Fotos: Evandro Teixeira/Reprodução

O que ocorre quando um acontecimento traumático histórico é silenciado? É preciso problematizar a memória como algo inerente ao processo de construção de uma identidade própria, principalmente no período da ditadura militar brasileira (1964-1985). Sabe-se que o trabalho jornalístico é um cristalizador de memórias, logo, controlar a informação e a construção histórica também é uma questão de poder. No período do regime militar brasileiro, muitos jornais foram silenciados ou censurados pelos Departamentos de Controle de Informação e Propaganda. A maioria dos periódicos da chamada grande mídia, como a Folha de São Paulo e o Estado de são Paulo, no começo apoiou o golpe dos militares, inclusive, em grandes matérias em tom de complacência. Conforme a ditadura foi avançando e com a insistência dos militares de se perpetuar no poder, o tom de crítica foi aumentando – assim como a censura. Neste sentido, muitos acontecimentos eram ignorados pelos “jornalões”, devido à existência de censores nas redações.

Na mesma época, entretanto, também ganhava força uma espécie de reação: a chamada imprensa alternativa, ou imprensa nanica. O pesquisador Bernardo Kucinski em seu livro Jornalistas e Revolucionários catalogou cerca de 150 publicações que existiram no período militar e que tinham como comum característica a ideia de redemocratização, a ideia do fim ao regime militar. A maioria delas tratava de assuntos que a grande mídia não explorava, às vezes com ironia e humor, para driblar a censura – assim como a música popular brasileira fazia no período. Talvez o exemplo mais conhecido nacionalmente seja O Pasquim, que inspirou muitos outros veículos e jornalistas a produzirem um conteúdo autoral e diverso no jornalismo.

O Coojornal é um desses importantes veículos e tem uma trajetória diferente no sentido de que se originou a partir da experiência da primeira Cooperativa dos Jornalistas, que foi fundada em Porto Alegre em 1974. Um ano depois, eles começaram a editar o que era chamado de Boletim Coojornal que circulava em faculdades de comunicação, jornais, agências de jornalismo e de publicidade. A ideia dos cooperativados sempre foi a de editar um jornal próprio, o “jornal dos jornalistas”, para que pudessem realmente ser livres nas escolhas das pautas e assim driblar a censura e o controle de informação. Em 1976, eles conseguiram lançar o Coojornal agora em formato mensal e com uma circulação maior, chegando a alcançar o nível nacional em diversos momentos. Com reportagens que apresentavam documentos oficiais de guerrilhas, torturas, e perseguição política, o periódico acabou chamando a atenção dos censores e foi sendo boicotado pelos seus anunciantes. Já perto do fim, quatro dos seus jornalistas foram presos devido a uma matéria em que publicavam documentos secretos da ditadura militar. Chegou a sua última edição em 1983.

Neste ponto, vamos refletir à luz da significação. Conforme o texto de Kathery Woodward em Identidade e Diferença: uma introdução teórica e conceitual todas as práticas de significação que produzem significados envolvem relações de poder, incluindo o poder para definir o que é incluído e o que é excluído. Sabe-se que o Brasil nunca lidou muito bem com os seus fantasmas e, consequentemente, com as suas memórias. Os arquivos da ditadura militar ainda não foram liberados ao público. Muitos políticos acreditam que não é mais necessária a inclusão da matéria de História nos currículos das escolas. Generais são exaltados nas redes sociais, e torturadores ganham espaços em colunas de opinião em grandes jornais, em que defendem uma possível nova intervenção militar. Acredito que todos esses exemplos passam por uma questão política de criação de uma memória, ou melhor, de abafamento de uma memória nacional, pois a memória seletiva também é um ato político.

(Foto: Evandro Teixeira/Reprodução)

Muitas dessas discussões e revisões são atuais. Passados um pouco mais de trinta anos, percebe-se que mensários alternativos como o Coojornal ajudaram a criar uma memória histórica ao mesmo tempo em que se tentava ao máximo silenciá-los. Ler essas matérias atualmente é também reconstituir essa fase do Brasil e, por conseguinte, problematizar uma questão que passa pela identidade. Por exemplo, é de praxe muitas vezes escutar que não houve choque, guerrilhas, ou disputa física na maioria das mudanças políticas do Brasil, que o brasileiro é um povo acostumado. Entretanto, a história e os registros principalmente nesses jornais mostram toda a resistência que aconteceu contra a ditadura. Stuart Hall discute isso no texto “Quem precisa da Identidade?”, quando aborda que as identidades são construídas por meio da diferença e não fora dela e que isso implica o reconhecimento perturbador de que é apenas por meio da relação com o Outro, com precisamente aquilo que falta, com aquilo que tem sido chamado de seu exterior constitutivo que o significado positivo de qualquer termo – e assim, sua identidade – pode ser construído.

O Brasil, como um estado-nação, precisa reconhecer os seus fantasmas, os seus medos, o que lhe perturba, o que está escondido em seu porão para reconfigurar e ressignificar essa memória coletiva e compartilhada de uma época crucial. Eni Orlandi, no seu texto Maio de 1968: Os silêncios da memória, faz uma bela reflexão sobre os silenciamentos do período da ditadura militar, em um trecho afirma que “O Brasil é um país que tortura dissidentes políticos, faz parte da nossa memória e de nossos gestos políticos e que isso ainda não tem sua explicação política, logo, está fora da memória, de significado”. Para ela, sentidos possíveis historicamente viáveis foram politicamente tornando-se inviáveis, principalmente a partir da censura e da força. A liberdade se individualizou e se estabeleceu como base do discurso neoliberal. “Essa liberdade agora é individualizada e pode ser reivindicada até pelos nazistas, que em nome dela, exigem o direito de usar suástica”, diz. Tudo que é uma ruptura ao discurso neoliberal e vazio historicamente devido a essa falta de memória tem dificuldade de significar-se ou é absorvido por ele.

Nesse sentido, a identidade tem se destacado como uma questão central também nas discussões contemporâneas, no contexto das reconstruções das identidades nacionais e étnicas e da emergência de novos movimentos sociais, calcados em questões de gênero, de povos, e de recuperação histórica. Para Woodward, esses processos colocam em questão uma série de certezas tradicionais, dando força ao argumento de que existe uma crise da identidade nas sociedades contemporâneas. Uma crise que perpassa também por processos de resistência do mundo contemporâneo às novas modalidades de desculturação e aculturação. Armand Mattelart no texto a Diversidade Cultural e Mundialização afirma que a ideia de apropriação individual e coletiva corresponde a uma mudança de paradigma no conjunto das ciências humanas que abre para novos objetos de pesquisa, para novos métodos, para novas referências teóricas. Para ele, não há cultura sem mediação, não há identidade sem tradição e cada sociedade transcreve os signos transnacionais os reinterpretando. No jornalismo, isso também fica claro com redes de canais como a CNN, que se espalham pelo mundo, trazendo um conteúdo específico para cada local.

Com o caso da falta de memória histórica brasileira, essa crise de identidade seria necessária para modificar e refletir sobre esses momentos importantes para a trajetória do País e que também formam a identidade nacional. Hall em texto já citado diz que “as identidades parecem invocar uma origem que residiria em um passado histórico com o qual elas continuariam a manter uma certa correspondência. Elas têm a ver, entretanto, com a questão da utilização dos recursos da história, da linguagem, e da cultura para a produção não daquilo que nós somos, mas daquilo que nós tornamos”. É preciso também vincular as discussões sobre identidade a todos esses processos e práticas que foram abafados e silenciados pelos poderes do regime militar e que encontram ecos na imprensa e nas estratégias de operações adotadas pela mídia na época. Pois se sabe que há resquícios do período militar ainda em muitos órgãos de repressão do governo, como a Brigada Militar, muitas vezes em um nacionalismo ufanista, como em propagandas governamentais, e também na imprensa.

Pensar a memória como um processo de reconfiguração da identidade nacional a partir das páginas do mensário alternativo Coojornal é entender partes excluídas, abafadas, da identidade nacional. E fundamental para compreender que a constituição social é sempre um ato de poder, uma vez que a construção da identidade está sempre ligado ao ato de excluir algo.

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