por Glauber Cruz

Há um ano, Moonlight – Sob a luz do luar estreava nas salas de cinema do Brasil. Chegava no país com um pouco de atraso em relação às salas de cinema estadunidenses (em sua terra natal, o filme estreou em dezembro) e já trazia na bagagem a estatueta de melhor filme na categoria drama do Globo de Ouro, bem como oito indicações ao Oscar, entre elas a de melhor filme e melhor roteiro adaptado. Escrito e dirigido por Barry Jenkins e inspirado na peça de Tarrell McCraney, Moonlight é ao mesmo tempo uma sublime e aguda narrativa sobre descobrimento, identidade e, claro, sobre o amor.

Desviando de estereótipos dos filmes que se propõem a falar da homossexualidade, Moonlight se divide em três diferentes momentos para contar a história de Chiron (que também é Little, que também é Black), e para falar como uma criança fragilizada pelo meio em que vive pode construir (ou não) a sua própria identidade, ou ao menos entendê-la. Correndo de seus algozes em um mundo em ruínas, pontuado por bocas de fumo e mães viciadas em crack, Chiron (nesse momento Little), de olhos sempre baixos e mergulhado em um silêncio ensurdecedor, encontra na figura de Juan (personificado na espetacular atuação de Mahershala Ali, vencedor do Oscar de melhor ator coadjuvante pelo papel) não necessariamente uma figura paterna, mas sim um ponto de fuga e equilíbrio em um mundo tão hostil. Ao lado de Juan, Chiron encontra o centro do mundo, e boia sobre um oceano de olhares, insultos e agressões.

Ao assumir seu próprio nome, Chiron se vê, durante a adolescência, novamente no meio do turbilhão do seu meio: Juan, seu protetor já morto, vivo apenas nas lembranças distantes e diálogos  sussurrados com Teresa (Janelle Monáe em uma atuação sutil e carinhosa); a mãe, Paula (Naomie Harris numa atuação avassaladora) em queda livre na derrocada do uso da droga; e, para completar, a sexualidade que aflora e que encontra uma fuga desesperada apenas seus sonhos (sonhos que, tamanha é repressão interna e externa, se desenrolam do jeito “tradicional”, leia-se heterossexual, de ser). A violência, antes tão subjetiva e simbólica, aqui atinge o seu grau físico e é potencializado da mesma forma no sentido contrário: antes tão silencioso, Chiron grita, um grito desesperado por paz, por liberdade. Me deixem ser quem eu sou! Chiron então vira Black, e, embora o cenário não seja mais Miami mas sim Atlanta, ele continua correndo, dessa vez pelas ruínas de si mesmo, tentando entender quem é, tentando construir sua identidade, quando o mundo todo diz o que ele é. Curiosamente, aqui não mais o menino magro, a “faggot” preta, mas sim o traficante perigoso. Arma, músculos e grillz.

foto: reprodução

Um ano depois de termos conhecido, nos identificado e nos apaixonado por Chiron, ainda é um pouco difícil tatear o total significado de Moonlight em seus diversos aspectos, principalmente quando o filme aborda de forma profunda alguns pontos tão importantes nas discussões sobre a sociedade, como raça, gênero e sexualidade. Mas mesmo que não tenhamos o distanciamento histórico necessário para apreciar a obra de Barry Jenkins em sua plenitude, é possível já perceber o peso do filme no trato de discussões tão pertinente. Uma delas, talvez a ferida mais exposta na narrativa, é o descolamento da figura do homem negro do estereótipo da sua violenta masculinidade: na Miami mergulhada nas cores intensas de James Laxton, embora pressionados pelo universo exterior, os homens negros sentem, se tocam, amam e choram. A potência da delicadeza dessas simples certezas é enorme em um mundo que molda garotos – e principalmente garotos negros – em uma concepção engessada e violenta do masculino. Entre uma coisa de homem e outra, os homens são ensinados que a firmeza e a ausência total da afetividade é algo inerente aos seus corpos e existências, e que a mínima demonstração do contrário é um desvio, um erro, uma falha não justificável. Na sociedade – e no cinema, que há anos vem espelhando isso muito bem – esses meninos e homens negros estão completamente deslocados da ideia do afeto por uma pessoa do mesmo sexo e é com uma câmera de foco preciso em cenas dotadas de uma delicadeza sutil mas poderosa, que Barry Jenkins humaniza essas figuras, seus corpos e suas existências, nos colocando mais próximos delas.

Até aqui, com sua narrativa totalmente não verborrágica, mas que fala e grita em seus silêncios, suas cores e na expressividade do seu elenco, pode-se dizer que Moonlight fala sobre muitas coisas, mas especialmente sobre ser e não poder; sobre querer ser e não conseguir, e sobre como o mundo que nos cerca, pontuado por instituições e ideias há tanto falidas, pode nos moldar e nos impedir de ser, mesmo que queiramos. É uma obra necessária, que dialoga olhando nos olhos de meninos negros reais que também que ficam azuis à luz do luar, correndo e se desviando (e muitas vezes não conseguindo) das dificuldades de uma existência que é dura e real, e que o continuarão fazendo por muito tempo, pelo menos enquanto nossas crianças negras estiverem submetidas a um contato direto com a violência e com o descaso, seja da sociedade, seja do Estado.

Pensando na indústria cinematográfica propriamente dita, podemos olhar para o filme como um dos principais momentos do movimento expressivo de produções que pretendem abordar a temática racial em suas diferentes nuances, a partir do olhar de realizadores negros. Desde o também independente Corra! (2017), indicado a 4 Oscar esse ano, até o milionário Pantera Negra (2018), passando por Mudbound (2017) e os documentários OJ: Made in America (2016), Eu não sou seu Negro (2016) e A 13ª Emenda (2016), todos realizados por cineastas negros. Na Hollywood pós-OscarSoWhite, meninos e meninas negras não andam mais somente sob a luz do luar. Eles aparecem, e seriamente brincam de fazer cinema.

Assim como Moonlight, esses filmes refletem as discussões que vem acontecendo cada vez mais intensamente fora das salas de cinema e dos sets de filmagens, a necessidade de discutir de verdade a questão racial, suas questões estruturais e também subjetivas. Nessa Hollywood levemente mais escura, a confusão dos eternos Bonnie e Clyde, Warren Beatty e Faye Dunaway, na leitura do envelope de melhor filme do Oscar no ano passado acaba ficando em segundo plano. O que chama mais atenção, e pode inspirar garotos e garotas negras é a mudança na configuração do palco naquele momento: sai a equipe de La La Land, quase que inteiramente branca e entra a de Moonlight, quase que inteiramente negra, ocupando um dos espaços mais racistas da sétima arte. Um ano depois, meninos negros continuam azuis mas brilham mais do que nunca, pois como diz a música que abre o filme, cada negro é uma estrela.

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments