O Zine Travessias #2 foi lançado oficialmente em julho de 2016 e agora chega à versão digital para que mais pessoas possam conhecê-lo. O tema dessa edição foi memória, o da primeira edição foi momento definidor. Todo o processo, de chegada ao tema, da apuração, da escrita, da edição e da diagramação demorou mais de um ano. Seguimos em parceria com o selo MÚSCULO, da Anelise de Carli, que diagramou o zine. Aproveitamos esse momento para pedir que cada um dos autores do Zine desse um pequeno relato para compartilhar suas experiências de como foi escrever o seu perfil. A ilustração da capa do post é da artista Lídia Brancher, que também foi a responsável por todas as ilustrações. Segue o Zine abaixo e depois os depoimentos.

 

Priscila Pasko sobre o perfil “Fiandeiras do Passado”

“O psicanalista Jacques Lacan diz que a segunda morte, diferente da biológica, se dá na dimensão simbólica, no apagamento do indivíduo que tem sua memória negada. Dói não ser lembrado. Eu sei, já fui apagada. Desconheço se isso aconteceu pelo meu ego machucado ou pela tristeza em ver meu avô paterno – com quem eu pouco convivia – preso num presente constante. Por isso, quando o Zine Travessias propôs escrever um perfil que tratasse sobre “memória”, fui atrás de uma história que falasse sobre a Doença de Alzheimer. Não foi fácil, quase desisti e mudei de pauta. Os familiares evitam reviver todo o sofrimento que passaram, e com razão. Mas tive a sorte de me oferecerem o maior gesto de confiança que um repórter pode receber: a narração da sua história. Assim, de forma aberta, sincera, desafogada, Rosa e Eli recriaram o passado de Zelindo, pai e esposo, para mim. Quanta honra registrar a memória de quem foi apagando as próprias pegadas aos poucos”.

Rafael Gloria sobre o perfil “Josué, o mineiro que se agigantou”

“Trata-se da história inventada de um minerador chamado Josué que escrevi a partir de vários relatos reais de mineiros que viveram a chamada “época dourada” da produção de carvão no Estado. Em maio publiquei a reportagem “Museu Estadual do Carvão completa trinta anos em compasso de abandono” e, na apuração, obtive acesso a vários documentos e arquivos históricos da época – inclusive aos relatos dos trabalhadores. Era um sistema de vila-operária, em que viviam em condições precárias, gastando o salário com serviços que eram fornecidos pela própria empresa…Resultado, eles acabavam presos lá, sem ter nenhuma perspectiva. Foi lá também, entretanto, que começaram a se sindicalizar e a se unir, a fazer greves para exigir mais direitos. Na década de trinta também começou o movimento da CLT, o direito dos trabalhadores. Então, tentei mostrar nesse perfil como seria um mineiro descobrindo que tem voz e que deve lutar pelos seus direitos. Ainda mais em uma época em que vivemos uma ideia de retrocesso, em que os direitos dos trabalhadores parecem cada vez mais em risco de desaparecerem. Minha ideia, então, foi remontar essa figura do mineiro que parece quase esquecida na história do Rio Grande do Sul”.

Julia Dantas sobre o perfil “Os encarregados de lembrar”

“Eu contava com poucas informações sobre o Seu Paulinho: breves relatos de seus colegas de trabalho, pequenos fatos sobre a sua antiguidade na casa, seu ar de proprietário e suas fugas pelo bairro. Logo descobri que isso talvez fosse tudo que os colegas soubessem. Seu Paulinho tem talento para despachar as pessoas em poucas palavras. Ainda assim, insisti nos longos silêncios para seguir investigando essas coisas tão efêmeras: a memória, a paisagem urbana, a cidade onde nascemos. A Porto Alegre de Seu Paulinho já não existe; a do Museu Joaquim Felizardo muito menos; a minha vai desaparecendo diante dos meus olhos. Seu Paulinho tem uma bisneta, qual vai ser a Porto Alegre que ela vai chamar de sua?”.

Giulia Barão sobre o perfil “Nesse cantar dos versos eu te digo quem sou”

“Sem dúvida foi um daqueles momentos de sintonia/coincidência, porque quando recebi o convite estava no meio da FestiPoa Literária, convivendo com um grupo de poetas de várias partes do Brasil que deu uma baita valorizada no eixo POESIA FALADA nessa edição da festa. Entre eles estava o Elizeu Braga: cantador, poeta, ator, de Porto Velho, Rondônia, que acabou ficando mais dez dias por aqui, durante os quais aproveitou para ministrar oficinas de poesia e criação de livros em várias escolas ocupadas. Acompanhei algumas dessas oficinas, em especial a que ele fez com a gurizada da OcupaIE e que resultou num livro de poemas, canções, fotografias e relatos dos alunos sobre a sua vivência na ocupação. Creio que só pelo registro dessa passagem efêmera, mas potente, do Elizeu por POA já valeria a pena escolhê-lo como perfilado. Mas além disso, durante as nossas conversas surgiu com muita força o aspecto memorialístico: nas cantigas transmitidas pelos mais velhos e que são base de sua poética; na história de sua família, em que a dor fez do esquecimento um paliativo a muito custo superado; nos contos tradicionais da região amazônica; no seu interesse pelas poéticas orais da Idade Média… Elizeu é alguém que revela, por sua simples presença, a raiz das relações entre poesia e memória, poesia e experiência. Escrever sobre ele foi um jeito, então, de agradecer pela poesia que ele nos trouxe do Porto Velho ao Porto Alegre, e de alimentar a curiosidade e o interesse dos leitores por essa dimensão do poético que está além do livro. (Poesia é para ser lida em voz alta ou falada – caso tu tenhas exercitado a memória)”.

João Vicente Ribas sobre o perfil “O desaparecimento meridional da viola e seu retorno no século da diversidade cultural”

“Pensava numa pauta sobre uma pessoa desaparecida para escrever um perfil. Como minha área é a música, acabei sondando casos de artistas de um sucesso só e outros temas menos interessantes. Até que lembrei do historiador Tau Golin e de mais uma das suas cruzadas contra o senso comum. O professor comentou certa vez que a viola era um instrumento importante no Rio Grande do Sul, ligado à experiência missioneira e ao tropeirismo. Mas andou quase desaparecida, até uns anos atrás, quando surgiram artistas como Valdir Verona, expoente violeiro. Estava aí o tema! Então fui investigar junto a pesquisadores de universidades gaúchas e ao mineiro Roberto Corrêa, especialista no assunto. Nesta saga, acabei descobrindo diversos outros instrumentistas aqui no estado, dedicados a reintegrar a viola à nossa música”.

A ilustração da capa do post é da artista Lídia Brancher, que também foi a responsável por todas as ilustrações.

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