Fotos: Juliana Alabarse/ PMPA

No feriado tradicionalista do Dia do Gaúcho, havia gente de todas as idades e estilos no Theatro São Pedro para prestigiar o show da cantora e compositora carioca Alice Caymmi, que estava prestes a apresentar o show Louca dentro da programação do Porto Alegre em Cena, um dos mais importantes festivais de teatro do Brasil. Influenciada por vários estilos musicais, a neta de Dorival Caymmi reinventa canções da MPB, sucessos dos anos 1990 e hits atuais utilizando de ritmos contemporâneos, como o pop, o rap e o funk. Eu estava na expectativa de que músicas ela ia interpretar e de como ia estar vestida, já que a artista gosta de montar looks extravagantes e modernos.

Antes de começar o espetáculo, a presidente do Geempa Esther Grossi fez uma declaração sobre o espetáculo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, que foi proibida em Jundiaí, interior de São Paulo, e que quase foi censurada na capital gaúcha: “Todo tipo de amor vale a pena”, encerrou o discurso, sob fortes aplausos.

Alice entra em cena, às gargalhadas. Qual era o visual? Maiô decotado, meia arrastão, casaco brilhoso, botas roxas e grandes brincos com o símbolo do ying yang – a maquiagem era surpreendentemente básica. Ela começou entoando versos da música “Meu Recado” (parceria sua com o hitmaker Michael Sullivan), acompanhada apenas de poucos efeitos eletrônicos. Logo depois cantou “Iansã”, música originalmente interpretada por Maria Bethânia que inspirou o nome do seu último disco, Rainha dos Raios (2014). O que chamou atenção foi o fato de a banda ser composta apenas por percussões (Felipe D’Lelis, Carlinhos Rufino e Pedro Amaro) e sintetizadores (Lucas Paiva). Aliado à voz superpotente de Alice, o som dentro do teatro era impactante.

A banda era composta apenas por voz, sintetizador e percussões (Foto: Juliana Alabarse/ PMPA)

Após interpretar Björk – de quem é fã -, Caymmi cantou “Sozinha”, música inédita que, segundo ela, estará no seu próximo disco (Sou sozinha/ sou sozinha sim/ eu mesmo faço par comigo). De autoria da cantora e dos produtores Arthur Gomes e Rodrigo Gorky, essa é uma das exceções entre o repertório de Alice, que já confessou em entrevista que se sente mais confortável no papel de intérprete.

E isso fica muito nítido em seu show, pois a música em seguida foi a versão de “Sou Rebelde”, sucesso nos anos 80 da cantora Lilian, em um formato repaginado: num tom mais dramático, entre o pop e o brega. Aliás, a grande sacada de Alice é rearranjar essas músicas já tão conhecidas pelo público.

Depois do samba autoral “Sangria”, veio “Princesa”, música de Mc Marcinho, executada com fortes tambores e lembrando muito os ritmos da Bahia. Logo em seguida, veio “Baile da Favela” em inglês, me surpreendendo novamente. Com vários funks em sequência, Alice justificou o repertório: falou sobre os conflitos nas favelas do Rio de Janeiro. “Tem gente morrendo do nosso ladinho, quem tá morrendo é quem faz essas músicas”, declarou. Até que veio a hora do axé, com as famosas “I Miss Her” e “Deusa do amor”, do Olodum. Logo após, a cantora partiu em defesa dos dois gêneros musicais.

Alice cantou vários funks e falou sobre os conflitos nas favelas do Rio de Janeiro (Foto: Juliana Alabarse/ PMPA)

A última música antes do bis, “Louca”, é uma versão da cantora mexicana Thalia (“Loca”) que conta com elementos de rap e pop, o que fez a plateia levantar de vez e dançar. Alice mal saiu do palco e já voltou para cantar mais. A canção que veio foi o sucesso “Tudo o que for leve” – de seu primeiro disco, autointitulado (2012) – e resgatou o axé novamente com “Beleza Rara”, um dos hits da Banda Eva nos anos 1990, homenageando Ivete Sangalo. No segundo e último bis, Alice atendeu ao pedido da plateia e cantou uma que não estava no setlist: a importante “Homem”, do Caetano Veloso (Não tenho inveja da maternidade/ Nem da lactação/ Não tenho inveja da adiposidade/ Nem da menstruação/ Só tenho inveja da longevidade/ E dos orgasmos múltiplos), cuja versão totalmente repaginada – que lembra o trap – ganhou clipe provocativo que conta com mulheres trans nuas.

A única coisa de que senti falta no show inteiro foi da conhecida “Como Vês”, que fez parte da trilha sonora da série da TV Globo Felizes para sempre?, exibida em 2015, e da clássica “Meu Mundo Caiu”, sucesso na voz de Maysa. Neta de Dorival, Sobrinha de Nana e filha de Danilo, Alice Caymmi herda o talento da família, mas não se prende ao sobrenome. Além de hilária, extrovertida e com samba no pé, a cantora faz combinações entre ritmos e canções antes inimagináveis e transforma sua arte numa unidade que pode ser denominada como pura e simplesmente música brasileira.

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments