Com informações da Agência Brasil
Fotos: Walter Craveiro/Flip

A última noite da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) começou com críticas afiadas de dois jovens e aclamados autores. O evento reuniu o norte-americano Colson Whitehead, vencedor do Pulitzer e de diversos prêmios literários, e um jovem autor revelação do Rio de Janeiro, Geovani Martins. Na avaliação deles, a literatura e a sociedade ainda são permeadas pelo racismo e esse preconceito aparece, muitas vezes, nas expectativas do leitor.

Whitehead chamou a atenção para o fato de que personagens negros precisam sempre ter sua raça explicitada e, quando não têm, são imaginados apenas em situações específicas. “As pessoas negras são racializadas, e as pessoas brancas são só pessoas”, disse Whitehead, que busca subverter essa lógica em seus livros, jogando com as expectativas dos leitores. “Quando escrevi meu livro sobre apocalipse zumbi [Zone One (2011)], os brancos dos Estados Unidos diziam que estávamos em uma era pós-racial. A minha ideia ao escrever o livro era que você pode ser pós-racial nessa situação, onde não importa mais quem você é. Quanto mais o país acha que é pós-racial, menos ele é.”

O autor contou que começou a escrever após uma visita a Paraty, há 24 anos. “Ouvi uma voz me chamando e quando vi, havia uma mulher de branco na água, me dizendo ‘Colson, chegou a sua hora, Iemanjá está te chamando para escrever'”, brincou, fazendo uso de seu usual realismo fantástico para contar que simplesmente decidiu que era hora de começar a escrever. Na época, ele recorda que chegou a ser parado pela polícia duas vezes. “Já me deu uma ideia do que é ser um homem negro aqui”, disse. Em seu retorno, ele conta que não é possível avaliar se a situação melhorou, por estar em uma “bolha de educação e gentileza”, referindo-se à Flip.

“Se você pergunta a uma pessoa de pele clara se há problemas raciais na França ou na Alemanha, elas dizem que não. Se você pergunta a uma pessoa de pele escura, ela vai dizer que sim, o país é super racista. Muitos países têm essa questão da autoimagem. Depende da cor da pele de quem responde”, afirmou, explicando que não é só no Brasil que se nega a existência do racismo.

Estreante com o elogiado livro de contos O Sol na Cabeça (2018), o carioca Geovani Martins conta que, em suas leituras, sempre viu personagens negros serem qualificados pela cor. Quando o autor quer se referir a esses personagens, eles são chamados de “o negro” ou “a negra”.

“Pensei: quando eu for escrever um livro, só vou descrever os brancos. Primeiro foi com birra com outros escritores como Jorge Amado, que só descreviam os negros. Depois, percebi essa potência de revelar onde está a nossa visão do negro. Por que eu imagino que aqueles personagens são negros?”, recordou dando como exemplo um conto de sua autoria em que jovens vão fazer um rolezinho e passam por uma série de situações, sem que sua pele seja descrita. “Se você lê [o conto]”rolezinho” e só consegue imaginar negros, é porque você sabe que dificilmente os brancos viveriam essa situação.”

Geovani Martins. Foto: Walter Craveiro/Flip

Nascido em Bangu, na zona oeste do Rio, o escritor passou a adolescência no Vidigal. Ele credita a essa mudança de cenário a capacidade de observação que possibilitou sua escrita, que tem um ritmo acelerado e se desenvolveu também a partir de estudos sobre cinema e teatro e oficinas de leitura da Festa Literária das Periferias (Flupp). “O momento crucial foi quando vim à Flip em 2015. Estava desempregado e foi nesse momento que eu defini que queria ser escritor”, relatou.

Sobre a presença forte de figuras maternas em seu livro, ele contou que sua mãe começou a pagar um plano funerário para ele e seu irmão quando ainda eras crianças. “Ela chegou ao extremo, mas ela está nesse universo de mães que realmente tem essa preocupação”, disse. Em seus contos, a violência policial nas favelas é uma constante. “Em “rolezinho”, a primeira coisa que o personagem pensa quando está correndo [da polícia] é que não queria deixar a mãe sem outro filho”.

Para Colson Whitehead, as referências de quadrinhos e ficção lidos na juventude e o trabalho como jornalista deram ferramentas para a jornada mágica da protagonista de Os Caminhos para a Liberdade (2016), que narra a fuga de negros escravizados do Sul para o Norte dos Estados Unidos, onde poderiam viver em liberdade.

Essa fuga se dá por meio de uma rede secreta de solidariedade chamada “underground railroad” (ferrovia subterrânea), que dá título ao livro em inglês. A ferrovia, na verdade uma metáfora conhecida nos Estados Unidos que se refere a essa fuga, foi materializada na narrativa. A cada estado que cruzam, uma nova realidade se revela, demonstrando diferentes formas de racismo ao longo da história dos Estados Unidos, com forte influência do realismo fantástico. “Se eu escrevesse uma história realista, isso não me permitiria passar por todos os estados, Indiana, Carolina do Norte… a cada estado é uma realidade completamente diferente”, disse.

Colson Whitehead. Foto: Walter Craveiro/Flip

Whitehead escreveu a obra durante o governo Obama e conta que planejava produzir algo mais leve, mas não pôde se abster depois da eleição de Donald Trump e entregou novamente um livro sobre temas pesados a sua editora. “Nunca achei que fôssemos eleger Trump. Tivemos presidentes racistas e burros, mas eleger um presidente que é burro e racista, logo depois de Obama, foi muito chocante”, criticou, sendo bastante aplaudido.

Geovani também foi aplaudido em muitos momentos. Uma das perguntas feitas pela plateia e selecionada pelo mediador questionava o atual sucesso do autor. Um dos leitores perguntou se Geovani achava que teria chegado onde chegou e seria tão “incensado” pela crítica se não fosse do Vidigal. “Quem pode responder essa pergunta são os leitores. Eu estou fazendo meu trabalho”, rebateu, sob muitos aplausos.

Uma das estrelas da Flip 2018, o autor carioca não esconde que a fama também pode incomodar, uma vez que ele é parado constantemente por fãs e leitores que pedem fotos e autógrafos. Ainda assim, ele diz que não pode reclamar e brinca: “Já trabalhei em cada coisa que pega até mal [reclamar]”.

“Estou há algum tempo sendo informado sobre números de vendas. Que vendeu tantos livros essa semana, vendeu tantos esse mês. Aqui consigo ver esses leitores, que deixam de ser números e passam a ser pessoas com histórias e relações com os livros”, disse arrancando risadas da plateia. “Ainda bem que é só uma semana”, completou.

Geovani disse que voltar à Flip 2018 é um momento especial. No ano passado, ele chegou ao evento cheio de expectativas sobre seu primeiro livro. “Volto um ano depois com o livro materializado e com um monte de coisa bacana acontecendo por causa dele”.

*O repórter da Agência Brasil viajou a convite da EDP, empresa patrocinadora da Flip