Resenha: Rafael Gloria
Fotos: Lidiane Bach

Como dois bons amigos distantes que se reencontram após um tempo longe e se emendam de afeto e de entendimento quase de imediato. Aquele amigo que mesmo distante segue presente.  Foi o que deu para presenciar neste sábado, 21 de abril de 2018, quando o uruguaio Jorge Drexler subiu ao palco do Araújo Vianna para apresentar o músico Ian Ramil, que fez o show de abertura. Uma pequena prévia para um público gaúcho empolgado em rever o velho amigo.  

Era um pouco depois das nove horas da noite e as pessoas ainda chegavam, amontoando-se entre as cadeiras. Os ingressos já haviam esgotado há alguns meses e a procura era grande nas redes sociais por desistentes. Difícil. Mas alguns conseguiram. Tudo para poder presenciar essa espécie de simpatia ambulante que move o público com extrema facilidade – ainda mais o do Rio Grande do Sul, em que a relação é tão estreita quanto as cordas de um violão. Para além da simpatia, é o talento de um músico que já deixou sua  marca em uma geração – e possivelmente nas próximas – que também encanta.

Ian Ramil começou o show com “Nescafé”, emendando com trecho da música “She’s so heavy”, dos Beatles, além de algumas músicas novas. O público reagiu mais à canção Artigo 5º, que tem frases como “Pode cagar nessa constituição/ Que dá nada que danada”. Findando às 21h20, uma abertura bem breve, agora o público esperava Drexler e banda para a apresentação da turnê Salvavidas de Hielo, o mesmo nome do seu último disco lançado, que já passou por Argentina, Chile, Uruguai, México, Estados Unidos, Colômbia e no Brasil, em Fortaleza, Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Florianópolis e Curitiba.

Então, às 21h35 começou o show com a música “Movimiento”, do último álbum, uma bela melodia que brinca com a variedade de sons produzidas a partir do violão, aliás, um fato que é destaque neste seu trabalho mais recente. A próxima é mais antiga, de 1999, e se chama “Rio Abajo”, do disco Frontera. O uruguaio gosta de falar e gesticular no palco e, feliz pela venda esgotada dos ingressos meses antes, era todo só agradecimento: “Eu me sinto muito querido nessa cidade e isso de acabar os ingressos em novembro nunca tinha me acontecido em qualquer outro lugar”. Drexler também gosta de explicar sobre as origens e a criação de suas músicas e contou que a próxima, chamada “Abracadabra”, também do Salvavidas de Hielo, era sobre o ato de da criação, e que ela é tocada com um instrumento mexicano chamado Leona. Em seguida, ele apresentou a talentosa banda que o acompanha.

Fotos: Lidiane Bach

Em breve, foi a vez de um dos pontos altos da noite, a belíssima “12 segundos de oscuridad”, em que uma luz fez as vezes de um farol. Essa música foi composta em povoado chamado Cabo Polônio, no Uruguai, em que não há rede elétrica. A luz depende do farol, que demora 12 segundos para dar a volta (daí o nome da canção) e, claro, da lua. Mas um show de Drexler é, como ele mesmo diz, “pendular”, porque a vida é assim também: há os momentos mais intimistas, dramáticos, de crises existenciais, e um outro momento mais extrovertido, de felicidade. E é o que as músicas seguintes evidenciaram: “Estalactitas”; também do álbum mais recente e com o seu refrão “quase adolescente”, como definiu o cantor (nananananna); e a grande “Universos Paralelos”, que começou a introduzir o  Drexler dançarino, uma versão mais crua, mas ainda muito dançante graças ao fantástico trabalho instrumental da banda.

A imagem ao fundo do palco mostrava a boca de um violão com as seis cordas por qual passavam diversas imagens – e essa também é uma metáfora interessante de frisar: estamos todos dentro desse violão gigante? “Um concerto é um pacto entre as pessoas do palco e a plateia. Durante algumas horas a gente se confia. O que eu tenho para oferecer é este asilo, um pequeno oásis”, disse o cantor.

A morte da vereadora do PSOL no Rio de Janeiro, Marielle Franco, foi lembrada pelo cantor com a música “La Edad Del Cielo”, dedicada a ela e tocada com Drexler solo apenas no violão. O público reagiu nesse momento, porque ele também lembrou, de forma mais contida, dos problemas que o Brasil atravessa. Alguns gritos básicos de “Fora, Temer” foram ouvidos.

A seguir, alguns hits foram enfileirados como “Todo se transforma” e “Sea” e, em seguida, como fez nos shows da turnê no Brasil, ele tocou “Você não entende nada”, de Caetano Veloso, só no violão, e pediu ajuda do público para cantar, porque ele não sabia se lembrava direito toda letra. Não é de uma sincera simpatia? Em seguida foi a vez do bloco das milongas, com cerca de três composições, destaque para “Pongamos que hablo de Martínez”, do último álbum. Nesse momento da milonga ele também lembra do músico Vitor Ramil, o qual admira, além de ser um grande parceiro musical.

Fotos: Lidiane Bach

Encaminhando-se para mais perto do final do show, ainda tivemos uma canção de agradecimento à Bolívia, um país que recebeu a família de Drexler em 1939, em meio à  perseguição nazista aos judeus na Alemanha. E mais duas músicas muito populares: a primeira foi a ótima “Amar La Trama, más que el desenlace”, com alguns versos românticos e belos sobre o ato de caminhar e se apaixonar, enfim, de encontrar-se perdido nessa trama de vida, que acaba unindo a todos.

A outra é a também bonita e romântica “Me Haces Bien”, com um violão delicioso e cheio de ritmo, que ajudou a embalar alguns casais apaixonados ao redor. Nesse momento para dar “aquela agradada”, também cantou em português “Você me faz bem, Porto Alegre”! Se pudesse responder de volta, acho que Porto Alegre diria algo como “Tu também, já pode ficar aqui, vamos parar esse pêndulo”. Mas a vida é travessia e silêncio. Falando nisso, a música seguinte antes do bis se chama exatamente “Silêncio” e é mais um momento de interatividade com o público, já que há trechos na canção que deve ter um silêncio absoluto, faz parte da música. Na maioria das pausas, o silêncio foi respeitado, em algumas houve algum grito. Drexler e a banda mais uma vez agradeceram a cidade, e saíram do palco, como se não fossem voltar, mas o público sabia que ainda teríamos mais por vir.

Então, eles voltaram para tocar “Telefonía”, também do último álbum, e também a ótima e dançante “Bailar en La Cueva”, com o público já em pé e um aglutinado de pessoas em frente ao palco dançando. Nesse momento, ele começou a dançar, de forma engraçada, quase como os passos do clipe de “Universos Paralelos”, em que cada um dos integrantes parecia estar dançando uma coreografia de forma diferente. Bom, voltando ao show, Drexler  pulou no meio desse público e começou a dançar e a cantar no meio deles. Depois, já no final, foi puxado por dois seguranças de volta ao palco.

A penúltima música foi “La luna del Rasquí”, composta no caribe venezuelano, deitado na beira da praia quando, ele contou, a lua lhe falou que naquele momento aquele era um local em que a tristeza não chegava. Outra metáfora para o espetáculo da noite, em suas palavras: “Essas duas horas foram construídas por vocês e nós juntos, a gente se sente muito bem tratado aqui”, completou. No final, a vigésima quinta música do show, ele encerrou com “Quimera”, com todos os integrantes cantando em uníssono e com poucos instrumentos.

E então chegava ao fim mais uma noite de bela música em Porto Alegre, mais uma noite que o pêndulo da vida trouxe Jorge Drexler de novo para cidade. Duas horas e meia de aproximação e de carinho, de intimidade, de obscuridade, e de felicidade, de dança. Assim como a vida. E que o pêndulo não demore mais para voltar.  

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Jornalista, mestrando em Comunicação na Ufrgs e Editor-Fundador do Nonada - Jornalismo Travessia. Acredita nas palavras e nas pessoas. Twitter: @rafaelgloria
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