Imagem: obra de Nino Cais

por Afonso Medeiros, Doutor em Comunicação e Semiótica e professor da Universidade Federal do Pará*

Em cartaz desde 14 de agosto no Santander Cultural de Porto Alegre, a exposição Queermuseu – cartografias da diferença na arte brasileira foi fechada pela própria instituição que a promove um mês antes de seu encerramento. Com curadoria de Gaudêncio Fidelis, a mostra reunia trabalhos de 85 artistas, entre nomes consagrados (como Lygia Clark, Leonilson e Adriana Varejão) e artistas marginalizados pelo mainstream do circuito das commodities culturais.

Assumidamente pensada para por em discussão questões sobre o corpo, o gênero, a sexualidade e a identidade (particularmente dentro de uma perspectiva lgbt), a mostra foi alvo de debates virulentos nas redes sociais um mês depois de sua abertura por, segundo os inspetores do fiofó alheio, atentarem contra “a moral e os bons costumes” – leia-se: afrontarem “valores cristãos” e exporem cenas de pedofilia e zoofilia.

Infelizmente, essa comoção das “pessoas de bem” que, de um momento para o outro assumem o papel de críticos, teóricos e historiadores da arte pós-especializados em qualquer merda, não é novidade. Nem na história antiga e nem na história recente da arte.

As retrospectivas da obra de Mapplethorpe no início dos anos 1990 já causaram virulência inclusive no Senado estadunidense – e, pasmem, uma delas passou incólume por Sampa nessa mesma década. Desde então, muitas exposições com obras explícitas de sexo/sexualidade passaram a mostrar tais obras em dark rooms, com avisos/advertências nas portas – verifiquei essa prática na exposição de Mapplethorpe há quatro anos e de Jeff Koons há dois anos, ambas em Paris. Um cartaz da grande retrospectiva do pintor renascentista Lucas Cranach foi retirado do metrô londrino em 2008 por, supostamente, ser “pornográfico” (e se tratava de uma pudica vênus nua pra lá de quatrocentona).

Voltando um pouco mais no tempo, é bem conhecida a prática nazista de “condecorar” alguns artistas como produtores de “arte degenerada” e queimar suas obras em praça pública, pelos mesmos motivos alegados pelos “críticos” das redes sociais: pornografia, atentado à moral e avacalhação dos nobres valores cristãos.

Retrocedendo ainda mais, não custa lembrar que o “David” de Michelangelo foi apedrejado quando exposto em praça pública; que a “Venus de Urbino” de Tiziano foi considerada a imagem mais indecente do Ocidente por mais de trezentos anos; que Paolo Veronese teve que encarar um processo diante do tribunal da Inquisição por “interpretar licenciosamente as sagradas escrituras”; que Goya também sofreu um processo da Inquisição espanhola por causa de “La Maja desnuda”; que “A origem do mundo” de Courbet só passou a fazer parte de um acervo público (Museu D’Orsay) mais de 100 anos após sua criação. Agora, imaginem se esses artistas tivessem recuado diante desses ataques moralistas… Muito do que os tais críticos pudicos consideram como “grande arte” simplesmente não existiria.

A Venus de Urbino, de Ticiano (1538)

Mas a questão está latente também no Brasil. A reprodução de “A origem do mundo” foi retirada do site da Academia Brasileira de Letras poucos anos atrás. Aqui mesmo em Santa Maria de Belém do Grão-Pará, duas obras de Picasso foram censuradas numa exposição que tratava do “erotismo” na obra do pintor espanhol. E mesmo artistas brasileiros já foram (e são) alvos dessas sandices – que o diga Márcia X, Yuri Firmeza e tantos outros artistas contemporâneos. Em todos esses casos, a alegação dos mesmos motivos: “atentado ao pudor, à moral e aos bons costumes”, “deseducação das nossas crianças”, “perdição”, “escândalo”, “pornografia”, “heresia”… O que espanta é que museus e instituições culturais cedam a esse tipo de argumentação!

Portanto, não estamos lidando com nenhuma novidade. A arte e os artistas sempre enfrentaram os retrógrados, os conservadores e os pudicos hipócritas de plantão – quem nunca gozou com imagens explícitas do sexo e da sexualidade, que atire a primeira pedra! O que espanta é que, em meio a essa “comoção” os retrógrados embutem a concepção de que a “verdadeira” arte eleva, transcende, conforta, nos põe em contato com o numinoso, se torna um “alívio” ou expurgo das durezas da vida.

Respeitável público: arte não é religião, não exige reza e nem tem igreja. Pode propiciar, sim, uma suspensão momentânea do comezinho humano, mas comumente provoca, confronta, questiona e põe o dedo na ferida em tudo aquilo que é humano, demasiado humano.

Obra de Márcia X censurada no CCBB do RJ (2006)

Recentemente, eu e Márcio Lins vimos uma exposição sobre “Maria” em Utrecht (Holanda). A curadoria nos ofereceu uma leitura da mãe de Jesus mais abrangente, como uma das muitas figurações da maternidade, da fecundação e do feminino e, por isso mesmo, misturou anacronicamente à imageria artística mariana uma série de ícones de outras deusas, incluindo a nossa tão conhecida Yemanjá. Para sublinhar ainda mais certas questões embutidas na mitologia mariana, expôs-se também obras de artistas mulheres contemporâneas que trabalham com/sobre a condição feminina no presente. Dentre elas, a obra “Virgin of Mercy” (2005) de Elisabet Stienstra dá o que pensar: uma escultura em tamanho natural de uma mulher púbere nua, com a vagina não só à mostra, mas clara e realisticamente evidenciada. O que aquela escultura estava fazendo numa exposição dedicada à figuração mitificada da “mãe de Deus”? Estava exatamente ali para nos fazer pensar sobre o mito da virgindade, da docilidade e da submissão. Estava ali para nos fazer pensar sobre a construção machista (historicamente constituída) sobre o papel da mulher na sociedade. Considerando que a exposição foi montada num convento-museu, o nível do discurso simbólico tornou-se ainda mais palpável e, a propósito, a postagem da obra de Stienstra aqui no Facebook rendeu três dias de suspensão ao Márcio.

Muitos dos “novos críticos de arte” salientaram que as obras expostas no Santander Cultural não deveriam estar num espaço público e eu bem sei (porque pesquiso o tema há anos) que a exposição do corpo, do sexo e da sexualidade acaba recaindo na querela entre público e privado. Trata-se de uma falsa questão, muito de acordo com a hipócrita moralidade da sociedade ocidental. Templos indianos exibem casais em enlevos carnais explícitos. Muitos dos mais belos exemplares da arte oriental na arquitetura, na pintura, na escultura e na gravura mostram casais (inclusive homossexuais) de humanos e animais em divina fornicação. Para não irmos tão longe, bastaria lembrarmos da pintura em vasos gregos ou do nosso carnaval com corpos deliciosa e sedutoramente desnudos ou corpos de homens e de mulheres travestidos. E tudo isso à vista de todos. E nem vou falar da erotização precoce de nossas crianças promovidas pela publicidade, pela televisão e pelas próprias famílias que consomem acriticamente toda a parafernália da indústria cultural.

Ora, se o mais comum dos mortais neste pedaço do planeta – onde “não existe pecado do lado de baixo do Equador” –, pode expor suas carnalidade e suas fantasias sexuais publicamente (graças a Deus, mesmo quando lhe convém), porque o artista não pode? “Santa hipocrisia”, diria aquele antigo namorado do Batman. Não passa pela cabeça desses “críticos” que o artista pode e deve tratar de todas essas questões?

Se as senhoras e os senhores inspetores do cu alheio não querem que seus filhos vejam tais “perversões”, não levem seus pequerruchos aos museus e à Capela Sistina! Museu não é playground e muito menos igreja. Arte não é só evasão da realidade, entretenimento ou “diversão sadia”. Arte “de verdade” nos desestabiliza, nos confronta, nos questiona e, num jogo de espelhamentos, nos pergunta sempre: Por que isso te incomoda?

Não são os artistas que devem ser silenciados, senhoras e senhores! Observem-se nas obras deles para, a partir de então, se perguntarem sobre os abismos de sua própria humanidade repressivamente silenciada.

Mas isso já é pedir muito numa sociedade que não consegue nem perceber as profundezas da metáfora, do poético e do humano ou que, cedendo a um analfabetismo visual constrangedor, não consegue ler uma imagem além do denotativo e do literal.

E, finalmente, um adendo histórico para os que tiveram faniquitos sem nem mesmo terem visto a exposição e foram encerrar suas contas no tal Banco: a “grande arte” (cheia de saliências) que vocês tanto admiram foi patrocinada, em grande parte, pelos banqueiros e pelo clero… Há 500 anos!
Por essas e outras, deixo aí embaixo o sorriso maroto de Madame Louise…

Tristes país. Tristes trópicos.

Louise Bourgeois, retratada por Robert Mapplethorpe

*Texto originalmente publicado no Facebook.

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