por Glauber Cruz

Talvez tenham sido cores e sotaques que o Dolby Theatre não tenha visto ou ouvido em todos os seus anos de história. Naquela noite do último 29 de janeiro, ele que é um dos espaços mais célebres (e brancos) de Hollywood foi ocupado por diferentes tons e sons, virando palco para uma verdadeira celebração da cultura negra.

A premiere de Pantera Negra, com toda sua diversidade, foi o ponto alto da espera pelo filme solo do personagem, que apareceu pela primeira vez nos cinemas em Capitão América: Guerra Civil, numa participação que deu os tons mas não entregou tudo sobre o herói vindo do fictício país africano de Wakanda. Escrito e dirigido por Ryan Coogler (diretor de Creed e Fruitvale Station) o filme, que estreia no próximo dia 15, traz nomes de peso como Angela Bassett, Forest Whitaker, Lupita Nyong’o e Michael B. Jordan e já ocupa o posto de filme de super-herói com o maior número de ingressos vendidos durante a sua pré-venda, refletindo toda a ansiedade em torno do filme.

Porém, diferentemente dos filmes anteriores do estúdio (e mesmo dos títulos que serão lançados ao longo de 2018, como Vingadores 3: Guerra Infinita e Homem-Formiga e a Vespa), a expectativa em torno de Pantera Negra vai além da pura expectativa pelo filme em si e pelo que ele pode apresentar na tela em termos técnicos e narrativos: é o impacto fora dela que tem sido o principal combustível para a contagem regressiva para a estreia do longa.

Imagem: Ryan Meinerding/Marvel

“É muito mais que um filme” disse o ator Chadwick Boseman na premiere do dia 29. De fato, Pantera Negra deve ser encarado como algo que vai muito além de mais um peça no quebra-cabeça do universo Marvel nos cinemas: ele é fruto de uma série de discursos e movimentos que vêm questionando a arte (especialmente o cinema) sobre como e quando negros, mulheres, gays, transexuais, latinos e tantos outros grupos marginalizados são representados nas telonas; é fruto da luta desses grupos por espaço em um universo ainda de difícil acesso, um espaço que não seja coadjuvante, que seja respeitoso e que se desloque do espaço comum no qual essas pessoas são sempre confinadas.

Criado em 1966 por Stan Lee e Jack Kirby, o Pantera Negra não era, segundo Lee, uma referência ao partido homônimo que se tornou o principal foco de luta contra o racismo em um país marcado pela segregação racial (institucional ou não). Ainda assim, o Pantera, alter ego de T’Challa, rei de Wakanda, se afirmou como um personagem singular numa época pautada pela luta por direitos civis. Era o primeiro super-herói negro a ganhar uma HQ solo, abrindo portas para outros personagens como Luke Cage, também da Marvel e Lanterna Verde (na sua forma John Stewart), da DC Comics, ambos criados na década de 70. Mais de cinquenta anos depois, o Pantera ganha uma adaptação para o cinema, e dessa vez afirma a sua importância e razão: numa Hollywood pós-OscarSoWhite, a equipe do filme nunca deixa de lembrar a potência que é ter um filme protagonizado por um super-herói negro, ambientado na África, escrito e dirigido por um cineasta negro e estrelado por um elenco majoritariamente negro. Algo completamente inédito em um blockbuster.

Pantera Negra é um filme necessário no momento certo. Um momento em que se questionam relações e pensamentos, que se desconstroem expressões e ações, que se cobra a presença de artistas negros em premiações e em papeis que ainda são sempre pensados para artistas brancos. Um momento em que se discute muito sobre representatividade, sobre as formas dessa representatividade e a necessidade de pensar outros espaços, outras histórias, outras vivências e personagens. Nesse universo de debates, réplicas e tréplicas, um filme da Marvel Studios é um instrumento potente com a possibilidade de acessar um número enorme de jovens negros, mostrando-lhes que é possível sim protagonizar outras histórias. É uma oportunidade de se olhar, de se pensar de um forma diferente. E não só se ver, mas também se ouvir. Comandada por Kendrick Lamar e com nomes como SZA, The Weeknd e Future, a trilha sonora vai trazer para o Marvel Cinematic Universe (MCU para os mais íntimos) a negritude do rap em uma trilha que sai do eixo de todos os trabalhos já produzidos pelo estúdio e que, mesmo antes do lançamento do filme, parece já ter vida própria sem ele.

O filme também se mostra uma possibilidade de lançar um novo olhar para a África. Um olhar que é, claro, fictício, mas que contribui ao menos para o início de uma discussão sobre o necessário processo descolonização do nosso pensamento. Pensamento raso, imediato e predeterminado de África como um continente uniforme e uniformemente marcado pela pobreza. Além disso, é um potencial argumento para que crianças e adolescentes (e porque não também os adultos) reconheçam a África como a peça matriz de sua ancestralidade, de afirmar que há sim um vínculo entre ela e todos aqueles de pele preta ou parda espalhados pelo mundo.

Partindo do princípio de que representatividade é muito mais do que um conceito abstrato e que sim, ela importa, Pantera Negra é fermento para todas essas discussões e também para a alegria de, de certa forma, se ver na tela. No mesmo ano que Stan Lee e Jack Kirby criavam o Pantera, a atriz Whoopi Goldberg, então adolescente, viu Nichelle Nichols na televisão, na recém lançada Star Treck. No papel da Tenente Uhura, Nichols era a primeira mulher negra com um papel de destaque que Whoopi via na televisão. Num mundo em que, mais de 50 anos depois de Nichols aparecer pela primeira vez como a Tenente Uhura, ainda se discute muito a representação do negro (seja a falta de ou a forma de) na arte, é inspirador como Pantera Negra tem o potencial de causar justamente essa sensação: a sensação de se ver, de ser destacado em mundo que sempre lhe esquece ou lhe destaca de uma forma distorcida. E mais: afirmando suas cores, seus sons, sua diversidade, sua riqueza cultural

No Brasil, já pipocam eventos que planejam repetir o que o elenco do filme fez no dia 29 no Dolby Theater: o necessário ocupar das salas de cinemas, o enegrecimento de um espaço infelizmente ainda tão elitizado e distante das grandes massas, essas em sua maioria negras.

Que venha o Pantera, Wakanda vive!