Texto: Airan Albino
Fotos: Lidiane Bach

No dia 15 foi inaugurada a exposição ETNOS – faces da diversidade, no Santander Cultural, sob a curadoria de Marcello Dantas. A mostra faz parte do acordo firmado entre a instituição e o Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul (MPF/RS), no qual o Santander se comprometeu a patrocinar duas exposições sobre diferença e diversidade na ótica dos direitos humanos. A medida foi publicada no começo desse ano após a apuração do MPF sobre o caso do Queermuseu. Entretanto, a proposta de Dantas foi elaborada antes dos ataques de grupos como o Movimento Brasil Livre (MBL), em setembro de 2017, na capital Porto Alegre.

A ETNOS reúne uma coleção de 173 máscaras com a ideia de reconhecer a diversidade cultural em que convivemos e identificar pontos em comum na essência humana, entre tanta diferença. Segundo o texto curatorial, “O que diferencia uma etnia de outra não são os corpos, não são os anseios de felicidade e nem o instinto de vida e de amor. O que diferencia uma etnia de outra são as visões de mundo, as culturas e, para capturá-las, há um atalho”. Dantas levou um ano pesquisando sobre o uso de artefatos faciais (adornos, pinturas e máscaras) e constatou que, praticamente, todos os grupos étnicos possuem essa característica.

Uma máscara representa poder. Possibilidades que indicam transgressão, anonimato, impunidade, sexualidade, sabedoria, humor, guerra, demônios, morte, um passaporte de empoderamento. O curador bebe muito nos estudos do mitólogo Joseph Campbell (1904-1987), autor de “O poder do mito” e “O herói de mil faces” sobre o papel que tais instrumentos desempenham na vivência dos mitos. Campbell defende que existe uma unidade mítica dentro da diversidade exterior, por meio das máscaras, podemos chegar ao mesmo local mítico, no Olimpo.

A máscara/capacete de Darth Vader é uma das grandes referências da exposição (Crédito: Lidiane Bach)

Marcello Dantas afirma que “a diversidade precisa existir no mesmo tempo”, por isso a premissa da exposição é a de que o conjunto de máscaras participe de um ritual vivo na atualidade, no sentido mais amplo da palavra. Com uma leitura na horizontal são apresentados os 173 artefatos, que perpassam os carnavais de Veneza, da Suíça e da Colômbia, as religiões de matriz africana, o Teatro Nô japonês (que concentra a arte da interpretação nos pilares da música, do movimento e do canto), peças coreanas, chinesas e de culturas nativo americanas. E validando o discurso de ritual, há, também, máscaras de fetiche, de contraventores e da cultura pop. A coleção se formou por diferentes acervos, como o Museo Rafael Coronel, de Zaratecas (México), que tem mais 11 mil máscaras, o Memorial da América Latina, de São Paulo, o Museu do Índio, no Rio de Janeiro e coleções individuais.

O atributo fundamental da máscara é o de ocultar a face de seu portador, ato que pode ser visto como subversivo, um símbolo de revolta, de não conformidade. Em mais de 20 países, o uso de máscaras em manifestações públicas é ilegal. Além disso, um mascarado aciona o medo ao ocupar o imaginário com episódios brutais na história, como o da Ku Klux Klan no começo do século XX e o do Estado Islâmico, mais recentemente. “A máscara nos permite fazer coisas que, sem elas, nós não poderíamos fazer”, relaciona Dantas.

Um adereço de transformação que se encaixou a uma das manifestações culturais do homem: o cinema. Em 1898, Alfred Cort Haddon (1855-1940) levou uma câmera ao Estreito de Torres, em Papua-Nova Guiné, e fez o registro pioneiro apenas três anos depois da invenção dos irmãos Lumière. O filme da performance de um aborígene portando uma máscara em um ritual é um dos destaques da exposição ETNOS. A mostra ainda explora outros ícones do cinema, super-heróis como o Homem-Aranha, e vilões como o Darth Vader. A máscara de Salvador Dalí, que ficou popular com a série “La Casa de Papel”, faz parte da coleção. O universo pop também aparece por meio da música, a dupla francesa Daft Punk e a cantora islandesa Björk foram artistas selecionados por causa dos códigos que suas canções suscitam, mas que suas faces não simulam. Artistas visuais contemporâneos que utilizaram máscaras estão presentes na mostra. O canadense Beau Dick, o português Miguel Moreira e Silva, o camaronês Pascale Marthine Thayou e o francês Pierre Huyghe reinterpretaram a máscara como um agente que traduz a força que uma obra pode ter sobre quem é imantado por ela.

A ideia da ETNOS é fazer com que as pessoas percebam as afinidades dos artefatos e conheçam outras culturas que utilizam máscaras (Crédito: Lidiane Bach)

O critério escolhido para a disposição das máscaras na exposição foi afinidade. Assim, a ideia é entender que elas são onipresentes, criando uma linguagem universal em si mesmas. Conforme o texto curatorial, a ETNOS quer mostrar a beleza de uma linguagem não verbal das máscaras, pois ela abre a nossa cabeça para a formulação de perguntas para as quais não temos respostas. “O que existe na sutil conexão entre essas diversas manifestações culturais é algo que pertence somente à percepção humana. As máscaras mostraram um caminho para reconhecer a necessidade humana de experimentar outro estado de consciência e de espírito, de exercer um poder validado por seu grupo. São um artifício que toda a humanidade encontrou, não importa a sua origem no planeta ou realidade cotidiana. Se, por um lado, elas permitem incorporar códigos reconhecidos pela sua cultura de origem, quanto mais nos tornamos diversos e miscigenados mais aprendemos a reagir a esses códigos. Essa reação nos certifica de que a diversidade se interiorizou em nós.”

A  ETNOS – faces da diversidade está no Santander Cultural (Rua Sete de Setembro, 1028 – Centro Histórico – Porto Alegre), a exposição vai até o dia 7 de outubro. Funciona de terças-feira a sábado, das 10h às 19h. Domingo, das 13h às 19h. Não abre segundas-feiras e feriados. A entrada é franca.

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