Fotos: Tuane Eggers e Thiele Elissa/divulgação 

– Abdias Nascimento não é o maior intelectual negro, é o maior intelectual do Brasil.

A voz do artista paulistano de 32 anos Jaime Lauriano ecoou no auditório do Museu de Artes do Rio Grande do Sul, onde jornalistas de vários estados assistiam à coletiva da 11ª Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, na manhã do dia 5 de abril. A manifestação de Lauriano, um dos principais nomes desta edição, veio como resposta à fala do presidente da Bienal, Gilberto Schwartsmann, que contava aos jornalistas sobre a inauguração, pela prefeitura, de um memorial em homenagem ao artista e ativista brasileiro, diante do viaduto recentemente inaugurado em frente ao estádio Beira-Rio. O assunto era a invisibilização da importância dos líderes e artistas negros no país.

– Claro, foi isso que eu quis dizer – respondeu Gilberto rapidamente.

Embora breve, o momento foi simbólico de como a branquitude se insere atualmente no processo tardio de reconhecimento dos artistas negros como protagonistas, o que foi recentemente visto com mais força em diversos eventos de arte do país, como a Flip e a Bienal de São Paulo, e é também marcante na mostra porto-alegrense.

A partir do tema O Triângulo Atlântico, a Bienal do Mercosul deste ano propõe uma reflexão sobre as relações entre os continentes americano, africano e europeu, com foco nos fluxos migratórios e nas influências culturais. Nesse sentido, a grande novidade dessa edição é o caráter anticolonialista da curadoria de Alfons Hug e da curadora-adjunta Paula Borghi, que prioriza a diversidade multicultural no próprio protagonismo do fazer artístico para pensar de forma integrada as relações entre os três continentes.

Ao todo, são 70 artistas, cujas obras estão expostas no Memorial do Rio Grande do Sul, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs), no Santander Cultural e na Igreja das Dores. Há ainda duas residências: uma no Quilombo do Areal da Baronesa, onde o público pode ver o resultado das oficinas de Camila Soato com os moradores do quilombo e ainda na Casa 6, em Pelotas, residência de Jaime Lauriano, que também fez oficinas com quilombolas da cidade.

O fotógrafo do Senegal Omar Diop é um dos artistas africanos da mostra Foto: Tuane Eggers/divulgação

Em um movimento inédito de reparação histórica em relação ao racismo institucional na arte no estado gaúcho, artistas negros da África e da América são alguns dos principais nomes da exposição, embora estejam em minoria numérica – cerca de apenas 15 dos 70 no total, o que caracteriza uma visível assimetria ao triângulo, em termos de representação da realidade. “Não fizemos nenhuma concessão a outros critérios que não os artísticos”, explica o curador Alfons Hug. “Os artistas afrodescendentes sempre existiram, acho que era um pouco de preguiça nossa nao ver eles”, destaca Paula. Na última Feira do Livro de Porto Alegre, em preparação para este ano, a Fundação Bienal do Mercosul realizou algumas das melhores mesas do evento, protagonizadas por intelectuais e escritores negros e de povos indígenas, como Daniel Munduruku e o nobel Wole Soyinka, por exemplo.

Agora, o público gaúcho tem a oportunidade de ver obras de artistas como Melvin Edwards, escultor afro-americano pioneiro, Mary Evans, nigeriana que já foi apontada como griot, os fotógrafos George Osodi, da Nigéria, Omar Diop, do Senegal e Zanele Muholi, artivista da África do Sul que faz da fotografia instrumento para dar visibilidade às mulheres negras e trans de seu país. Do Brasil, estão na mostra nomes reconhecidos em bienais internacionais, como o goiano Dalton Paula, a mineira Sonia Gomes, entre outros.

A mineira Sonia Gomes estreia em bienais brasileiras Foto: Thiele Elissa/divulgação

Sonia, que completa 70 anos em 2018, foi uma das artistas presentes na pré-estreia da Bienal. Diante de sua obra no Memorial do RS – um vestido de noiva que ela ganhou de presente e esgarçou, rasgou, des(cons)truiu -, ela se declarou como uma artista política. “Sou uma artista negra que está tendo visibilidade só agora. Não é que não existem artistas negros, só de ser negro a gente nasce com 90% menos de chance. Nao tem como falar de arte brasileira sem a presença negra, então é muito importante que a sociedade tome conhecimento disso”, afirmou a artista conhecida por seus trabalhos que envolvem bordados e memória, cuja obra já esteve na Bienal de Veneza antes mesmo de ser reconhecida em uma das bienais brasileiras.

No mesmo prédio, estão obras de Lauriano, que recriou os primeiros mapas da América, desenhando com o giz usado em celebrações das religiões de matriz africana as marcas da colonização no país. Uma das obras traz a bandeira do MST, da qual o artista retirou o logo e incluiu “12 momentos em que a oligarquia usou as forças armadas para dominar o território brasileiro”, explicou aos jornalistas. “Acho importante a gente tocar nesse assunto aqui dentro do Rio Grande do Sul, que hoje em dia representa o pensamento conservador e reacionário do Brasil”, afirmou, lembrando das agressões à caravana do ex presidente Lula.

Jaime Lauriano e a obra feita a partir da bandeira do MST Foto: Thiele Elissa/divulgação

Uma Bienal de olhares políticos

O destaque aos artistas negros insere-se de forma natural na proposta curatorial desta edição. Os curadores propuseram um triângulo dinâmico, no qual os artistas não estão estáticos e ultrapassam as linhas que cercam suas respectivas realidades. Assim, temos escultores afro-americanos que abordam países do terceiro mundo, artistas brancos cujos trabalhos envolvem a arte de povos indígenas e, é claro, europeus que voltaram seus olhares para a África.  A “aldeia global” desta Bienal, porém, não é uma festa. As obras fazem pensar sobre temas como a desigualdade social trazida pela globalização, o racismo, o colonialismo, a repressão do Estado e das elites, os sistemas financeiros – esse último tema é abordado de forma curiosa em uma instalação/performance do americano Mark Dion que mimetiza um banco no Santander Cultural.

Um dos nomes mais reconhecidos presentes na mostra é o do artista do Azerbaijão Faig Ahmed, que reinventa a tradição da tapeçaria trazendo reflexões sobre o hibridismo cultural no Margs. Vale também mencionar o mexicano Hector Zamora, que cria instalações sobre o avanço da onda conservadora no mundo, a artista carioca Vivian Caccuri, que aborda a repressão à cultura popular, Lunara, gaúcho que fotografou o povo negro no começo do século 20, e Ibrahim Mahama, artista do Gana cujas instalações refletem sobre migração e globalização.

Instalação/performance no Santander Cultural aborda o sistema financeiro e a desigualdade. Foto: Thiele Elissa/divulgação

Muito embora os curadores ratifiquem a escolha dos artistas exclusivamente por questões artísticas, o caráter político desta Bienal é inegável, irreversível e necessário. Assim como na Bienal de Veneza de 2015, na qual artistas da África se destacaram, e da própria Bienal de São Paulo – Incerteza Viva (2016), que trouxe na proposta curatorial grandes questões contemporâneas do mundo e foi desdenhada por parte da crítica justamente por seu caráter político, a Bienal do Mercosul vive um processo semelhante. A mostra, que vinha se tornando cada vez mais incompreensível na falta de diálogo com o público porto-alegrense, se expande socialmente nesta edição, contribuindo para o amadurecimento intelectual de seus visitantes. Esse é o objetivo da própria Fundação, como disse o presidente. “Que Bienal é essa? Como nós [sociedade] vamos sair dela? Se for igual a antes, então ela não terá cumprido seu objetivo”, afirmou.

Palco da barbárie fascista promovida pelo “Movimento Brasil Livre” (MBL) no ano passado contra a mostra Queermuseu, Porto Alegre precisava desta Bienal, assim como o Rio Grande do Sul, que só recentemente começou a pensar o racismo na esfera pública a partir da atuação dos movimentos sociais. Este, no entanto, é apenas o primeiro passo no processo de reparação. Há ainda muitas questões nas quais a branquitude precisa avançar, desde uma simples escolha de palavras (escravizados é o termo apontado como mais adequado na luta antirracista) até mudanças estruturais nos cargos de tomada de decisões – já que os artistas africanos e afrodescendentes são destaque este ano, por que não pensar em um curador negro?

Nesse sentido, um dos pontos mais problemáticos é a proposta do lisboeta Vasco Araújo, presente em uma sala do Margs. As obras “Debret” e “É nos sonhos que tudo começa” suscitaram críticas vindas de mediadores negros da Bienal. Conversamos com uma mediadora, que não quis se identificar. “Ele demonstrou estar expondo dor e sofrimento do outro como forma de arte que não lhe afeta, os relatos dos senhores descrevendo estupro e açoite são quase romantizados”, afirma. Nas obras, esculturas em miniaturas – cuja estética lembra delicados bibelôs – e quadros com trechos literários com planos de fundo de temática tropical foram o modo que o artista escolheu para retratar cenas de estupro e tortura de brancos a escravizados.

Debret, de Vasco Araújo – a escravidão a partir do viés colonizador Foto: reprodução

Outras críticas ouvidas pela reportagem apontam para o fato de o artista ter retratado um grande trauma da história brasileira a partir do viés colonizador e do senso comum, sem um aprofundamento estético que de fato se alinhasse à violência da escravidão no Brasil. Se o debate ainda parece circular apenas no meio artístico da capital, o episódio revela mais uma vez o quanto é urgente uma discussão mais aprofundada sobre branquitude e racismo na esfera pública – e ainda, sobre qual o papel do artista diante das transformações sociais que, cada vez mais, envolvem o ato de escuta dos protagonistas das lutas. Em seu site, Araújo diz que a intenção é “revelar uma face mecânica, imperialista e despótica” que resultou na miscigenação forçada. Procurada pela reportagem, a Fundação Bienal do Mercosul afirmou apenas que traz classificação indicativa para as obras.

Um manifesto pela arte popular

Entre as muitas camadas trazidas por esta Bienal, talvez um das mais importantes seja o reconhecimento da arte popular, que aqui definimos como aquela produzida por não-artistas e que geralmente é denominada simplesmente de “artesanato”. A 11º Bienal do Mercosul faz um manifesto fundamental para a arte no país ao trazer o povo como sujeito ativo na criação artística, algo visível de diversas formas nesta edição.

Um dos espaços de exposição é a Igreja das Dores, na qual Alfons assina em parceria com o artista nigeriano Uche Okpa-Iroha a obra “Vozes Indígenas”. Trata-se de uma instalação sonora que traz oito vozes de idiomas nigerianos e outros oito de idiomas indígenas da América Latina, todos ameaçados de extinção. “Tudo indica que os próprios artistas não acreditem mais que possam resolver sozinhos os problemas da atualidade. É quase como se houvesse um acordo secreto com os grandes mestres, um eco cuja força atravessa os séculos e que se apresenta como um leal companheiro de estrada para que não estejamos submetidos apenas ao nosso raciocínio. Com cada língua extinta, desaparece uma visão de mundo genuína”, afirma o curador.

Casa de Taipa, obra de Maxim Malhado Foto: Tuane Eggers/divulgação

A arte popular é também inspiração para os artistas, que criam a partir de manifestações culturais de povos e comunidades tradicionais, por exemplo. Assim, é marcante que a Casa de Taipa de Maxim Malhado leve ao Santander Cultural uma réplica em tamanho real da arquitetura das comunidades rurais, indígenas e quilombolas do país.

Ao lado de instituições como o Margs e o Santander Cultural,  o Quilombo do Areal da Baronesa também recebe obras, produzidas pelos quilombolas a partir das oficinas da artista Camila Soato. “O foco da oficina foi o processo de experimentar. A gente também falou muito sobre emoções no processo artístico, [foram trabalhos] sobre a comunidade, sobre mulheres negras”, relata a artista, que também tem obras suas no Margs.

Mostra no Quilombo do Areal da Baronesa. Foto: Airan Albino/Nonada

Camila também comentou sobre a invisibilização dos quilombos urbanos pela sociedade gaúcha. “Deu para perceber em coisas simples do cotidiano, em me deslocar até o Areal e em ver que as pessoas não conhecem nem sabem como chegar. Achei super importante a Bienal colocar no mapa o quilombo como um ponto de visitação tão importante quanto os museus”, relata.

No Memorial do RS, na parede em frente às obras de Jaime Lauriano, também podem ser vistas criações de mulheres quilombolas, resultado da residência do artista nos quilombos de Pelotas. “Mais importante que eu falar dos quilombos é os quilombos falarem com eles mesmos”, disse o artista aos jornalistas presentes na visita guiada, descrevendo os trabalhos das mulheres, escolhidos por elas sem qualquer curadoria e edição de Lauriano. “Imprensa, vocês deveriam ir a Pelotas, conhecer a história da segunda cidade mais negra do Brasil”, encerrou o paulistano, em uma fala que explicita o constrangimento de estarmos em um estado que não olha para si mesmo – e suas feridas. Deixemos que a arte então nos aponte o caminho.  

5 Artistas para conhecer na Bienal do Mercosul

Arjan Martins – artista plástico carioca de 58 anos, aborda os fluxos migratórios para as Américas sob o ponto-de-vista crítico da negritude e de sua própria identidade racial. Tem um painel exposto no Margs.

 

Mary Evans – artista nigeriana nascida em 1963, Evans traz a identidade cultural das mulheres de seu país a partir de trabalhos com silhuetas. Obras no Santander Cultural.

 

Ibrahim Mahama – artista ganês de 31 anos que traz instalações em larga escala que refletem sobre migração e globalização. Obra no Santander Cultural

 

Zanele Muholi – fotógrafa e declaradamente artivista, a sul-africana retrata mulheres lésbicas e transgêneros em seu país natal, como forma de dar visibilidade à diversidade sexual e de gênero. Sua identidade negra e lésbica é o ponto de partida para sua arte. Obras no Memorial do RS.

 

Dalton Paula – único brasileiro a expor este ano na Trienal do New Museum, em Nova York, o goiano que estreou no campo artístico há quatro anos é uma das principais revelações da cena contemporânea brasileira. Seu trabalho, a partir da própria identidade, tem como foco “o corpo negro silenciado”. Obras no Santander Cultural.

 

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