O momento é de otimismo – pelo menos na arte. Estamos presenciando um raro momento de profundas transformações sociais nas produções artísticas, alavancado pelos movimentos sociais que buscam ocupar espaços que sempre lhes foram injustamente negados. Desde que o feminismo se tornou pop nessa década de 2010, vemos filmes que se tornaram ícones por subverterem a lógica hollywoodiana que objetifica e simplifica as personagens femininas, a exemplo de Frozen, Star Wars VII (resenha), Mad Max: Estrada da Fúria e Mulher-Maravilha (resenha).

Sofia Coppola vem há tempos sendo um nome de resistência no patriarcado de Hollywood, lançando obras como Encontros e Desencontros e As Virgens Suicidas, que trazem as mulheres no centro da narrativa. Seu novo lançamento, O Estranho Que Nós Amamos, vem no mesmo sentido.

Vencedora do prêmio de melhor Direção em Cannes esse ano, Sofia pretendia lançar sua própria perspectiva acerca do livro homônimo de Thomas P. Cullinan, já consagrado nas telonas pelo cult de Don Siegel, lançado em 1971, que trazia o único homem como protagonista. No sul dos Estados Unidos, durante a Guerra Civil, um militar da União, John McBurney, é resgatado por uma das alunas da escola da Sra. Martha Farnsworth após ficar gravemente ferido.  A partir daí, acompanhamos as interações entre o soldado e as mulheres da casa, (com destaque para as atuações de Nicole Kidman, Kirsten Dunst e Elle Fanning), que passam da desconfiança à intimidade.

Em entrevista, a diretora comentou:

Nunca pensei em fazer um remake nem em recontar uma história já rodada antes, mas, como disse, sou movida pelo desejo do novo, de me reinventar, e não penso muito sobre o que a minha filmografia anterior estabeleceu esteticamente. (…) Meu interesse no livro de Cullinan era poder explorar aquela história sombria de tensão de forças e de poderes sob uma ótica feminina, buscando entender o lugar da mulher naquela América em guerra”.

O filme cumpre com essas intenções, na medida em que o conjunto de personagenss mulheres apresentam diversas facetas frente a John. O único homem na trama pode servir como representação daquilo que nos tira da zona de conforto, que traz perigo, mistério e desejo, e é catártico acompanhar como elas reagem individualmente ao estranho e como os conflitos dão origem à sororidade. Em roteiro assinado por ela mesma, Sofia optou por excluir a rivalidade entre as mulheres, algo que já sabemos que é um sentimento criado e incentivado pelo patriarcado.

A diretora, no entanto, falhou absurdamente ao excluir a única personagem negra da história. Escravizada pela família de Miss Martha, no primeiro filme vemos uma mulher empoderada e expressiva, que estabeleceu, com o soldado, uma relação diferente das demais mulheres. A exclusão dessa personagem acabou achatando a narrativa, cujo contexto escravagista é fundamental para a história. Além disso, o argumento da diretora de apresentar uma ótica feminina enfraquece com essa omissão. Que lógica feminina é essa que considera que apenas as brancas são mulheres?

Enquanto o caminho mais viável nessa busca por protagonismo e autonomia continua sendo o das margens (alguém aí conhece os excelentes Afroflix e Vídeo nas Aldeias, por exemplo?), não podemos almejar nada menos que o centro. O feminismo interseccional poderia ser um poderoso instrumento aplicado às produções culturais, não apenas na questão política, mas também como elemento que enriquece e multidimensiona as narrativas ficcionais.  O site Geledés explica:

Interseccionalidade (termo da norte-americana Kimberlé Crenshaw, 1989) “é a visão de que as mulheres experimentam a opressão em configurações variadas e em diferentes graus de intensidade. Padrões culturais de opressão não só estão interligados, mas também estão unidos e influenciados pelos sistemas intersecionais da sociedade. Exemplos disso incluem: raça, gênero, classe, capacidades físicas/mentais e etnia.”

É hora de dar um passo adiante. É hora de as mulheres brancas cineastas de Hollywood pararem de reproduzir os mesmos privilégios que as deixaram na sombra durante décadas de cinema. Embora uma representatividade real só seja alcançada quando ocorrer também atrás das câmeras, isso não impede que todas e todos contribuam para uma lógica cultural que busque a igualdade, ainda que como um horizonte.

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