Foto: Otávio Fortes/CRL 2017

Encontrei Bernardo Kucinski para essa entrevista em novembro do ano passado durante a Feira do Livro de Porto Alegre. Encontrei pessoalmente, porque já o havia encontrado há algum tempo em seus livros, principalmente na obra Jornalistas e Revolucionários nos tempos da imprensa alternativa, que me auxilia na escrita da minha dissertação de mestrado. Kucinski veio para Porto Alegre naquele 15 de novembro quente para falar em uma mesa do evento sobre acontecimentos traumáticos na literatura, já que agora ele se dedica quase que integralmente a ela, tendo escritos livros como Você vai voltar para mim e K-Relato de uma busca. O jornalismo ficou no passado, como parece ficar claro nessa entrevista que durou cerca de trinta minutos em que me arrisquei a fazer perguntas sobre jornalismo, sobre sua recente obra literária, que começou a escrever já aos setenta e poucos anos, e também sobre a academia e pesquisa, já que por muitos anos foi professor universitário. Kucinski também trabalhou como assessor da Presidência da República durante o primeiro mandato do governo de Lula. Semanas depois da entrevista presencial, perguntei por e-mail o que ele achara da cobertura da imprensa sobre o julgamento do ex-presidente, em uma frase ele respondeu: “ Acompanhei pela televisão ao vivo. Não acompanhei a cobertura lateral ou paralela da mídia por subserviente, pobre e hipócrita.”

Nonada – Estamos passando por um momento complicado no Brasil, de intolerância, perda de direitos humanos. Como tu vê esse cenário? É possível ter um diálogo com pessoas que, por exemplo, pedem a volta da intervenção militar no Brasil?

Kucinski – Eu acho que são dois processos que aconteceram. Primeiro houve uma sistemática, de pregação do ódio, preparatório da derrubada da Dilma, uma exacerbação do discurso virulento principalmente antipetista, mas anti-esquerda. Isso tem acontecido em outros países também, Israel, Estados Unidos. Mas aqui está diretamente ligado a inviabilizar o que eles chamam de lulopetismo. Semana passada eu decidi não participar mais de um grupo de amigos que tenho há quarenta anos, porque a conversa tinha se tornado impossível. Então, veja só. Outro componente que eu acho opressivo são grupinhos fascistas de pessoas realmente ignorantes, provocadores, eu diria que são quase que escória da sociedade. São pessoas que acham bacana, por exemplo, mentir, insultar. Então é um fenômeno meio patológico esse.

Nonada – E como tu avalias o momento atual do jornalismo, principalmente em relação às novas iniciativas independentes?

Kucinski – Já de algum tempo acho que  a revolução da internet praticamente fez desmoronar o jornalismo. Todos os fundamentos do jornalismo foram destruídos. O monopólio da mediação, todas as demarcações que você possa imaginar. Por exemplo, qual era a principal demarcação entre jornalismo e outros meios de imprensa? Era a periodicidade, que também foi destruída, porque a comunicação hoje é contínua.  A própria notícia como mercadoria, um conceito básico do jornalismo profissional, acabou, porque você produz uma notícia e ela é consumida mas ao mesmo tempo reenviada para mil pessoas. Então ela não é mais uma mercadoria. Não é que entrou um novo meio, houve um terremoto que destruiu o modo antigo de comunicação. Então eu acho que não se pode dizer que está melhor ou pior, porque é outra coisa. Os próprio conceitos a serem usados teriam que ser outros e está um pouco cedo ainda para ter essas definições.

Nonada – Alguns jornalistas dos novos veículos preferem não usar o termo alternativo, porque acreditam que é um termo que assumiu uma carga mais pejorativa, ligada aos sites de fake news. Como tu observas isso?

Kucinski – Já não se pode dizer que a mídia digital é uma mídia alternativa, porque ela é a mídia de hoje. E como eu falei, outro mundo. Se vai haver depois uma reprofissionalização que vai distinguir no noticiário uma forma de tratar os acontecimentos segundo um certo padrão do resto, eu ainda não sei, mas hoje tá tudo misturado.

Nonada – O que é preciso para ser um revolucionário no jornalismo hoje em dia?

Kucinski – Bom, primeiro, é preciso perguntar se é bom ser um revolucionário. Você pode querer também ser um conservador… Eu nunca pensei nisso, até ousaria dizer que ser um revolucionário seria ser um jornalista à moda antiga, bem antiga tipo estilo americano, de ir atrás da notícia, checar todas as fontes, destilar tudo, comparar o que um falou e outro não, e aí publicar. Tem alguns que ainda fazem isso, mas são exceção hoje.

Nonada – Sobre teu trabalho na ficção, há uma diferença na motivação em relação a quando tu fazias pesquisa acadêmica? O que te motivou a escrever ficção?

Kucinski – Olha, foi um vazio… eu entrei na compulsória na universidade, teve a saída do governo, não tinha o que fazer da vida e de repente me deu essa inspiração. Escrevi primeiro uma novela policial, porque gosto muito, depois um folhetim, que saiu muito fácil. Aí eu me convenci que pegava jeito e aí foi. Mudei de nome, é B. Kucinski, pra não confundir com o antigo jornalista, comprei um boné e virei ficcionista.

Nonada – E o [Kucinski] jornalista está mais de lado então?

Kucinski – Nem quero saber.

Nonada – Qual tua opinião sobre a literatura brasileira que trata sobre a ditadura militar?

Kucinski – Olha, do que eu tenho visto, teve uma primeira produção literária importante logo depois do golpe, na base das metáforas, das alegorias…Depois acabou. De lá para cá o que tem surgido o tempo todo (o último foi agora, essa biografia que saiu do…. [longa pausa]… Koutzii)  são biografias e autobiografias. Cada um dos sobreviventes contando como foi. É  um processo meio geral mas individualizado de prestação de contas, cada um consigo mesmo e com os outros, entende? Isso tem acontecido muito, mas não literatura. A ficção contemporânea brasileira ignora.

Nonada – …[interrompendo] por que será isso?

Kucinski – Primeiro pelo espaço ocupado por isso. Segundo que eu acho que ela não está numa fase muito importante, a literatura brasileira de hoje. A vida mudou tanto, trouxe tantos problemas novos, que é o que interessa hoje, entende? Mudanças na sexualidade, nos hábitos, no que é família, a violência urbana, as drogas, a globalização. Tudo isso é muito mais quente.

Nonada – Então, a ditadura é um tema que não nos toca…?

Kucinski – Não, ele vai voltar. Por exemplo, o que tem acontecido muito hoje no Brasil, se você pegar o tema mais frequente na nova literatura brasileira, por incrível que pareça é o holocausto. Você tem o Michel Laub, a Noemi Jaffe, o meu livro também, aquele mineiro, o Jacques Kano. E uma coisa impressionante. Aí eu comecei a pensar o por quê disso. Nós, da minha geração, fomos filhos do holocausto A família da minha mãe foi dizimada quando eu tinha 2 anos de idade. Eu não sabia disso, mas hoje eu sei, hoje eu entendo a minha mãe. É uma geração que hoje está acertando contas com o holocausto, por conta dos seus avós e dos seus pais. E acho que vai acontecer a mesma coisa com a ditadura no plano ficcional, talvez daqui a 5, 10 anos.

Nonada – Como é tua relação com o meio acadêmico? O que acha dos órgãos como o CNPQ?

Kucinski – Olha, eu tô afastado, mas a impressão que eu tenho um pouco de longe não é das melhores, é bem ruim. Aliás, minha primeira novela de ficção é uma crítica ao mundo acadêmico. Chama-se Alice [ed. record]. Um crime acontece na universidade, e ali eu faço toda a crítica, inclusive defendo a tese de que uma das principais causas da decadência da academia no Brasil foi o expurgo feito pelo golpe de 64. O golpe tirou todos os grandes pensadores, os líderes de pesquisa de quase todas as áreas, saúde pública, química, biologia, não foi só a política. Aí veio uma geração de pessoas mais preocupadas com a carreira. Esse foi o dano mais duradouro, permanente e irreversível do golpe de 64 na sociedade brasileira.

Nonada – Ao mesmo tempo, na época, os jornalistas também tiveram que se adaptar a ditadura, então surgiram jornalistas “mais fortes”…

Kucinski – Era um jornalismo melhor que agora. Havia um espírito de porco no jornalismo, mesmo entre os que não estavam na imprensa alternativa. O próprio jornalismo era um entidade maior, não só no Brasil… foi o apogeu do jornalismo mundial. Era época da guerra do vietnã, das guerras de libertação na África, havia grandes jornalistas que serviam de exemplo para nós. E aqui a gente fazia o que podia, na imprensa alternativa e fora também. Hoje, o que acontece é um rebaixamento geral do jornalismo. A era dos grandes jornais acabou e a era da televisão também está morrendo, então isso tudo empobreceu muito. Mas houve um empobrecimento também ético e espiritual do jornalista.

Acho que a partir de um certo momento, começou a se instituir no jornalismo brasileiro uma espécie de ética da malandragem. O jornalista bom é o que sabe dar uma rasteira no entrevistado, sabe arrancar dele uma frase que não é bem o que ele queria falar, sabe manipular uma manchete. Ele vai sendo premiado. Isso foi criando uma situação pavloviana de premiação e punição em que os malandros se sentiam melhor, então eu acho que quem santificou isso depois foi o [Paulo] Francis, com aquele jeitão dele de deliberadamente avacalhar. Aí entra esse Reinaldo Azevedo… Mas não é só ele, a média também. Então hoje em dia tem gente que tem medo de dar uma entrevista pra um jornalista. Tem medo porque sabe que alguma coisa ele vai aprontar. Ele serve com essa função, de aprontar e não de aferir o que eu penso. É muito desagradável.

Nonada – Então você evita entrevistas?

Kucinski – Só faço por e-mail e, mesmo assim, é um perigo. O cara faz 10 perguntas, para publicar uma resposta só, não publica as outras, e isso também é uma forma de manipulação. É muito ruim.

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments

Deixar um comentário

Não há comentários nessa página ainda. Vamos começar essa conversa!

Deixe uma resposta