Maçambique de Osório (Foto: Francisco Cadaval/Gema)

Morador da aldeia Tekoa Guaviraty Porã, Vherá Poty tenta explicar em poucas palavras a complexidade da música de seu povo mbya-guarani: “Cada criança tem sua própria melodia, que a gente chama de ‘som da vida’. Não chamamos de música, mas sim de conselhos ou palavras entoadas”. A declaração é só uma parte do extenso conteúdo disponibilizado pelo Projeto Gema, um trabalho de pesquisa e documentação pelos rincões do estado do Rio Grande do Sul, em busca da diversidade cultural gaúcha invisibilizada pela hegemonia da narrativa ligada ao tradicionalismo. O conteúdo, em vídeos, fotografias, textos e áudios, estão disponíveis gratuitamente na plataforma, com licença livre para compartilhamento.

O maior destaque é a temporada de 10 documentários em curta-metragem, cada um com mestres e representantes de diferentes ritmos da música popular produzida no Rio Grande do Sul. Logo no primeiro vídeo, descobrimos, por exemplo, que o chamamé, um dos ritmos mais conhecidos da música gaúcha, é na verdade uma mescla da música guarani, como explica Vherá.

“Buscamos ir além daquilo que um dia se definiu como a verdadeira música gaúcha. Definição pautada sob uma ótica unilateral e tendenciosa. A música do Rio Grande do Sul sempre foi mais brasileira do que se imagina. Seja pelas influências do rádio ou pela influência daqueles que desbravaram outras ‘ondas’ e por aqui se chegaram”, explica o texto de apresentação, assinado por Lucas Luz, idealizador do projeto.

Nessa travessia em busca dos saberes da cultura popular do Rio Grande do Sul, a equipe chegou, por exemplo, a Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai. No frio chuvoso e melancólico de julho, eles encontraram, na comunidade quilombola de Ibicuí da Armada, um movimento de resistência musical. Trata-se do Regional de Ibicuí da Armada, um grupo informal que anima os bailes da comunidade, composto por uma junção peculiar de instrumentos: a gaita, que apesar de ser atribuída como o eixo da música tradicionalista do estado é fundamental para outras expressões, como o forró; a maraca, que se difundiu da cultura indígena para a música latino-americana de forma mais ampla; e o pandeiro, o surdo, ambos do samba.

A Regional de Ibicuí na comunidade quilombola (Foto: Lucas Luz/Gema)

Quem fala em nome do grupo é o Nilton Vaqueiro, explicando como oralidade e a ancestralidade o fizeram músico. “Parentes do meu pai já cantavam, tocavam violão e gaita. Os negros gostavam da música de CTG, mas os brancos não deixavam eles entrar, então eles mesmos formaram um pra eles. Eu mesmo já fui barrado em CTG”, diz.

No Gema, há desde novas descobertas no imaginário da cultura gaúcha, como Bonitinho, músico de Itaqui que mistura o bugio (ritmo originário dos kaingang) com samba, tango e jazz, até o resgate de nomes como Adelar Bertussi. Outro destaques é o maçambique de Osório, uma congada típica do estado oriunda de comunidades quilombos do litoral norte do RS, tradição repassada na família onde o protagonismo feminino é marcante.

Percebe-se, em alguns episódios, a influência do samba, seja na presença de alguns instrumentos, seja como ritmo de referência nas composições. E é impossível falar nas composições dos músicos entrevistados sem falar de Mestre Paraquedas. Sambista, se criou no Quilombo do Areal da Baronesa, em Porto Alegre, vivenciou o auge das tribos carnavalescas na cidade, passou pela censura na época da ditadura e ainda hoje, já senhor de idade e griô, tem uma voz que encanta. No episódio, ele mostra algumas de suas músicas, muitas delas de forte teor político, o que talvez explique sua ausência nas representações culturais e jornalísticas sobre a cultura porto-alegrense.

“Eu canto a vida”, ele diz, antes de soltar:

quem é do morro
a coisa é bem diferente
há quem deve e quem não deve tbm
negro e pobre por certo é marginal
leva em cana e caga esse nego a pau

mas onde tá a liberdade dessa tal democracia
leis que protegem quem tem dinheiro e mordomia
pobre Zé, não tem direito e valor
vive reverenciando o “muito obrigado, doutor”

“Nós aqui no Rio Grande do Sul somos sambistas, e sambistas de raiz. Em 1943, quando começou a se destacar a mídia do rádio aqui, eles queriam nos incurtir uma música que a negra não queria saber, como ‘Adeus, Mariana'”, relembra, em uma das passagens que apontam Mestre Paraquedas como conhecedor e detalhista da história de Porto Alegre. De fato, Paraquedas é como um bastião do samba no estado, e tem forte opinião crítica contra um dos temas mais silenciados em relação ao carnaval: a transferência das escolas de carnaval, formadas pela população negra, das ruas da cidade para o sambódromo, com a consequente volta dos blocos de rua majoritariamente brancos para as regiões centrais.

Há um mundo a se descobrir mergulhando nos episódios. E, como os próprios pesquisadores reconhecem, há ainda muito mais a se explorar. “Em Gema, tentamos o máximo possível penetrar o nosso estado de forma profunda. Profundidade essa que facilmente se descobre rasa, sendo apenas um fio de uma superfície que encobre ainda muitos mistérios”, explica Lucas. Uma das lacunas se dá na ausência total de protagonistas mulheres. Lucas responde: “Não ter uma protagonista feminina talvez seja até sintomática nesta perspetiva do universo cultural do qual estamos falando. Poderíamos ter colocado algumas mulheres para serem protagonistas, mas talvez elas não suprissem uma busca, principalmente de conteúdo, que estávamos propondo”. Ele nos cita ainda alguns mulheres que “só fizeram os vídeos serem possíveis porque estavam no comando”: Rosane, produtora do Bonitinho; Francisca Dias, filha da então Rainha Ginga do Maçambique de Osório, Dona Severina, e hoje Rainha; Maria Leci Vaqueiro, presidente da associação do Quilombo do Ibicuí da Armada.

Atualmente, a equipe se prepara para captar recursos para uma próxima temporada, ciente de que há muito mais caminhos nessa travessia pela verdadeira música feita no Rio Grande do Sul.

 

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