por Samara Onofre*

Uma cena que antes era pequena e cheia de receios começa a mostrar força no momento em que as mulheres percebem que resistência, empoderamento e união têm muito a contribuir tanto na música quanto na vida pessoal. No rap feminino, mulheres lutam diariamente para que sua poesia seja reconhecida e possa ajudar a outras mulheres. O estímulo de mostrar a realidade da mulher, falada por elas mesmas, é um dos incentivadores. Elas podem cantar sobre o que vivem e sentem, batendo de frente com ideologias que as consideram o sexo frágil e mostrando que enfrentam a vida de turnos duplos ou triplos.

Nathiely Souza, de 29 anos, mora em Porto Alegre. É mãe solteira e se esforça ao máximo para criar o filho. Quando esteve em momentos de grande dificuldade, encontrou força nos movimentos sociais que hoje a tornaram também produtora cultural. Fundou a ONG Mulheres Guerreiras, no bairro Restinga, e realizou diversos trabalhos com adolescentes em vulnerabilidade e, em todos esses projetos, o hip-hop é a ferramenta. Com o tempo, começou a escrever e dar mais importância para isso. “Em todas as minhas composições eu falo da minha realidade e tento expressar de forma que as outras mulheres se identifiquem” diz a rapper. Nathiely faz parte do grupo Conexão Katrina (confira a o clipe de “Mina Boca Braba” no fim da reportagem) e vê a cena de rap feminino se construindo de uma forma rápida devido ao incentivo e acolhimento das que já trabalham com isso. “Aceitação é uma parada que me surpreendeu no início, achei que não teríamos muito. Via o brilho no olhar das minas por estarem ali sendo representadas, e isso ainda é uma parada muito da hora. Tá sendo bem aceito.”

Nathiely Souza (foto: divulgação)

Rap significa Rhythm and Poetry e é um dos elementos que formam a cultura hip-hop, uma das principais expressões artísticas da cultura negra contemporânea. Junto dele está o break, o grafite e o disc jockey (DJ). Quem canta o rap é mestre de cerimônia (MC). No início dos anos 1970, surgia essa expressão cultural nos subúrbios de Nova York, nos Estados Unidos. O Brasil deu seus primeiros passos no hip-hop no fim da década de 1980. Os artistas desse movimento sempre foram majoritariamente homens, porém Dina Di e Negra Li, ambas paulistanas, são duas rappers que se tornaram referências, entre tantas outras, ocupando um espaço com reconhecimento e visibilidade no meio masculino. Hoje, no cenário nacional, é possível acompanhar artistas como as paulistanas Drik Barbosa e Tássia Reis e a curitibana Karol Conka.

No sul do Brasil, há um grande volume de trabalhos sendo produzidos tanto por homens quanto por mulheres. Entretanto, alguns obstáculos impedem que essas produções sejam mais reconhecidas nacionalmente, como a supremacia da cena Rio/São Paulo. Ainda assim, encontra-se o hip hop ocupando praças, esquinas e variados locais públicos da cidade de Porto Alegre. Geralmente nos fins de semana acontecem eventos como as batalhas de rimas e de conhecimento, feiras e oficinas que aproximam a população da cultura hip-hop. Batalhas são disputas entre MC’s que rimam de maneira espontânea e contínua durante um tempo determinado, instigando a resposta do seu adversário. Slams são encontros de poesia falada e performada e são nesses eventos que se encontram algumas mulheres que fazem parte da cena do hip hop na cidade.

As grandes referências de rap feminino no Rio Grande do Sul são Negra Jaque e Vanessa GirlLove, ambas de Porto Alegre. As duas iniciaram suas carreiras no começo dos anos 2000 na periferia. Hoje, são mães e seguem percorrendo caminhos para obter visibilidade e oportunidades para todas as outras rappers que virão. Juntas lançaram o projeto “Junção da Minas”, que proporciona às mulheres oportunidades de divulgarem suas músicas e fazerem parcerias. Vanessa escreve suas músicas e reúne meninas em projetos como o “Rap4Love”, que também viabiliza as produções e a união na música. Em um dos melhores momentos de sua carreira, Negra Jaque, conquista espaço na mídia e mostra a resistência da mulher negra com o sonho de levar suas rimas para todos os cantos. “Rap é a base de tudo. Ele me ajudou a me tornar quem eu era e a mulher que eu quero ser. Então tô caminhando pra isso”, diz Jaque.  

Negra Jaque (foto Pritep)

Aretha Ramos, de 25 anos, estuda Administração, trabalha e organiza batalhas há mais de cinco anos. “Foi difícil me incluir no inicio por ser mulher e nova, mas eu fui conquistando meu espaço”, conta. Aretha está à frente de alguns eventos culturais e diz acreditar no movimento cultural que cresce cada vez mais dentro do estado. Tem como inspiração cantoras de R&B e Soul, que, por serem estilos da Black Music, se aproximam do rap. Ela aprecia muito a cultura hip-hop e quem a dissemina e valoriza. “Já me envolvi com a música e fiz algumas rimas, mas acredito que posso agregar mais ao movimento participando da organização das batalhas.”

Ana Luiza Brito segue este mesmo caminho. Com 20 anos e estudante de técnico em administração, ela passou a se inserir nesse meio através das redes sociais. Participou de discussões em grupos sobre a representação da mulher no rap que a levaram a se tornar moderadora de uma das comunidades de rap mais visíveis na internet. É chamada, nesse meio, pelo nome artístico “Velma”, devido a semelhança com uma personagem de desenho animado. Velma promove discussões a respeito da participação da mulher na música e tem um vlog para debater diversos assuntos “Procuro sempre incentivar as minas que têm vontade de participar a seguirem em frente.”

Iâmena, com 20 anos e moradora da capital, está começando a trilhar seu caminho. Há pouco menos de um ano envolvida com o rap, está em processos de gravação e já sabe que quer levar a sério a carreira na música. Conta que começou a cantar no coral da igreja aos sete anos e aos doze teve seus primeiros contatos com rap através do pai e do irmão. Participou de projetos de dança de hip-hop e mergulhou nesta cultura. “Tem muita mina querendo fazer rap, mas ainda tem um pouco de medo. Rap é resistência, temos que resistir sempre, ainda mais sendo mina. Uma coisa é cantar rap porque gosta da batida e outra coisa é resistir com o rap.”

Fazendo parte do mesmo projeto, o Rap4Love, Lienne Marley, 34 anos, e Dany Alves, 29 anos, já estão há mais de dez anos dentro da carreira musical. Paralelamente, trabalham e seguem outras carreiras. Lienne é formada em Biologia, mora na Praia do Rosa, em Santa Catarina, participa um pouco da cena hip-hop Catarinense, mas segue participando da forma como pode do rap em Porto Alegre. Dany descreve sua relação com o rap como identidade, pertencimento e manifesto, sempre de um jeito muito subjetivo. Cursa licenciatura em ciências da natureza e mora na Região metropolitana de Porto Alegre, em Eldorado do Sul, por isso encontra dificuldades para participar dos eventos na capital devido à distância, mas aprecia bastante os eventos quando pode estar presente. “Gosto de ver as minas batalhando. Ser rapper é, além de fazer uma rap bom, saber se impor”, diz.

Dadi (foto: Joseph Fotografia)

Aos 21 anos, Ariádne Soares, ou Dadi, abriu uma produtora e canta Rap junto com o amigo Dhok no grupo “D42”. Cresceu em meio a dificuldades. Quando pequena, foi criada pela avó no interior, enquanto os pais moravam na capital. Cada um morando no seu serviço e trabalhando para tentar dar uma vida confortável à menina. Com o falecimento da avó, foi morar com os pais que, a partir daí, fizeram esforços em dobro para lhe criarem.

Dadi relata que seu pai tem muitos discos de rap em casa e, como ela sempre escutava, passou a gostar das músicas. Ganhou um violão e um teclado dos pais na adolescência e aprendeu a tocar apenas com a ajuda de revistas que ensinavam os acordes e as cifras. Sua carreira musical começou com uma banda de rock alternativo, e hoje já está estabilizada no rap há mais de um ano e meio. “O Rap é minha maior forma de resistência por ser mulher, negra e lésbica”, diz. Logo que começou a fazer música e divulgar, viu a união e o acolhimento das cantoras que já estão há um tempo se envolvendo com isso. “Tem muita mina que faz rap, mas as que são reconhecidas são poucas. As minas dentro de um todo são muito unidas. As minas são demais.”

*Reportagem vencedora do I Concurso de Reportagem da Mídia Alternativa do RS