Resenha: Ananda Zambi
Fotos: Louise Soares

Quem está aí?”, perguntou a cantora, compositora, escritora e instrumentista Letícia Novaes, fazendo referência à primeira frase da peça de Shakespeare Hamlet. Era uma noite de sábado e estávamos no Agulha, em Porto Alegre, casa de shows que abriu recentemente e vem trazendo nomes relevantes da cena contemporânea da música no Brasil. A partir do monólogo que veio na sequência, eu paralisei. Paralisei e fiquei totalmente imersa naquele contexto: no meio de antúrios havia uma mulher alta, magrela, de maiô, meia arrastão, luva e brinco enormes, cabelo armado e maquiagem expressiva, divagando sobre a obra inglesa, sua vida e o mundo do jeito que está. O Projeto Concha trouxe para Porto Alegre nos dias 24 e 25 de março uma das artistas mais impactantes do atual cenário musical brasileiro.

Criado por Alice Castiel, o Projeto Concha tem como objetivo levar ao palco da Agulha, todo mês, artistas mulheres. Em março, foi a vez de Letrux, projeto solo de Letícia, lançar em terras gaúchas o CD Letrux em Noite de Climão (2017), que tem pegadas de pop rock e synthpop, diferente de seu projeto anterior, o Letuce (2007), duo com o músico Lucas Vasconcellos que tinha uma pegada mais abrasileirada, mas sem deixar de lado a ironia.

Saskia, cantora, compositora e produtora porto-alegrense (Foto: Louise Soares/Nonada)

A abertura, nas duas noites, ficou por conta de Saskia, cantora, compositora e produtora porto-alegrense de 21 anos que junta elementos eletrônicos com guitarras minimalistas e letras melancólicas, gerando traps e funks no mínimo interessantes, como a música “Crush” (Eu tenho um crush fodido/ Mas eu tenho vergonha/ Eu te sigo na balada/ Sem você perceber/ E hoje eu fiz um funk/ E esse funk é pra você). Finalizou com um remix de Elza Soares e fechou a apresentação com a frase: “Eu nasci mulher negra”.

O espetáculo começou com Letrux subindo ao palco com uma capa vermelha e óculos iluminados da mesma cor. A primeira música foi a que abre o disco, “Vai Render”, e ali já foi possível perceber o estado de transe presente. A casa estava lotada e todos gritavam a letra na ponta da língua. Já descoberta, veio a divertida “Ninguém Perguntou por Você” (Já tive tudo com você/ Dois filhos com você/ Na minha cabeça com você/ Tudo com você/ A gente só serviu no sonho/ A gente só prestou dormindo) e depois “Puro Disfarce” – parceria com Marina Lima, cuja inspiração para o disco é notória – e “Coisa Banho de Mar”. Era a capacidade máxima da Agulha entoando absolutamente todas as palavras de todas as músicas de Letrux. O show também foi feito pelo público.

(Foto: Louise Soares/Nonada)

Letícia tem um senso de humor afiado, tanto em suas músicas quanto em sua oratória – ela fez piada sobre tocar duas vezes na mesma cidade e já se sentir local a ponto de comer no Cavanhas, lanchonete da cidade. Mas, na medida, soube falar de assuntos sérios, como quando cantou, aos prantos, a música “5 years old” – inspirada na frase do escritor E. E. Cummings accept all happiness from me (aceite toda felicidade que vem de mim, tradução livre) – , que dedicou à vereadora carioca Marielle Franco, alegando que seu sorriso era contagiante. “A alegria é revolucionária”, declarou Letrux, sendo respondida com gritos de “Marielle Presente”.

(Foto: Louise Soares/Nonada)

Outro momento muito marcante do show foi a performance junto ao piano da casa de shows. Para isso, ela atravessou o público até chegar no instrumento, localizado na copa da Agulha. Começou recitando um poema e depois interpretou a canção “Alguém cantando”, de Caetano Veloso.

De volta ao palco, Letrux cantou Hypnotized, também entoada em coro pelo público. Depois da versão de Zodiacs, de Roberta Kelly (Letícia fala bastante de astrologia em seu show), veio a pesada e emblemática “Que Estrago”, que fez junto com a escritora Bruna Beber e que fala de um romance lésbico (E que sucesso que cê fez lá na minha casa/ E que sucesso que cê fez lá na minha cama/ Maluca, quero repeteco/ Maluca, eu tô na tua porta). Depois da divertida “Além de Cavalos” – onde conta a história de uma pessoa que tatua o nome de um(a) ex e se arrepende – veio “Flerte Revival” e, por fim, o sucesso “Noite Estranha, Geral Sentiu”, momento em que Letícia investe muito na performance, incluindo gritos e toques.

Em meio a tanta troca de ideias, experiências, sensações e emoções, é impossível sair indiferente à Noite de Climão.