por Júlia Manzano 
Fotos: Daniel Guarin/Nonada

Na noite de quarta-feira (2), o Salão de Atos lotado aplaudiu de pé as falas de Conceição Evaristo, Jarid Arraes, Jeferson Tenório, Djamila Ribeiro e Winnie Bueno em diversos momentos. A abertura do Festipoa Literária foi mais do que uma discussão sobre literatura, mas um marco. O evento foi dividido em três momentos: uma mesa, mediada por Jeferson Tenório, com Conceição Evaristo e Jarid Arraes seguida de um documentário sobre a vida e a obra de Conceição; uma declamação de poesia slam com Cristal Rocha e Morgana Benevenuto; e uma mesa mediada por Winnie Bueno com Djamila Ribeiro.

O evento era intitulado “Escrevivências” e teve a complexidade do título. Qual o poder da literatura? Qual a coletividade da palavra? Como as vivências atuam perante nós e nossa escrita? Esses foram apenas alguns dos temas da noite abordados por Jeferson Tenório e Winnie Bueno e aprofundados por Conceição Evaristo, Jarid Arraes e Djamila Ribeiro.

As escrevivências de Conceição e Jarid

Conceição Evaristo é uma das mais importantes escritoras do Brasil. Nascida em Minas Gerais, mulher negra de 72 anos, não esconde o quão conectados estão seus escritos com a política: “A nossa voz, quando se torna texto literário, incomoda”. Para a autora, é importante que o poder coletivo da palavra não se perca, que ele não seja reduzido a uma voz individual e que constantemente seja uma forma de representação.

O próprio conceito de escrevivência – que veio de um livro da própria Conceição – é bastante marcado pela noção de coletivo, pela noção de representação, como uma forma de, ao demonstrar outras realidades, abrir espaço para elas. O conceito, que já repercute em diversos lugares de produção de conhecimento, “pode ser pensado em outras situações, mas o ponto original é o da nossa condição como mulheres negras na sociedade brasileira”.

Foto: Daniel Guarin/Nonada

Para Jarid Arraes, 27 anos e autora de mais de 60 cordéis e dois livros, “a minha experiência com a literatura já fala o quanto ela é política. “Quando eu descobri a literatura escrita pelas mulheres negras, eu me descobri enquanto mulher negra e foi uma troca que dependia uma da outra”, comenta, “então, quando eu escrevo, eu me fortaleço na certeza de que isso não é só sobre mim”.

O mercado editorial teria sido um entrave para a jovem escritora. Ela, assim como Conceição, se auto publicou no começo da carreira devido às barreiras do mercado, que é ainda muito machista, racista e transfóbico, segundo a autora. “A primeira coisa que uma escritora negra tem que saber é que ela vai ser ignorada”. Atualmente, Jarid é fundadora e curadora da Ferina, uma editora focada em publicar mulheres em toda sua diversidade, com o intuito de descentralizar as publicações  – muito ainda focadas em mulheres brancas, de classe média-alta, do eixo São Paulo-Rio.

E não apenas o mercado editorial deve ser conquistado. Conceição Evaristo também mencionou a possibilidade de ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL). Inicialmente, a escritora levava como brincadeira as sugestões, mas diz que agora está entusiasmada. “Eu vou me candidatar porque qualquer e todo lugar nesse país é nosso. Então eu me sinto no direito. Agora, se vou levar [a vaga] é outra história”, conta rindo. Para a autora, entrar na ABL seria possível pois ela é sustentada por um mar de vozes e “a Academia vai tomar consciência que existe uma escrita negra, de mulheres negras”.

E tanto para Conceição quanto para Jarid, essa maior propagação da escrita de mulheres negras é muito importante pois elas ainda são invisibilizadas em diversos espaços aos quais os homens e mulheres brancas possuem acesso. “Minha preocupação tem sido também não ser tratada como excepcionalidade, porque quando você trata as pessoas como excepcionalidade, você retira essas pessoas da coletividade que ela representa e eu não vou permitir que façam isso comigo”, defende Conceição Evaristo. Para ela, essa é uma tendência brasileira: tirar determinadas figuras negras ou de origem popular do contexto no qual estão inseridas e isolá-las da voz coletiva. “E o primeiro lugar da recepção da minha escrita foi no movimento social negro. Eu só cheguei na visibilidade em que estou porque um grupo sustentou. Foram homens e mulheres negros”, defende a autora mineira enquanto é ovacionada.

Intelectualidades negras em pauta

Djamila Ribeiro. Foto: Daniel Guarin/Nonada

Djamila Ribeiro, de 37 anos, é Mestra em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e muito conhecida no Brasil todo devido ao seu ativismo e o principal foco da mesa foi a relação entre a academia, as intelectualidades e as mulheres e homens negros.

Para a escritora, os negros foram constituídos como “o outro”, então uma das principais necessidades seria reconstituir humanidades que foram antes negadas devido à uma lógica colonizadora dentro dos espaços. E que ocupar esses espaços “é uma maneira da gente contar a história a partir das nossas perspectivas”, defende Djamila no Salão de Atos, pois “Existe uma condição das mulheres negras e o que acontece no Brasil é a invisibilidade dessa condição”.

Djamila também é muito conhecida pelo seu ativismo digital, sofrendo ataques de diversos grupos, inclusive da esquerda branca de classe média. A autora começou a escrever em 2013 no Blogueiras Negras e, desde 2014, possui um blog na Carta Capital. “Mas eu sempre tive um compromisso sobre aquilo que eu escrevia. Minha birra com as redes sociais é que todo mundo quer falar sobre tudo mesmo sem saber do que está falando. E em relação às intelectualidades negras, eu sinto uma deslegitimação muito grande, pois o cara sequer leu mas acha que pode falar sobre. Ele se sente autorizado pois foi constituído como um sujeito que pode falar”, comenta Djamila. Quando a universalização do homem branco é questionada, gera conflitos pois “Eles ainda estão nessa lógica de que são universais e nós, específicos. E quando a gente refuta isso, eles se sentem incomodados”.

A filósofa não responde mais a ataques pessoais que recebe nas redes, pois isso desgasta e tira o seu foco. “Se é pra usar o tempo e os espaços que eu tenho, eu vou dar visibilidade para a mulher preta”, defende. Para ela, é importante ocupar espaços como grandes editoras e emissoras de TV, pois isso acaba possibilitando espaço para que outras pessoas negras também se destaquem ao furar esse bloqueio feito por espaços já institucionalizados.

Winnie Bueno. Foto: Daniel Guarin/Nonada

O assunto apropriação cultural também foi posto em cheque. Segundo Djamila, “a gente vive em um país extremamente violento com a população negra, que se apropria da cultura negra e embranquece seus símbolos na hora de ganhar dinheiro”, comenta. A autora ressalta a importância de entender e debater apropriação cultural sem diminuir o debate ou tornar isso pessoal – e que a questão é muito mais complexa do que apenas “permitir” que pessoas brancas usem ou não elementos da cultura negra como turbante e dreads. “O debate da apropriação cultural é urgentíssimo, e as pessoas brancas vão ter que fazer”.

Winnie Bueno levantou o ponto sobre a pigmeritocracia e a questão do colorismo no mundo, dando exemplos sobre a situação de castas na Índia – quanto mais baixa a casta, mais escura a pele de seus integrantes – e sobre a população filipina, uma das populações asiáticas de pele mais escura. “Nós, que somos mais escuras, quando vemos a Djamila ocupando os espaços, tem outra carga, outra representatividade que nem sempre está colocada”, comenta.

Segundo Djamila, quanto mais clara a cor de pele de uma pessoa, mais vantagens sociais ela possui no Brasil pois “no Brasil, quanto mais claro se é, mais tolerado se é”.

A onda conservadora – aspecto levantado por diversos setores de esquerda da população – também foi um dos tópicos discutidos. “Acreditar em onda conservadora é acreditar que esse país já foi progressista”, alega Djamila. Os três séculos de escravidão e os 20 anos de ditadura seriam marcas muito fortes na história brasileira, que passou apenas por o que Djamila chama de “marolas progressistas”. Para a autora, repensar o racismo na sociedade é essencial para que se faça um projeto de sociedade democrático e não apenas mais um projeto de poder. “Agora, certos grupos que não eram atingidos por violências que a gente sofre acordaram para a vida, mas precisaram ser atingidos primeiro porque sequer nos enxergavam quando falávamos. Então está na hora de repensar o tipo de sociedade que a gente quer”, defende Djamila.

Confira abaixo os sites e páginas onde você pode encontrar os livros publicados pelas mulheres que participaram da abertura da Festipoa Literária.

http://grupoeditorialletramento.com.br/produto/o-que-e-lugar-de-fala-frete-gratis/

http://jaridarraes.com/

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