer os discos.

Como a tecnologia de gravação e reprodução de áudio ainda era muito limitada e cara, dificilmente uma banda desconhecida tinha condições de registrar seu trabalho e oferecer às rádios um material para veiculação das músicas. Para suprir essa necessidade, a rádio disponibilizou um estúdio de locução durante a madrugada para que as bandas gravassem as músicas. Os músicos se espremiam em um espaço estreito planejado para receber apenas uma pessoa, com uma estrutura técnica que se resumia a um microfone, um gravador ampex de dois canais e faziam “uma mixagem sonora com base no espaço físico”, relata o então apresentador Julio Fürst. Como não havia a possibilidade de editar o áudio, a música precisava ser gravada de uma vez só, o que fazia com que as bandas ficassem horas dentro do estúdio, madrugada adentro, para alcançar o resultado esperado.

Junto com a proposta da inserção de música local na programação, vinha também a ideia de promover um festival de música com essas bandas. Antes de iniciar o programa, Fürst visitou, a convite da empresa, o complexo da Lee no Rockfeller Center, em Nova York. Lá descobriu que o programa Lee in Concert promovia shows ao vivo, transmitido pela rádio, como de B.B. King e James Taylor. Com essa referência e a crença no trabalho dos músicos locais, o programa Mr. Lee começou a promover o programa Vivendo a Vida de Lee.

O festival teve quatro edições no Rio Grande do Sul e uma em Curitiba, onde o programa era retransmitido pela Rádio Iguaçu AM. Foi a primeira divulgação em massa do rock local, promovendo o mesmo para o grande público. Na primeira edição, realizada no Cine-teatro Presidente, o público arrombou as saídas de emergência e entrou a força quando percebeu que não conseguiria entrar pela porta da frente. Foram aproximadamente duas mil pessoas, num local com capacidade para mil. Outras duas mil ficaram de fora. Na segunda edição, no auditório Araújo Vianna, a bilheteria contabilizou 5,5 mil pessoas. Mas o recorde aconteceu em Curitiba, com 6,5 mil no Palácio de Cristal. O programa e os concertos acabaram em 1978, com o fim do contrato publicitário com a marca Lee.


Festival Vivendo a Vida de Lee no Araújo Vianna, segunda edição

Na Continental, a veiculação do trabalho das bandas locais surtiu efeito quase imediato, com os ouvintes ligando para a rádio, pedindo para repetir as músicas ou comentando nas ruas. Fürst lembra que as gravações entraram no ar pela primeira vez entre a segunda quinzena de maio e a primeira de junho e o primeiro concerto do Mr. Lee (aquele que juntou duas mil pessoas do lado de dentro e duas mil do lado de fora) aconteceu já em agosto. “Tivemos que chamar a Brigada Militar para fazer um cerco no quarteirão inteiro pra desviar o trânsito”, conta Fürst.

O público dos concertos, aliás, foi uma das poucas maneiras de mensurar a audiência da Continental, que não assinava os serviços do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística, o Ibope, e debochava do serviço com uma vinheta que dizia “1120 – não dá Ibope”.

Ipanema FM e seus militantes

Radio Bandeirantes FM, primórdios da Ipanema no bairro Bom Fim, em 1980 (Foto: Mauro Borba/arquivo pessoal/Rádio no RS)

A liberdade de programação da Ipanema FM abriu espaço para bandas emergentes que, diferentemente do momento tecnológico vivido pela Continental, já tinham condições de entregar fitas demo no estúdio da rádio. A rádio, inicialmente chamada de Bandeirantes FM, nasceu em 1980, num estúdio montado em um casarão da José Bonifácio, no Bom Fim, principal reduto boêmio de Porto Alegre na época.

Sem nenhuma orientação editorial da Bandeirantes e sob a direção de Nilton Fernandes, o dial 99.3 (mais tarde, 94.9) inaugurou uma programação alternativa que dificilmente se ouvia em outras rádios da época. Na locução estavam Nilton Fernando e Mauro Borba apresentando o programa Noite Alta, duas vezes por semana. Depois, juntaram-se ao grupo Beth Portugal (que trabalhou também na Continental) e Eliseu Pacheco.

Com o tempo, a Ipanema se consolidou como representante da cena cultural alternativa de Porto Alegre. Impulsionada pela ascensão do rock no Brasil, além das músicas internacionais que dominavam os veículos da época, a programação da rádio abria espaço para bandas nacionais (como Barão Vermelho, Legião Urbana e Paralamas do Sucesso), músicos gaúchos (Garotos da Rua, Nei Lisboa, Replicantes e Taranatiriça…) e argentinos como Charly García e Fito Paez. Também tinha espaço outros gêneros musicais como a música nativa gaúcha (com programas como o Freqüência nativa e o Enquanto a Chaleira Chia) e horários que incluíam jazz e música erudita.

A repercussão do trabalho da rádio alcançou o ápice em meados dos anos 1980. Kátia Suman relata que a Ipanema chegou a ser segundo lugar no Ibope naquele período. Na época, atenta à cena musical que acontecia à margem do trabalho das gravadoras, a equipe do veículo foi a primeira a divulgar bandas como Legião Urbana e Ira!. Assim como na Continental, os eventos musicais da cidade eram um bom termômetro da audiência. Kátia aponta que o alcance da rádio se tornava visível quando ocorriam episódios como o show do Camisa de Vênus, que lotou o Gigantinho num período em que as músicas da banda só tocavam na Ipanema.

Estúdio da Ipanema (Foto: Mauro Borba/arquivo pessoal/Rádio no RS)

“A Ipanema não tinha ouvintes, tinha militantes”, ironiza Nilton Fernando. O público era tão fiel que, em grandes shows assinados pela concorrência, era comum as vinhetas da rádio concorrente veiculadas no sistema de som de ginásios e teatros serem abafadas pelo público gritando “Ipanema”. Há mais histórias sobre outras declarações de afeto ao trabalho da rádio, como a que foi contada por Mauro Borba no livro Prezados Ouvintes. Um dia, o radialista encontrou um ouvinte que estava à sua espera. Ele estava impressionado com o fato de ter ouvido Jimi Hendrix na rádio, o que seria uma revolução para aquela época. “Pô, cara, vocês estão tocando Jimi Hendrix. Vocês sabem o que isso significa? Bom… é claro que vocês sabem!”. Balançou a cabeça e foi embora.

A fidelidade à rádio se estendia também aos músicos. Uma história emblemática é a do agradecimento público feito por Herbert Vianna. Num show com o Gigantinho lotado, o cantor saudou a Ipanema por ter sido a primeira a tocar Paralamas do Sucesso no Rio Grande do Sul. O problema é que isso aconteceu no meio de um evento promovido pela Atlântida. “Foi a vitória da guerrilha”, define Mauro Borba.

Ao divulgar um movimento cultural latente que já acontecia na capital, mas que não tinha um canal para repassar sua mensagem, ambas as rádios se tornaram porta-vozes de público e artistas que, convencionalmente, não teriam representatividade na mídia se não fosse de uma forma disruptiva. E essa projeção do trabalho musical local foi essencial para os desdobramentos que construíram a cena musical local.

Mercado independente em desenvolvimento

Dedé Ribeiro, que atua como produtora cultural no Rio Grande do Sul desde a década de 1970, faz um balanço do trabalho da Continental. Ela conta que os concertos do Mr. Lee foram os primeiros shows de muitos músicos. “Foi um momento interessante porque ali surgiu o show musical em Porto Alegre”, avalia.

Cartaz de lançamento do EP Rock Garagem em 1984 (Foto: arquivo pessoal de Ivan Zukauskas/Relicário do Rock)

Aos poucos, o mercado independente foi tomando forma e buscando caminhos para sua sustentabilidade. Com a cena cultural efervescente e a cobertura da imprensa da capital, as notícias chegaram no interior do Rio Grande do Sul e, com isso, surgiu a demanda por shows além da região metropolitana. Durante bastante tempo, esse foi um mercado que sustentou várias bandas locais, permitindo que elas vivessem de música mesmo não tendo um reconhecimento nacional.

Na esteira do surgimento desse mercado, veio a consequente profissionalização dos músicos. Se inicialmente as bandas trabalhavam de forma amadora, por opção ou falta de recursos, a possibilidade até então inédita de divulgação massiva de seus trabalhos aumentou também a responsabilidade com o resultado. Dedé destaca que os artistas começaram a produzir suas músicas com mais cuidado, já que a veiculação na rádio ampliava substancialmente o alcance de público.

A mobilização de público gerada pela divulgação abriu espaço para outra forma de financiamento da produção cultural. A pré-venda de discos, no qual o público comprava o disco por antecipação e o dinheiro arrecadado pagava a produção do mesmo, foi um recurso usado para gravar o LP Juntos, de Nelson Coelho de Castro, e o disco Pra Viajar no Cosmos não Precisa de Gasolina, de Nei Lisboa. Uma espécie de primórdios do crowdfunding.

Num período onde os grandes veículos detinham quase todo o poder de distribuição da informação, a projeção das bandas independentes promovida pela Continental e pela Ipanema ajudou a inseri-las no funil das gravadoras e na pauta de outros veículos de comunicação. Na Ipanema, o terceiro lugar no Ibope conquistado em 1985 obrigou as rádios demais concorrentes a ampliar o repertório de suas programação.

O fim do ciclo dos trabalhos

Apesar de já existirem desde o início da década de 70 no Estado – a primeira foi a Itaí, que iniciou suas operações em 1972 – as rádios FM só alcançaram a consolidação, tanto por fatores tecnológicos como por falta de percepção mercadológica, no final dos anos 1970 e início dos anos 1980. E foi exatamente essa consolidação que representou o declínio da Continental AM. Pela qualidade do sinal, aos poucos, a frequência FM foi absorvendo as demandas de conteúdo musical e a AM seguiu com um conteúdo mais jornalístico.

Na contramão desse desenvolvimento, a Continental AM permaneceu nas ondas curtas. Ainda trabalhando com o segmento jovem, ela se vê desfavorecida diante das demais emissoras de mesmo perfil devido à diferença na qualidade de som e o movimento massivo de migração do público-alvo para o FM.

O avanço tecnológico também foi um dos responsáveis pela saída da Ipanema do canal convencional de rádio. A chegada e ascensão da internet reduziu o papel que o veículo cumpria de fonte de informação das novidades na música. A rádio ainda existe online (http://ipanema.uol.com.br/), mas com uma representatividade menor do que no passado.

 

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