por Marcelo Martins*

O melhor argumento contra o a Dia Nacional da Consciência Negra, o 20 de novembro, aliás, corrijo – o meu argumento favorito, é o apelo à consciência humana: universal, neutra, benevolente. É o que somos; humanos. Sem nada que nos separe, diminua ou distinga. O argumento do mundo ideal onde também os problemas são resolvidos pela força do pensamento positivo e da gratidão. Pura magia. Nesse mundo as crianças do Caverna do Dragão conseguem, enfim, voltar para casa.

A nós, negros, é exigido paciência, persistência infinita e, sobretudo, resignação. Séculos de resignação. Os planetas estão se movendo, tenhamos calma, o racismo está ultrapassado, quase fora de moda. Quando o jornalista famoso é flagrado sendo racista, não é racismo o que estamos vendo, é uma gafe. Quando organizamos eventos pautados pela identidade racial somos acusados de segregacionistas. O Brasil promove um genocídio diário de jovens negros, porém é o nosso discurso combativo que pode lançar o país na seara do ódio.

Que papel, que lugar, ocupam os negros no Brasil? Esse país que possui a maior população negra fora do continente africano, entretanto os confina em uma silenciosa exclusão, elaborada desde antes da abolição, que agora se mostra aos olhos com ar de naturalidade. Um país construído sob um regime escravista que moeu africanos e seus descendentes, negros brasileiros, com fúria desumana para gerar lucro ao longo de três séculos e meio. O que agora esperam de nós?

O 20 de novembro, data também do aniversário de minha irmã, me agrada por organizar uma agenda de lutas durante todo o mês e por expor com maior nitidez a hipocrisia e racista que a sociedade se esforça para manter, convencer a si mesma de que vivemos um perfeito estado de harmonia e igualdade; desde que cada um se mantenha onde está. Aqui todo mundo tem um pé na África, reza o dito, todo mundo samba, porém a limpeza da festa, a pobreza, as mortes, cabe apenas a alguns. O permanente estado de conciliação, no qual o país acredita viver, é tensionado de maneira mais incisiva nesse mês. Pois, quero mais do que um dia de consciência negra, quero um mês de consciência, quero 365 dias, quero os três séculos e meio, os 129 anos de abolição incompleta, a emancipação absoluta de nossos corpos e mentes.

*Marcelo Martins é escritor e professor.

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