Resenha: Iarema Soares
Fotos: Regina Peduzzi Protskof

Apesar dos gritos de súplica dos moradores do Morro da Congonha, no Rio de Janeiro, tentando alertar à polícia militar que a mulher baleada e algemada por eles era Cláudia Silva Ferreira, moradora da comunidade, trabalhadora e mãe, ela foi colocada no camburão. Cacau, como era chamada por familiares e amigos, passou a ser conhecida pelo Brasil inteiro como “a mulher arrastada” por ter sido vítima de um crime que escancarou a desumanização, a crueldade, a violência e o racismo institucional a qual corpos negros estão sujeitos no Brasil. Cláudia era alguém, mas para a polícia ela era mais uma suspeita, era mais uma ameaça que precisava ser exterminada.  

A peça homônima à degradante alcunha que Cacau recebeu remonta esse caso. O caso de uma mulher negra, periférica, auxiliar de serviços gerais e semianalfabeta que havia saído de casa com a missão de comprar leite e pão para os filhos, mas que terminou sendo vítima de disparos policiais, colocada dentro do porta-malas da viatura e arrastada por 350 metros. Sim, arrastada, porque a trava do camburão não foi fechada. “A Mulher Arrastada”, escrita pelo dramaturgo Diones Camargo e dirigida por Adriane Mottola, traz a tona duas vozes: a da vítima, Cláudia, e a de um policial que tenta escapar do julgamento do crime.  O espetáculo já foi apresentado algumas vezes em Porto Alegre. Estivemos na sessão mais recente, na casa de Cultura Mario Quintana, quando a peça integrou o projeto Cenas Diversas, que busca visibilizar a diversidade cultural e social nas artes cênicas gaúchas.

Foto: Regina Peduzzi Protskof

Da vida real para o impacto nos palcos

Celina Alcântara, atriz e professora do Instituto de Artes da UFRGS que interpreta Cacau, ecoa as vozes-negras de outras mulheres, grita contra o racismo estrutural, o feminicídio e a banalização de situações de violência extrema a qual mulheres pretas estão expostas simplesmente por existirem. Por meio de um texto potente e cortante, ela escancara o fato de mulheres negras, em geral, serem vistas como uma probabilidade. Probabilidade de receberem menos anestesia em procedimentos médicos, de serem as maiores vítimas de violência doméstica, de terem menos acesso à saúde, à educação e de serem entendidas como algo que está abaixo do humano.

Já Pedro Nambuco, vive um policial que tenta se livrar da acusação do crime pelo qual é acusado e para isso faz uso dos mais sórdidos, baixos e, infelizmente, recorrentes e reais recursos para se livrar da culpa judicial por ter cometido o crime. Culpa judicial, porque a culpa moral não existe. O personagem não demonstra arrependimento e personifica em si a grande parcela da população que vira o rosto para o extermínio da população negra e periférica brasileira. Ao correr pelas laterais do palco, fugir do centro da cena e esgueirar-se do olho do público.

O ato foi desenvolvido no centro da sala Carlos Carvalho, que virou uma arena. As cenas foram desenvolvidas cercadas por pessoas de todos os lados, pessoas que ficaram hipnotizadas pelos monólogos que escancaram de modo machadiano, realista, cruel e necessário, o modo como o corpo de Cláudia ficou após o crime. Como aquele corpo que já foi abraço, conforto e luta ficou desfigurado, salientou a irrelevância que aquela vida arrastada no asfalto tinha e tem para o poder público e como o caso foi encarado apenas como um deslize, um pequeno erro do policial que demonstra apenas frieza.

Foto: Regina Peduzzi Protskof

Alcântara, com uma interpretação ímpar, faz uso do espaço cênico, utiliza corpo e voz com a maestria e a inteligência de quem sabe como impactar o espectador e busca resgatar a humanidade negada à população preta e por meio da personagem, já morta, que dialoga com o público e relata o que aconteceu e tudo o que ela pensou no dia de sua morte. O espetáculo ganha força e fica ainda mais contundente com a trilha sonora de Felipe Zancanaro que acompanha o crescimento da peça. A iluminação muito bem pensada de Ricardo Vivian prende a atenção do público nas personagens centrais durante os monólogos e a cenografia friamente minimalista de Zoé Degani arrematam a atmosfera tensa do espetáculo.

A peça exprime a realidade triste e desanimadora de um país que reduz a existência de uma maioria marginalizada ao pó. De um judiciário que arquiva centenas de processos de homicídios institucionais e que encerra investigações com a frieza de quem não pondera que por trás daquele corpo que foi baleado e arrastado, que por trás desse projeto de extermínio em massa existem famílias inteiras que ficam sem um porquê, sem uma explicação ou julgamento para os envolvidos no crime. A brutalidade do caso de Cláudia fica impregnada na sala, deixa-nos imóveis, emocionados, revoltados e reforça a nossa impotência frente àquele corpo negro que sai de cena coberto por um lençol.

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