por Iarema Soares

Fotos: Joseph Matheus/Downtown 1037

 

“Vai, senta firme! Vai, senta firme!”. Foi aos gritos da track “Te Amo Disgraça”, música mais popular do álbum Esú, que Baco Exu do Blues foi recebido no último dia 23 aqui na capital gaúcha. O pontapé inicial para o lançamento desse trabalho, que entrou em turnê pelo Brasil, é resultado do single “Sulicídio”, lançado em 2016, em parceria com Diomedes Chinaski. A junção entre as forças da Bahia e do Recife teve como consequência um trap que versa, com rimas precisas, a exigência de respeito e espaço à produção de MC’s nordestinos contra a supremacia do eixo Rio-São Paulo dentro do rap nacional, mas que peca ao cair em uma frase transfóbica.

Baco busca a intersecção entre diversos elementos, ele cria pontes de conexão e a união entre divindades. Isso pode ser observado no nome artístico escolhido por ele que evidencia o caráter sincretista do rapper. Baco, deus grego do vinho, da festa, do prazer e dos excessos, Exú, orixá que apresenta características muito humanas no que tange os conflitos internos, contradições e dualidades, mas que, também, abre caminhos.  

Com apenas 21 anos, o filho de uma professora de literatura busca em Jorge Amado referências para suas tracks. Além disso, ele apresenta a métrica perfeita de poetas e prosadores e um estilo maduro com letras que falam sobre suicídio como na canção “En Tu Mira” Onde eu guardei o cano?/ Hoje, ele encosta no meu ouvido e fala “te amo”/ Porra, eu te amo/ Isso é um pedido de socorro/ Você está aplaudindo/ Eu tô me matando, porra. Outras que exemplificam a dualidade que permeia a narrativa de todo o álbum como em Esú: Sinto que os deuses têm medo de mim/ Medo de mim/ Metade homem, metade Deus/ E os dois sentem medo de mim.

Entre referências de literatura praieira, pintura surrealista, Chico Science e samples inspirados na cultura nordestina e no continente africano, o rapper mostra que o percurso incerto e repleto de altos e baixos, com picos de exaltação do negro e de depressão desse personagem criado por ele, também consegue falar de amor. Sem cerimônias ou construções rebuscadas, a letra de “Te amo, disgraça” escancara a relação de um casal de maneira nada idealizada. É a realidade de um gostar cru, de atos singelos e que não vive só de bons momentos, que faz o refrão não sair da cabeça. Bebendo vinho/ Quebrando as taça/ Fudendo por toda casa/ Se eu divido o maço, eu te amo disgraça/ Te amo, disgraça

Não entra na roda punk sem pedir pra Exu

A apresentação de Baco foi antecedida por artistas locais. O grupo EmFrenteRap, de Gramado, formado por Cunha, Lelo Santos e o Dj Escobar apresentou seu trap ao público e Madyer Fraga, de Porto Alegre, surgiu na sequência com suas composições. Após certo atraso, o rapper baiano subiu ao palco e abriu o show com a primeira track do álbum, a música “Intro” conta com a participação do KL Jay, dos Racionais MC’s. Ele seguiu a sequência do disco e cantou “Abre Caminho” e “Oração à vitória”.

Baco se apresentou no Cucko em Porto Alegre (Foto: Joseph Matheus/Downtown 1037

A essa altura, o público já tinha se deixado levar pelos beats intensos, pelas rimas densas e pela loucura do próprio Baco que, em alguns momentos, esquecia a letra e perdia o tempo de entrada das canções. A sensação é de que o próprio deus da festa e dos excessos estava em palco cantando não para o público, mas, sim com o público, fazendo parte da plateia e se misturando a ela. Isso tornou-se palpável quando, durante o quebra-taça ou bate-cabeça (roda punk), o rapper desceu do palco e cantou entre os fãs.

Após emendar alguns singles do passado como “Disgraça do ano” e “O culto” e deixar o Cucko em ebulição, o artista voltou a apresentar hits do álbum de estreia mas deixou de fora do setlist “Senhor do Bom Fim” e uma das melhores canções desse álbum, “Imortais e Fatais”. Essa track é a libertação desse personagem errante. Ao mesmo tempo em que exalta o negro, evidencia a fragilidade humana. Baco é como o personagem do álbum, mundano, consciente de sua vulnerabilidade, da sua inconstância e que tenta expurgar as opressões e tensões cotidianas que afligem a negritude brasileira por meio do ritmo e da poesia. Quando um homem negro nordestino cria sua própria narrativa e se faz ouvir, avançamos uma casa no que tange a representatividade e a emancipação.

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