Resenha e entrevista Maiara Cemin

Em cartaz nos cinemas de Porto Alegre, “Comboio de Sal e Açúcar” é o primeiro filme africano a lançar simultaneamente em 20 salas de cinema no Brasil. De volta à cidade natal após 17 anos longe, o diretor Licínio Azevedo – que vive há quatro décadas e Moçambique – lança um filme ficcional baseado em seu romance homônimo, resultado de suas pesquisas jornalísticas sobre a guerra civil moçambicana (1977-1992).

“Comboio de Sal e Açúcar” trata-se de um drama histórico permeado pelo romance, que se passa no norte de Moçambique em 1988, durante a guerra civil, quando os conflitos internos do país geram desabastecimento de produtos em algumas cidades. Nesse cenário, parte da população – principalmente as mulheres – passa a trafegar de trem por territórios em disputa para comerciar o sal de Nampula por açúcar em Malawi. O comboio circula em rotas de intenso combate, sendo essencial a escolta militar para a população, devido à sabotagem dos opositores que atrasam a viagem e deixam todos vulneráveis.

Os protagonistas Rosa (Melavie de Vales Rafael), uma jovem enfermeira recém-formada, e Taiar (Matamba Joaquim), um experiente militar, mantêm um relacionamento amoroso nesse ambiente desafiador. Ambos idealistas, buscam uma realidade diferente em um contexto opressivo e que impõe limitações ao seu amor.

O filme traz temas atuais e suscita reflexões sobre o impacto do colonialismo em Moçambique. Doutoranda em sociologia pela UFRGS, a moçambicana Nosta Mandlate avalia que “o cineasta faz um exercício muito grande e sofisticado de denúncia que remete a exercícios engenhosos de pensarmos realidades e contextos políticos atuais”, concluindo quanto à atual realidade de Moçambique, que não se pode esperar que apenas as pessoas que estão no poder resolvam os problemas, pois os principais participantes do processo de transformação social são os próprios moçambicanos.

O comboio de Licínio é uma espécie de microcosmos moçambicano, um espaço de velhas e novas crenças, desde o aspecto religioso ao aspecto ideológico e social. É um espaço protegido de inimigos externos porém vulnerável aos próprios defeitos de seus homens poderosos. A guerra entre irmãos moçambicanos também é presente nas divergências políticas dos militares que lutam pela mesma causa.

Foto: divulgação

A dominação colonial em Moçambique iniciou-se ainda na década de 1880 com a partilha da África, e esteve sob domínio de Portugal até fins da década de 1970. No período, a região da África Austral – onde o país se situa – representou parte importante do continente por fatores econômicos e geopolíticos, como a vasta fonte de minérios e o tráfego entre a Ásia e o Ocidente através da rota do Cabo.

Moçambique tornou-se independente de Portugal em 1975, depois de uma guerra de pouco mais de dez anos, conduzida pela Frente de Libertação de Moçambique, a FRELIMO. Logo após a independência, o país passa por um período de instabilidade, com o surgimento da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) em oposição à FRELIMO, então partido do governo. A RENAMO teve grande apoio de governos externos, como a África do Sul e iniciou uma política de terror e controle pelo medo com a população das áreas rurais não controladas pela FRELIMO, o que desestabilizou por anos as perspectivas de construção de uma nova nação. Ainda que Licínio Azevedo em seu filme não traga nomes e partidos, é nesse cenário que sua obra se situa ao trazer dois grupos militares em disputa no mesmo país.

O filme é uma coprodução de cinco países: Ukbar Filmes (Portugal) e coprodução com ébano Multimídia (Moçambique), Le Films del’Étranger (França), Urucu Media (África do Sul)  e Panda Filmes (Brasil), tendo como distribuidora brasileira a Livres Filmes, que se caracteriza por apoiar produções independentes e não comerciais. Já recebeu inúmeros prêmios internacionais, sendo o mais recente de melhor direção no 26º The  PanAfrican Film & Arts Festival em fevereiro e também é o primeiro filme moçambicano a ser inscrito no Oscar.

Estivemos na pré-estreia do filme, em uma sessão lotada na Cinemateca Capitólio no dia 04 de junho, seguida de um debate com a presença do diretor Licínio Azevedo, Pedro Henrique Gomes, crítico de cinema, membro da Associação de Críticos de Cinema do RS e a moçambicana Nosta Mandlate, mestra e doutoranda em sociologia pela UFRGS. O Nonada teve a oportunidade de entrevistar o diretor Licínio Azevedo durante sua passagem em Porto Alegre. Confira a seguir:

Foto: Sérgio Rosa e Nilveo Pereira Christiano

O que te motivou a lançar hoje, um filme sobre a guerra civil em Moçambique?

Bem, na verdade é o meu trabalho, eu faço principalmente documentário, e com meus documentários eu filmei e acompanhei todo desenvolvimento do país, todo processo, desde a independência até esse período aí de guerra, registrando as diversas fases que o país viveu. Então, eu faço filmes sobre e minhas ficções são baseadas em histórias reais. Principalmente esse filme, porque era minha ideia nos anos 80, durante a guerra civil, quando eu ouvi falar sobre a história desse trem, que mulheres compravam açúcar que não havia em Maputo em Moçambique, um grande produtor de açúcar que teve tudo destruído pela guerra. Então as mulheres descobriram essa maneira de sustentar as famílias, comprando sal no litoral, atravessavam com o trem no país em guerra para vender no Malawi o sal e comprar açúcar na volta, sustentando as famílias por vários meses com isso. Uma viagem que hoje se faz em um dia, 700 km, na época levava semanas ou meses, ou porque a linha era sabotada, destruída ou o comboio era atacado, as pessoas mortas, decapitadas…

Então na época, nos anos 80, eu quis fazer um documentário mas não consegui meios, porque Moçambique não tem dinheiro para cinema, tem que procurar fora e os possíveis produtores e televisões europeias com quem eu trabalhava achavam muito arriscado investir. Porque eles diziam “não, vocês vão ser mortos ou o equipamento vai ser destruído e não vai haver filme”, então não consegui fazer o documentário na época e quando a guerra acabou em 1992 eu fiz a viagem várias vezes entrevistando as pessoas, um relato jornalístico entrevistando as pessoas que viajavam durante a guerra. Os três grupos principais: as mulheres que faziam esse comércio, haviam homens também mas a maior parte eram mulheres; os ferroviários que arriscaram sua vida, que são os verdadeiros grandes heróis de Moçambique mesmo durante a guerra, muitos deles foram mortos nesses ataques; e os militares que faziam a escolta do comboio. Então eu escrevi um livro, um romance, porque eu só gosto de fazer documentário sobre as coisas que estão acontecendo, e sobre o passado longínquo – já fazia muitos anos -, eu me sinto mais à vontade com ficção. Como eu sou escritor eu escrevi um romance, foi publicado nos anos 1990 em Moçambique, depois nos Estados Unidos, em outros países. Não me passava pela cabeça fazer ficção, longas metragens, exige muito mais dinheiro do que os filmes que eu estava habituado a fazer, mas depois desse processo acabei fazendo ficção e 20 anos depois eu adaptei o meu livro para o cinema, foi mais ou menos isso. Todos meus filmes de ficção são baseados em um contexto real, os personagens é que são ficcionais, mas tem sempre um lado baseado na realidade.

Qual você acha que é o papel da ficção para tratar desses temas sensíveis, como a violência extrema em uma guerra? Ela ajuda?

Ajuda, ajuda. Porque falar sobre o real é muito mais difícil. Eu lembro que eu fiz na época um filme chamado A Última Prostituta, onde eu me inspirei para o Virgem Margarida. Naquele momento, sobre a história das prostitutas, foi nesse documentário que as mulheres falaram sobre a história dessa menina virgem, inocente, que foi à cidade comprar o enxoval do casamento e foi levada para o campo de reeducação e morreu lá. Então, nessa época ele não foi exatamente proibido, mas não passou nas televisões e tal, até hoje ainda não passou. Então é mais fácil para esses temas sensíveis passar para a ficção do que ser documentário. Então 10 anos depois eu pude, eu fiz Virgem Margarida e passou tranquilamente nos cinemas. Até o presidente foi ver e tal, mas se fosse A Última prostituta, o documentário, seria bem mais complexo. Muitas vezes eles perguntam “Não, mas esses teus filmes são políticos?!”. Eu não me envolvo em política, mas não tenho culpa se a realidade é política.

O Comboio de Sal e Açúcar é o primeiro filme moçambicano inscrito no Oscar. O que você acha que isso significa para o cinema do país?

Foi bom para a divulgação e pessoalmente porque o filme vai sair agora nos Estados Unidos, tem salas de cinema no Brasil que saem logo em seguida. É o primeiro filme africano que sai em 20 cidade brasileiras e isso ajudou bastante. Já fez com que o filme fosse premiado em Los Angeles há dois meses, recebeu de melhor diretor. Estava boa a publicidade também. Isso facilitou que fosse criado o Comitê de Oscar em Moçambique que tem uma validade de 10 anos. Moçambique tem muitas poucas ficções, é uma a cada dois ou três anos. Agora há outros cineastas fazendo ficções; esse ano vai sair mais uma e é bom que isso tenha uma continuidade. Moçambique é um país que tem uma grande tradição de documentários, e foi a opção do governo revolucionário na época que criou o Instituto Nacional de Cinema. Havia poucos recursos no país, não havia televisão, então o documentário tinha essa função de substituir a televisão e de informar as pessoas sobre o que estava acontecendo no país.

Foto: divulgação

Como você avalia o impacto da recente independência de Moçambique para a história do país?

Foi algo inevitável. E não só em Moçambique: Moçambique, Angola, Guiné-Bissau,Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor Leste, que foram praticamente as últimas colônias que haviam no mundo, eu acho. Tiveram esses processos revolucionários, essa luta que começou primeiro em Angola, depois em Guiné, Moçambique em seguida e tiveram um grande impacto em Portugal mesmo, que determinou a queda do fascismo, salazarismo, no país. Foi o inevitável. Não é possível que exista no mundo de hoje colônias, ainda que existam entre aspas, colônias econômicas em diversos países onde continua tendo dominação…Mas aquela forma de governo, era inevitável que tivesse que mudar.

Nesse sentido, como essa memória da guerra civil ainda está presente em Moçambique hoje?

A guerra civil ainda não acabou, continua. Moçambique é um país que teve guerra contínua. Em 1974 acabou a guerra pela independência, mas logo em seguida, em um curto período começaram as agressões da Rodésia, que vivia o regime minoritário de Ian Smith, um regime comum ao apartheid de um país dominado pelos brancos [África do Sul]. Quando Moçambique aderiu ao boicote comercial das Nações Unidas contra a Rodésia, e a Rodésia dependia dos portos moçambicanos, porque é um país do interior e todas importações e exportações saíam por Moçambique, a Rodésia com um exército muito poderoso, uma força aérea fortíssima – Moçambique não tinha nada disso – começou a atacar Moçambique com bombardeios, destruição de pontes e fábricas. Logo a seguir foi o regime do apartheid, quando a Rodésia finalmente saiu de uma desgraça e entrou em outra, que foi o Mugabe. Quando acabou o regime minoritário branco, a África do Sul começou a atacar Moçambique que dava apoio para o ANC [African National Congress] do Nelson Mandela. Então foram esses dois países que criaram a RENAMO, que é o movimento opositor ao governo e depois a guerra civil. O problema da guerra civil é que é a pior de todas as guerras, são irmãos contra irmãos. Muitas crianças eram raptadas, obrigadas a matar os pais para entrar na guerra e o serviço militar também era obrigatório. Isso se tornou uma dinâmica de destruição completa no país e a guerra civil já deixou de ser aquele movimento inspirado pelo apartheid e passou realmente uma guerra civil realmente.

E essa guerra não acabou. Houve o primeiro acordo de paz em 1992 e depois de algum tempo começaram as hostilidades militares, parou, recomeçou…e agora há a ameaça islâmica dos fundamentalistas radicais vindos da Somália, que estão fazendo ataques no norte de Moçambique, então ainda não acabou a guerra. Isso é uma grande desgraça para o povo.

E quais seriam as perspectivas políticas que se tem hoje para Moçambique, com esse histórico de guerra civil?

É muito difícil, praticamente não há perspectivas. A perspectiva maior é que haja paz com uma política normal, eleições e tudo isso. Há pouco realizaram eleições para governador, que antes era um absurdo, escolhido pelo presidente, e agora passam a ter eleições, uma coisa mais democrática. Mas não há muita perspectiva se essa guerra agora recomeça como um outro tipo de guerra, com uma ameaça externa, não tem como. Sem paz não há possibilidade nenhuma. Vemos que o Brasil, que é um país que nunca teve guerras [sic] tá uma desgraça total, você já viu né? [risos]

E como que é para você, voltar para Porto Alegre depois de 17 anos e ver esse cenário de “desgraça”?

Bastante triste. Quando eu saí daqui não havia essa loucura toda de gente dormindo na rua, onde só na frente do hotel eu vejo 30, 40 pessoas dormindo enroladas no meio da rua. Eu nunca vi isso. Ali na praça onde tem o Capitólio tem um acampamento de pessoas a dormir ali…Moçambique é um país pobre, um país muito mais pobre que o Brasil, não tem comparação, mas isso não existe: as pessoas não dormem na rua. Se tem crianças na rua, as crianças ou velhos, muito idosos pedem dinheiro, mas mesmo assim, ao fim do dia eles se retiram. Todas as pessoas têm onde dormir e pedem dinheiro na rua por necessidade, mas ninguém dorme na rua, ainda que seja um país mais quente, onde pode dormir melhor que aqui na rua. Acho isso uma decadência da cidade de Porto Alegre terrível e absurda. Fiquei bastante assustado com isso. As pessoas também tem medo de andar na rua, quer dizer, em Moçambique no meio da guerra eu sempre andei na rua de noite e daí me dizem aqui “não, depois das 9 não pode andar na rua”. O que é isso? Isso não é maneira de viver.

Por fim, queria que comentaste sobre essa dificuldade de acesso ao cinema africano aqui no Brasil e na América Latina em geral. Há alguma saída para isso?

Tem, eu acho que o problema é a falta de intercâmbio entre os PALOPs [países de língua oficial portuguesa]. Existe essa ideia de união, mas não há intercâmbio nenhum. Mesmo em Moçambique tu não vê nenhum filme brasileiro, só vê filmes americanos…Essa “entidade” que deveria facilitar o intercâmbio cultural não tem nada. Você não vê filme português ou filme brasileiro em Moçambique

Se não tem uma política cultural decente entre o próprio Brasil, é ainda mais em comparação com outros países de língua oficial portuguesa, é bastante complicado. Mostram mais os meus filmes em Macau [China], por exemplo, onde sou sempre convidado para mostrar meus filmes, mais do que em outros países de língua portuguesa.